24 de dez de 2013

Plena identidade em Deus

A identidade humana é uma dispersão, não somos um como defendem alguns pensadores, mas uma multiplicidade de eus. Há sociólogos que atribuem essa condição à pós-modernidade, a uma construção de influências, especialmente no contexto da globalização. Mas a raiz da fragmentação identitária não está somente na cultura, somos seres caídos, e para utilizar uma expressão teológica, pecadores. Se preferirmos uma terminologia filosófica, podemos assumir que somos seres incompletos ou inacabados.
Não somos quem gostaríamos de ser, ou somos aquilo que somos, e ao mesmo tempo, aquilo que não queríamos ser. Paulo, em sua Epístola aos Romanos, expressou essa condição humana, ao explicitar que havia, dentro dele, vontades em confronto. Para ele, o bem que queria fazer não conseguir, e justamente o mal que aborrecia era o que fazia. A psicologia moderna, em sua expressão freudiana, expande essa percepção paulina. O ser humano é constituído por interesses distintos, regidos pelo desejo que o impele para agir para além da razão.
De acordo com a revelação bíblica, a existência humana está alicerçada nesse embate, explicitado por Paulo em sua Epístola aos Gálatas como uma batalha entre a carne e o espírito. Em oposição ao pensamento do bom salvagem, os escritores sacros reconhecem que o homem é mau, o próprio Jesus atestou essa verdade. Paradoxalmente, ele não é apenas mau, existe algo de bom em cada um deles, mas que nem sempre se sobressai por causa do desejo que se sobrepõe. É essa fragmentação que constitui a identidade humana, uma série de vontades, que são ampliadas pelas influencias culturais.
Evidentemente assumimos alguns papeis sociais, dentro de um repertório de possibilidades. Nossas escolhas costumam recair dentro desse leque, geralmente estabelecido pelos posicionamentos sociais. A força institucional é inegável na consolidação de tais papeis, é a partir dela, mais precisamente, dentro dos seus parâmetros, que nos identificamos. Nesta sociedade, consumista e individualista, temos dificuldade de exercitar a generosidade e a coletividade. Queremos fazer aquilo que nos realiza, para o qual fomos criados, mas não conseguimos, pois somos impelidos, pelo meio, a usar as máscaras que o script determina.
Não que essa seja uma situação determinada, há possiblidade de agenciamento, ou seja, de mudarmos a realidade. Mas essa não é uma tarefa fácil, na maioria das vezes é bastante incômoda. Nossas limitações nos lançam de um lado para o outro, às vezes em conflito interno, estilhaçados pelas forças antagônicas, e não poucas vezes tentado nos reconstruir. Enquanto estivemos nessa condição, não seremos capazes de ser realmente quem gostaríamos de ser. É no contato com Aquele a quem chamamos de Deus que podemos ser quem realmente deveríamos.
A identidade do ser humano, ainda que não queiramos reconhecer, se encontra nEle, nAquele que é a expressão maior do amor de Deus. Jesus Cristo, o homem-perfeito, é a manifestação concreta da identidade plena. O desafio de todos os homens e mulheres, em todos os tempos, é o de reconstituir-se nEle. Para tanto precisamos abandonar nossas prerrogativas, ter coragem para abandonar as imposições sociais, nos voltamos para a expressão sublime da sua personalidade.
Somente em Cristo, através da atuação do Seu Espírito em nós, poderemos ser realmente quem deveríamos. Paulo admite que essa é uma posição de liberdade, que se inicia no Espírito, e que precisa ser cultivada no tempo presente, mas que será completada apenas na eternidade.