4 de out de 2013

O triunfo da graça em Os Miseráveis

Os miseráveis está na pauta, o livro escrito por Victor Hugo foi mais uma vez levado às telas. Desta feita no gênero musical, arrebatando corações e muitos prêmios. Tive a oportunidade de ver o filme, e de também me emocionar. Mas resolvi retornar ao livro, que já havia lido tempos atrás. Relutei antes de fazê-lo, pois mesmo sendo dado à leitura, não foi fácil se debruçar sobre mais de 1.000 páginas. Segui sem pressa, deixando o tempo passar, lendo pequenas porções ao longo deste ano. Neste dia, após uma paciente jornada, concluo a leitura do último capítulo, sinto-me instigado a socializar algumas impressões dessa obra clássica da literatura universal.
Quando peguei o tomo, decidi fazer uma leitura teológica do texto que resultaram em uma série de anotações às margens das páginas, muitas delas estão sublinhadas. Parece-me inegável que o autor foi extremamente influenciado pelos relatos bíblicos. O tema central da obra é a relação de confronto entre lei e graça, assunto discutido por muitos pensadores. As Epístolas de Paulo estão repletas de orientações cristãs quanto à função da lei, para apontar o pecado, e da graça, como escape divino para a redenção. Agostinho de Hipona, tocado pela Epístola de Paulo aos Romanos, desenvolveu esse assuntos em seus escritos. O mesmo fez o teólogo católico Erasmo de Roterdã, e os protestantes Lutero e Calvino.
A partir dessa tradição, a lei, nomos no grego, é sempre uma projeção humana, e, de certo modo, uma exigência divina. Paulo, em seus escritos, reconhece a necessidade da lei, mas apenas como meta a ser perseguida, ainda que não seja alcançada. Justamente por causa dessa limitação a graça, charis em grego que carrega o significado de favor imerecido, entra em ação. A graça de Deus é a manifestação do próprio Cristo, nEle se encarna o Favor de Deus, a disposição de aceitar o pecador, independentemente da sua condição moral. Cristo, nos relatos dos Evangelhos, é apresentado como Aquele que se aproxima, e diferentemente dos religiosos da Sua época, abraça as pessoas marginalizadas pelos padrões humanos. Assim como o pai do filho pródigo, Jesus se compadece dos pecadores.
Os Miseráveis dialoga intertextualmente com esses valores cristãos, nem sempre observados pela sociedade, fundamentada no moralismo legalista. Jean Valjean, o prisioneiro condenado a viver debaixo da égide da lei, é alcançado pela graça de um cristão, que levou a graça às últimas consequências. Ao invés de imputar sobre ele o juízo, lhe estende a mão e o agracia com o perdão. Essa atitude desequilibra o infrator ao perceber naquele ato a inversão da lógica humana pela intervenção divina. Javert, o policial que busca colocar Valjean detrás das grades representa a lei, em sua extensão mais cruel, a que não vê pessoas, apenas números e rótulos. As declarações desse homem da lei fazem eco às falas dos fariseus legalistas do tempo de Jesus, que O censuravam por se acercar de pecadores.
Valjean, ao ser tocado pela doutrina graça, decide viver não mais debaixo da lei. Ele olha para Fantini, a prostituta, como alguém que foi colocada naquela situação. Seu pecado não é visto isoladamente, mas dentro de uma teia maior, resultante de outros pecados sociais, dentre eles, a ganância. A morte daquela mulher seria motivo de celebração para alguns, uma a menos entre as párias da sociedade. Não para Jean Valjean, pois não está diante de um objeto, mas de uma pessoa digna de honra. Cosette, a filha de Fantini, simboliza a esperança, a possibilidade para a qual a graça aponta. Ao encontrá-la, perdida no mundo, Valjean, o homem agraciado, age com graça, e não mede esforços para redimir aquela pobre existência.
Os Miseráveis é um grande tratado litero-teológico, uma expressão de que a graça pode vencer. Ao concluir a leitura desse clássico, reflito sobre as atitudes de Jesus, perdoando até mesmo aqueles que O executaram. Volto-me para a possibilidade da redenção humana, concretizada em Jean Valjean, materializada no Evangelho a cada vez que Jesus recebia um pecador. A lei e a graça estão em disputa a todo instante, a primeira sempre mostrando aonde devemos ir, sem nos conduzir ao local desejado. A graça, por outro lado, nos atrai, com ternura, na pessoa de Cristo, para onde nem mesmo imaginávamos. A justiça do cristão excede a dos fariseus, é o escândalo da cruz, do sacrifício para com os que não merecem. Javert não suportou o impacto da graça, lançou-se no abismo, negando-se a assimilar outra possibilidade existencial.
A graça de Deus é maravilhosa, espanta aos que vivem debaixo da lei. Os fariseus não compreenderam, preferiram fechar os olhos. Cristo, a graça de Deus manifestada, é absurda para aqueles que se pautam pela norma. A justiça de Deus é o auto-sacrifício, a entrega incondicional pelo outro. Jean Valjean somos todos nós, que em algum momento da vida nos percebemos pecadores atingidos pela graça. Nada merecemos de Deus, não passamos de meros miseráveis, carentes de aceitação. Quando a graça nos alcança, ficamos estupefatos, a religiosidade se desequilibra. Somente aqueles que vivem a partir da graça podem, tal como Valjean, triunfar em um mundo marcado pelo legalismo.