11 de dez de 2013

Apologia cristã em As Crônicas de Nárnia

Um livro que nos conduz para além da realidade tangível, que nos lança no mundo da imaginação repleto de criatividade, assim pode ser descrita a coleção de livros escrita pelo autor irlandês C. S. Lewis. Jack, como também era conhecido, trilhou um longo caminho pelo ateísmo, até que, sob a influência de J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis, acabou se voltando ao cristianismo. Esse convertido relutante precisou ser batizado pela literatura imaginária para finalmente entregar-se aos ensinamentos dos quais havia se distanciado na juventude. Depois do retorno à peregrinação cristã dedicou-se com afinco à defesa da fé, escrevendo livros e tratados com teor apologético.
Esses livros teológicos fundamentam as discussões de muitos apologistas cristãos do nosso tempo. Lewis foi sempre um defensor de que o cristianismo é como a luz do sol, não apenas porque as pessoas podem vê-lo, mas também porque podem ver tudo mais a partir dele. Por esse motivo, percebia a realidade sempre a partir dessas lentes, fazendo o mesmo em relação à sua produção literária. Professor conceituado de literatura renascentista e medieval em Cambridge e Oxford, Lewis orquestrou seu conhecimento para criar um mundo imaginário, cheio de fantasia, resgatando a beleza dos contos de fadas.
Muito embora seus livros de fantasia tenham um forte apela infanto-juvenil, adultos de todos os tempos são tocados pela criatividade dos seus textos. Ele lembrou certa feita que, em algum tempo, as pessoas despertariam para o valor dos contos de fadas. As crônicas de Nárnia, a obra mais conhecida de Lewis, faz apologia à fé cristã de uma maneira que alcança sutilmente todos aqueles que com ela fazem contato. Do primeiro ao último livro da série, somos tomados pela esperança, isso porque o inverno da vida se faz verão a cada vez que Aslam se faz presente. O Leão de Nárnia é uma alusão direta à pessoa de Cristo, aquele que morre e retorna a vida, sendo Senhor amoroso daquele mundo.
A figura de Cristo construída ao longo da obra é feita com tal maestria que é admirada até mesmo pelos eruditos da alegoria. Aslam é o leão perdoador, que se sacrifica pelos outros, que não pode ser domado, que se relava ao mesmo tempo em que se oculta. Em alguns livros da série, como em O Príncipe Caspian e A Cadeira de Prata, Aslam é esquecido pelos habitantes de Nárnia. Em A Última Batalha os habitantes de Nárnia são enganados por aqueles que fazem se passar por Ele, até que são finalmente desmascarados. Como Cristo, Aslam é adorado, e reconhecido como o Senhor. A descrição de Lewis fez intertexto direto com a narrativa dos evangelhos.
Nas entrelinhas da obra encontramos uma defesa cristã que apela à imaginação, que nos liberta das cadeias materialistas que querem nos aprisionar. Em Nárnia nos deparamos com um mundo que nos torna quem de fato somos, e que nos aproxima dAquele a quem nossa alma aspira. Mais interessante, como também destacou Tolkien, aqueles que passam por essa experiência, não são meros escapistas. Muito pelo contrário, o contato com Nárnia aumenta nossa responsabilidade enquanto aqui estivermos. Por conhecer um mundo totalmente diferente, no qual Aslam é o Senhor, que rege com justiça e amor, devemos, nesta era, viver a partir daquele reino, e sempre que possível, sabotar o império dos que a ele se opõe.