31 de mar de 2014

Não me envergonho do Evangelho, mas...

Nesses últimos dias tenho acompanhado uma tendência nas redes sociais, a de um evangélico desafiar outro para testemunhar de Cristo, mais precisamente para dizer que não se envergonha do evangelho. Não me lembro de ter recebido tal desafio por alguém para fazê-lo. Caso já o tenha sido, ou talvez, antes que aconteça, decidi expressar meu posicionamento a respeito de Cristo, do evangelho e dos evangélicos. A princípio quero ressaltar que considero a iniciativa interessante, oportuniza a pregação do evangelho de Cristo, e como disse Paulo aos Filipenses, importa que o evangelho seja pregado.
Não me envergonho do evangelho, pois essa é uma boa nova, notícia alvissareira de graça, que conduz à vida o pecador mais relutante. Mas me envergonho de muitos líderes transformarem o evangelho em um fardo pesado, que nem eles mesmos o carregam, mas os colocam sobre outros para oprimi-los. Não me envergonho do evangelho, pois se trata de uma mensagem de graça, que não impõe sobre o pecador qualquer mérito para a salvação. Envergonha-me ver alguns pregadores, loteando o céu para que as pessoas cumpram determinados preceitos para a ele adentrarem. O evangelho de Jesus Cristo é para todo aquele que crê, não depende do que alguém faça ou deixe de fazer.
Não me envergonho do evangelho, pois Jesus foi revolucionário em sua mensagem, principalmente no que tange às riquezas deste mundo. Envergonha-me ver tantos apóstolos, bispos e pastores obcecados pelo dinheiro, dobrados diante de Mamom, investindo na raiz de todos os males. Não me envergonho do evangelho, pois ele nitidamente se preocupa com os mais pobres e necessitados. Envergonho-me daqueles que querem fazer fortuna através do ofício eclesiástico. Esses não têm qualquer preocupação com os mais pobres da igreja, não se sensibilizam com aqueles que estão passando por privações. O cristianismo, desde o princípio, foi comunitário, demonstrou interesse por aqueles que nada tinham, voltava-se para os desamparados.
Não me envergonho do evangelho, pois seu maior poder está no amor, na entrega incondicional pelo outro, independentemente da condição social. Mas me envergonho de ver tantos líderes viciados no poder terreno, que vendem os irmãos a cada período eleitoral, que tiram vantagens políticas em detrimento da miséria social. Não me envergonho do evangelho, pois este valoriza os tesouros celestiais que a traça não corrói. Envergonho-me ao ver os descalabros que são feitos para beneficiar as panelinhas, se utilizando inclusive do dinheiro público, tendo a audácia de fazer oração de gratidão pela propina recebida, escandalizando a verdade sagrada.
Como Paulo, não me envergonho do evangelho, debruço-me sobre essa mensagem todos os dias. Estou ciente que essa é mais que uma ideologia, e que não está atrelada a posicionamentos políticos, sejam eles de direita ou de esquerda. Não me envergonho do evangelho por causa do seu caráter profético, e justamente por estar acima da história, considerando que este procede daquele que veio da eternidade, por isso não pode ser enclausurado em qualquer sistema humano. Não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos que se dizem evangélicos, que não abrem as páginas das Escrituras, principalmente dos evangelhos, para saber o que neles está escrito.
Não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos evangélicos, que não sabem o que estão dizendo, pois não consideram o evangelho ao qual dizem pertencer. Envergonha-me constatar, nos pronunciamentos midiáticos, que muitos que se identificam como evangélicos, não têm compromisso com a Palavra de Deus. Envergonho-me da falta de disposição para o sacrifício dos evangélicos, muitos deles sequer sabem que Cristo deixou uma cruz a ser carregada. Por isso, me envergonho quando, vez por outra, aparece alguém na mídia, propalando ter se tornando evangélico, com uma mensagem de felicidade fácil, geralmente tirando proveito dos mais simples.
Antes que o desafio chegue até mim, através das redes sociais, quero me adiantar, e declarar, com veemência, e com certa tristeza, que não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos que se dizem evangélicos. 

18 de mar de 2014

Que tipo de teólogo você quer ser?

Houve um tempo em que o estudo teológico não era valorizado, principalmente no contexto pentecostal. Felizmente esse quadro tem se alterado nesses últimos anos, temos observado um interesse crescente pelo estudo a respeito das coisas de Deus. Mas há muitos excessos em relação ao significado do fazer teológico. Em alguns casos, os disparates acabam por desabonar o exercício dessa prática. Há aqueles que se ufanam por causa da formação, outros que se ensoberbecem pelo conhecimento que adquiriram através do estudo doutrinário. Ciente dessa realidade, pretendemos, neste texto, tecer algumas considerações a respeito da teológica, mais especificamente sobre o papel do teólogo na igreja cristã.
Destacamos, a princípio, que todos aqueles que são cristãos, queiram ou não, são teólogos. O termo teologia quer dizer “discurso a respeito de Deus”. Sendo assim, qualquer pessoa que conversa sobre Deus está fazendo teologia, seja em casa, na rua, no trabalho, e até na igreja. Em virtude do estudo acadêmico, há aqueles que defendem que a teologia é uma área de conhecimento específica para aqueles que fazem cursos. Evidentemente existem bons e maus teólogos, ou seja, aqueles que se aproximam de Deus em espírito e em verdade (Jo. 4.23) e aqueles que se baseiam no achismo, nas suas impressões sobre o que pensa ser verdadeiro ou falso sobre Deus. Essa última possibilidade é perigosa porque pode resultar em uma visão deturpada sobre Deus, desviando-se para um deus, com “d” minúsculo (Dt. 11.16).
A prática teológica deve nos conduzir à verdade, mas principalmente à alegria de amar a Deus. O conhecimento teológico não pode apenas ser racional, precisa também ser pessoal, na direção ao Deus que se revela. Esse ato comunicativo de Deus deve ser celebrado pelo teólogo, por isso deve permanecer sempre deslumbrado pela graça de conhecer. A teologia é um ramo do conhecimento, por sua própria natureza, prazeroso e respaldado pelo amor Àquele que se fez conhecido (Sl. 147.11). Fazer teologia, nessa perspectiva, é uma peregrinação jubilosa. É maravilhoso saber que Deus se deu a conhecer em Jesus Cristo, e pelo Espírito Santo (Jo. 3.34,36; Rm. 8.11; Fp. 3.3). Cristo é ápice da revelação de Deus (Hb. 1.1,2), Aquele que conhece plenamente o Pai, e que nos mostra com graça Seu amor pelos pecadores (Mt. 11.27).
Jesus nos ensinou que o pensar sobre Deus deve estar voltado à vida, por isso o teólogo deve saber que está envolvido em uma ciência prática, e se distanciar do pensamento meramente especulativo. Há alguns teólogos que não querem compromisso ético com a Palavra, por esse motivo preferem a teologia especulativa. Esse é um grande equívoco, as passagens sábias de Provérbios nos lembram que a verdadeira sabedoria repousa na obediência, alicerçada no temor ao Senhor (Pv.1.7;  4.23). O teólogo sadio é aquele que cultiva não apenas o raciocínio, mas também a espiritualidade na relação entre verdade e amor (Gl. 5.22-26). Ele é alguém sempre tocado pela Palavra que se fez carne, que submete inclusive a razão à fé, ao testemunho dos profetas e apóstolos (Lc. 24.25-27; I Co. 3.10-16; Ef. 2.20).
Isso somente poderá acontecer se o teólogo conciliar estudo bíblico com oração, investindo em seu relacionamento pessoal com Deus (Jo. 15.1-17; I Ts. 5.17). A oração é implicada no fazer teológico, assim o estudioso da Palavra demonstra sua limitação, sobretudo, na dependência ao Espírito que perscruta as coisas espirituais (I Co. 2.9-13). Por estar consciente de que foi alcançado pela revelação, o teólogo não pode pender para a arrogância, muito pelo contrário, precisa ser um exemplo de humildade (Mt. 18.1-4; Tg. 4.6; I Pe. 5.5). Tal humildade deve ser concretizada nos relacionamentos com o próximo, nunca se achando melhor ou maior do que os outros (Fp. 2.1-5). A humildade do teólogo é um testemunho de fé para aqueles que o cercam, ao demonstrar para os outros que estamos todos debaixo de senhorio de Cristo.
O teólogo também deve estar comprometido com a mudança da realidade na qual está inserido. Não há compatibilidade bíblica entre teologia e opulência, pois a relação é entre teologia, sofrimento e justiça (Tg. 1.17). Ser teólogo significa se envolver na discussão sobre práticas sociais injustas, colocando sua voz a serviço dos necessitados, lembrando também que Cristo se identificou com os pobres (II Co. 8.9). Cabe a ele também a responsabilidade de trazer uma palavra de alento e esperança àqueles que passam por sofrimento (Jo. 17.15-19; I Co. 1.25-31; Fp. 2.15). A teologia não pode ser uma ciência a ser exercida apenas dentro das quatro paredes do templo, ela precisa ir às praças, chegar até os palácios, quando necessário denunciado as injustiças (Is. 1.18; 58.3-8). O teólogo não é alguém separado da realidade social, não está em uma torre de marfim, distante dos problemas da sociedade (Am. 2.7; 5.7).
O teólogo também não pode se desvincular da igreja, ele faz parte do corpo universal de Cristo, por isso precisa aprender a dialogar com as doutrinas históricas. As Escrituras devem sempre fundamentar o pensamento teológico (Mt. 15.3-9), considerando também o que a tradição, não o tradicionalismo, tem a dizer. Tradição é o exame do que a igreja acreditou ao longo da história em relação a determinadas doutrinas bíblicas. O tradicionalismo é a crença de que a verdade está na própria doutrina, colocando-o em posição de superioridade, acima da Bíblia. Uma igreja verdadeira não teme os teólogos sérios, aqueles que exercitam a verdade em amor. Isso porque os teólogos auxiliam a igreja para que essa continue no caminho, não se afaste para a esquerda, muito menos para a direita.
Isso é possível porque o teólogo é alguém que se pauta pelas Escrituras, que se regozija na Palavra de Deus (Sl. 119.162). A fuga da revelação bíblica sempre foi uma tentação para os teólogos ao longo da história do cristianismo. Mas a saúde da igreja foi resguardada na medida em que Deus levantou homens e mulheres comprometidos com a revelação. O teólogo é alguém que se aproxima das Escrituras com seriedade, que não subverte os textos a seu bel-prazer, que respeita o que o Autor quis dizer. Por essa razão o teólogo se volta para a convicção de que Deus é Alguém que fala (Hb. 1.1-3; Jo. 1.1). O tratamento do teólogo, no que tange às Escrituras, é de submissão, pois ao se aproximar delas, sabe-se estar diante de um texto proveniente do Espírito de Deus (II Tm. 3.16).
Mais que isso, o texto bíblico, diante do qual o teólogo se encontra, o interpela a mudança de vida. Tendo em vista que a palavra de Deus é proveitosa, para ensinar, redarguir, corrigir e treinar para justiça, para que o homem e a mulher de Deus sejam equipados para toda boa obra (II Tm. 3.16,17). O teólogo que serve a Deus não quer apenas refletir, não se satisfaz com a mera especulação, antes se lança diante do desafio de mudar a si mesmo, fugindo do pecado em busca da santificação (Sl. 119.9-11). A vida do teólogo cristão é pautada pela lâmpada que alumia seus caminhos (Sl. 119.105). A menos que esteja redimido diante da cruz, em uma disposição de subserviência, sobretudo de reverência a Deus, o teólogo não passará de um pensador, às vezes, fugindo  dAquele diante do qual todo joelho deve se dobrar (Fp. 2.10,11).