24 de dez de 2013

Plena identidade em Deus

A identidade humana é uma dispersão, não somos um como defendem alguns pensadores, mas uma multiplicidade de eus. Há sociólogos que atribuem essa condição à pós-modernidade, a uma construção de influências, especialmente no contexto da globalização. Mas a raiz da fragmentação identitária não está somente na cultura, somos seres caídos, e para utilizar uma expressão teológica, pecadores. Se preferirmos uma terminologia filosófica, podemos assumir que somos seres incompletos ou inacabados.
Não somos quem gostaríamos de ser, ou somos aquilo que somos, e ao mesmo tempo, aquilo que não queríamos ser. Paulo, em sua Epístola aos Romanos, expressou essa condição humana, ao explicitar que havia, dentro dele, vontades em confronto. Para ele, o bem que queria fazer não conseguir, e justamente o mal que aborrecia era o que fazia. A psicologia moderna, em sua expressão freudiana, expande essa percepção paulina. O ser humano é constituído por interesses distintos, regidos pelo desejo que o impele para agir para além da razão.
De acordo com a revelação bíblica, a existência humana está alicerçada nesse embate, explicitado por Paulo em sua Epístola aos Gálatas como uma batalha entre a carne e o espírito. Em oposição ao pensamento do bom salvagem, os escritores sacros reconhecem que o homem é mau, o próprio Jesus atestou essa verdade. Paradoxalmente, ele não é apenas mau, existe algo de bom em cada um deles, mas que nem sempre se sobressai por causa do desejo que se sobrepõe. É essa fragmentação que constitui a identidade humana, uma série de vontades, que são ampliadas pelas influencias culturais.
Evidentemente assumimos alguns papeis sociais, dentro de um repertório de possibilidades. Nossas escolhas costumam recair dentro desse leque, geralmente estabelecido pelos posicionamentos sociais. A força institucional é inegável na consolidação de tais papeis, é a partir dela, mais precisamente, dentro dos seus parâmetros, que nos identificamos. Nesta sociedade, consumista e individualista, temos dificuldade de exercitar a generosidade e a coletividade. Queremos fazer aquilo que nos realiza, para o qual fomos criados, mas não conseguimos, pois somos impelidos, pelo meio, a usar as máscaras que o script determina.
Não que essa seja uma situação determinada, há possiblidade de agenciamento, ou seja, de mudarmos a realidade. Mas essa não é uma tarefa fácil, na maioria das vezes é bastante incômoda. Nossas limitações nos lançam de um lado para o outro, às vezes em conflito interno, estilhaçados pelas forças antagônicas, e não poucas vezes tentado nos reconstruir. Enquanto estivemos nessa condição, não seremos capazes de ser realmente quem gostaríamos de ser. É no contato com Aquele a quem chamamos de Deus que podemos ser quem realmente deveríamos.
A identidade do ser humano, ainda que não queiramos reconhecer, se encontra nEle, nAquele que é a expressão maior do amor de Deus. Jesus Cristo, o homem-perfeito, é a manifestação concreta da identidade plena. O desafio de todos os homens e mulheres, em todos os tempos, é o de reconstituir-se nEle. Para tanto precisamos abandonar nossas prerrogativas, ter coragem para abandonar as imposições sociais, nos voltamos para a expressão sublime da sua personalidade.
Somente em Cristo, através da atuação do Seu Espírito em nós, poderemos ser realmente quem deveríamos. Paulo admite que essa é uma posição de liberdade, que se inicia no Espírito, e que precisa ser cultivada no tempo presente, mas que será completada apenas na eternidade. 

23 de dez de 2013

Pode o cristão celebrar o Natal?

Existem vários tratados teológicos que criticam a comemoração natalina. Aqueles que assim se posicionam apresentam fundamentos bíblicos e históricos bastante convincentes. Os fatos parecem apontar que Jesus dificilmente teria nascido em dezembro. A observância dessa data, ao que tudo indica, sofreu influências de práticas pagãs. A celebração do nascimento de divindades era um costume adotado pelas antigas religiões. Ao que tudo indica, a expansão do cristianismo, em sincretismo com tais crenças, favoreceu a celebração natalina.
Por causa disso, não poucos teólogos questionam esse tipo de comemoração nos arraiais cristãos. Algumas igrejas, mesmo evangélicas, são rotuladas pejorativamente de adeptas de Constantino, uma alusão direta ao imperador responsável por cristianizar o império. Por causa disso, muitos evangélicos sentem-se incomodados com essas críticas, e por causa disso, há igrejas que estão abandonando o culto natalino. As imposições teológicas, em tais contextos, têm prevalecido, os argumentos são tão evidentes que não há como fugir às constatações dos teólogos.
Ter a coragem de defender a comemoração do Natal, diante de tais argumentos, parece ser uma tarefa insana, mas é o que nos propomos a fazer nas linhas a seguir. Devemos celebrar o Natal por uma razão bastante simples, mas que se justifica por si mesma, Cristo é, ou pelo menos deveria ser, a Pessoa central do Natal. Os cristãos devem se posicionar contra o consumismo, comum no período natalino, e que transforma essa época em uma mera aquisição de bens. A ênfase em outras figuras, como a do Papai Noel, também deve ser questionada, em prol de Cristo, o menino que nasceu em Belém.
Quando celebramos o Natal adotamos o mesmo princípio de Paulo quando entregou o seu famoso sermão ao Deus Desconhecido em Atenas. O Apóstolo dos gentios sabia que aquele não era o deus verdadeiro, mas se aproveitou da oportunidade para expor os fundamentos da fé em Cristo, enfatizando sua ressurreição. No Natal podemos fazer o mesmo, essa é uma oportunidade singular, na qual as pessoas estão mais sensíveis à fé, para mostrar o amor de Deus em Cristo, dando-nos o Seu presente inefável. Podemos lembrar, durante as festas natalinas, que o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.
O Natal é de Cristo, somente Ele é digno de ser adorado não apenas nesse período, mas em todo tempo. Ainda que Ele não tenha nascido em dezembro podemos celebrar nesta data, considerando que não é incomum alguém fazer aniversário em um dia e comemorar em outro. Ele pode muito bem não ter vindo a terra em dezembro, mas não importa, o mais importante é que Ele veio. Há quem defenda que devemos lembrar apenas sua morte, não seu nascimento, afirmando, com propriedade, que foi aquele evento, e não este, que recebeu atenção de Jesus. De fato, e já celebramos a morte de Cristo por ocasião da Ceia, e poderíamos fazer o mesmo no período da Páscoa, adotando o mesmo princípio em relação ao Natal.
O mais importante, conforme já ressaltamos anteriormente, é lembrar que o Deus se fez gente. Em Cristo, fomos visitados por Deus, Ele tomou a graciosa decisão de vir morar conosco, e sacrificar-se pelos nossos pecados. Em 1969, quando a nave Apolo 11 posou solo lunar, os jornalistas disseram que aquele havia sido o maior evento de todos os tempos. O evangelista americano Billy Graham interviu para reconsiderar tal afirmação. Ele rebateu dizendo que o maior acontecimento de todos os tempos não tinha sido o homem ter colocado os pés na lua, mas Deus ter posto os pés na terra, em Jesus Cristo. A habitação de Deus entre os homens, trazendo alegria, boas novas de paz, continua sendo a maior motivação para a celebração do Natal.
Cristo nasceu, naquela noite escura em Belém, não havia lugar para Ele nas estalagens da cidade. A criança, juntamente com seus pais José e Maria, encontrou guarida em uma estrabaria. Esse é um dado histórico, detalhadamente relatado por Lucas em seu evangelho, registrado com beleza por Mateus, reconhecendo que Jesus é o Emmanuel, Deus conosco. Mas a grande verdade é que Cristo nasce, existencialmente, a qualquer momento, na vida daqueles que O recebem como Senhor e Salvador das suas vidas. Consoante ao exposto, temos alguns motivos para não celebrar o Natal, mas temos o dobro de razões para fazê-lo. A presença de Deus, em Cristo, é a maior delas, e suficiente para nos dobrarmos diante dAquele que vive para todo sempre. 

11 de dez de 2013

Apologia cristã em As Crônicas de Nárnia

Um livro que nos conduz para além da realidade tangível, que nos lança no mundo da imaginação repleto de criatividade, assim pode ser descrita a coleção de livros escrita pelo autor irlandês C. S. Lewis. Jack, como também era conhecido, trilhou um longo caminho pelo ateísmo, até que, sob a influência de J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis, acabou se voltando ao cristianismo. Esse convertido relutante precisou ser batizado pela literatura imaginária para finalmente entregar-se aos ensinamentos dos quais havia se distanciado na juventude. Depois do retorno à peregrinação cristã dedicou-se com afinco à defesa da fé, escrevendo livros e tratados com teor apologético.
Esses livros teológicos fundamentam as discussões de muitos apologistas cristãos do nosso tempo. Lewis foi sempre um defensor de que o cristianismo é como a luz do sol, não apenas porque as pessoas podem vê-lo, mas também porque podem ver tudo mais a partir dele. Por esse motivo, percebia a realidade sempre a partir dessas lentes, fazendo o mesmo em relação à sua produção literária. Professor conceituado de literatura renascentista e medieval em Cambridge e Oxford, Lewis orquestrou seu conhecimento para criar um mundo imaginário, cheio de fantasia, resgatando a beleza dos contos de fadas.
Muito embora seus livros de fantasia tenham um forte apela infanto-juvenil, adultos de todos os tempos são tocados pela criatividade dos seus textos. Ele lembrou certa feita que, em algum tempo, as pessoas despertariam para o valor dos contos de fadas. As crônicas de Nárnia, a obra mais conhecida de Lewis, faz apologia à fé cristã de uma maneira que alcança sutilmente todos aqueles que com ela fazem contato. Do primeiro ao último livro da série, somos tomados pela esperança, isso porque o inverno da vida se faz verão a cada vez que Aslam se faz presente. O Leão de Nárnia é uma alusão direta à pessoa de Cristo, aquele que morre e retorna a vida, sendo Senhor amoroso daquele mundo.
A figura de Cristo construída ao longo da obra é feita com tal maestria que é admirada até mesmo pelos eruditos da alegoria. Aslam é o leão perdoador, que se sacrifica pelos outros, que não pode ser domado, que se relava ao mesmo tempo em que se oculta. Em alguns livros da série, como em O Príncipe Caspian e A Cadeira de Prata, Aslam é esquecido pelos habitantes de Nárnia. Em A Última Batalha os habitantes de Nárnia são enganados por aqueles que fazem se passar por Ele, até que são finalmente desmascarados. Como Cristo, Aslam é adorado, e reconhecido como o Senhor. A descrição de Lewis fez intertexto direto com a narrativa dos evangelhos.
Nas entrelinhas da obra encontramos uma defesa cristã que apela à imaginação, que nos liberta das cadeias materialistas que querem nos aprisionar. Em Nárnia nos deparamos com um mundo que nos torna quem de fato somos, e que nos aproxima dAquele a quem nossa alma aspira. Mais interessante, como também destacou Tolkien, aqueles que passam por essa experiência, não são meros escapistas. Muito pelo contrário, o contato com Nárnia aumenta nossa responsabilidade enquanto aqui estivermos. Por conhecer um mundo totalmente diferente, no qual Aslam é o Senhor, que rege com justiça e amor, devemos, nesta era, viver a partir daquele reino, e sempre que possível, sabotar o império dos que a ele se opõe. 

28 de nov de 2013

Igrejas que (des)consideram a Biblia


A Bíblia é a Palavra de Deus, um livro sem igual, uma manancial de vida. A igreja cristã, desde os seus primórdios, se voltou para sua mensagem como verdade expressa de Deus. E assim deve permanecer, nenhuma igreja poderia se dizer cristã a menos que levasse a sério a leitura das Escrituras. Não me refiro à utilização do texto como pretexto, para ser mais específico, da mera condução da Bíblia para o culto. Ou mesmo, a pincelagem de algumas passagens a fim de extrair o que é de interesse de alguém ou de determinado grupo.
Uma igreja que considera a Bíblia, toma-a em sua completude, reconhece que ela é a infalível Palavra de Deus, não apenas em partes, mas da primeira a última página. É isso que Paulo quer dizer ao destacar que toda Escritura é soprada por Deus, e mais importante, proveitosa para a edificação da igreja. Mas isso não quer dizer que a Bíblia tenha igual valor em suas partes. Existem textos que são sombras, que não podem ser interpretados, a menos que tenhamos a luz do evangelho. Essa luz é o próprio Cristo, o intérprete por excelência do texto. Ele deu exemplo da sua maestria hermenêutica após a ressurreição.
Na verdade, Jesus é a chave-interpretativa das Escrituras, ninguém pode ter uma apropriada compreensão do texto, seja do Antigo ou do Novo Testamento, sem recorrer ao que Cristo tem a dizer a respeito. Esse foi o problema dos religiosos do tempo de Jesus, eles tinham suas regras interpretativas, seus pressupostos doutrinários, que os distanciavam da revelação. Uma igreja séria se dedica, com afinco, ao estudo da Bíblia, não apenas em tópicos, mas principalmente, em ouvi-la de forma expositiva. A escola hermenêutica de Satanás adora citar textos bíblicos descontextualizados, sem respaldo cristocêntrico, a fim de conduzir ao engano.
Isso quer dizer que a Bíblia pode ser usada para distanciar as pessoas para longe de Deus. Existem várias igrejas que estão se apropriando indevidamente de passagens bíblicas para fundamentarem o que Cristo não defende. Aspectos gramaticais e contextuais são desconsiderados, pior ainda, a voz de Deus, em Cristo, não é ouvida. Por esse motivo, as páginas da Bíblia são transformadas em leis e regras, geralmente pesarosas. É por isso que em alguns arraiais ditos cristãos a Bíblia não tem a menor graça. Isso porque ao amor de Deus em Cristo, demonstrado na cruz do calvário, motivação para a santificação, é desconsiderado.
Existem muitas igrejas que não deveriam ser denominadas de evangélicas. Por uma razão muito simples, elas simplesmente não se voltam para o evangelho de Cristo. A autoridade maior está fundamentada em seus líderes. Eles determinam, a seu bel-prazer, como devem se conduzir seus adeptos. Está na hora de resgatarmos o ensino expositivo da Bíblia em nossas igrejas. E também ter a coragem de assumir que as igrejas que desconsideram a Bíblia, não devem, sob qualquer hipótese, serem reconhecidas como cristãs. Toda igreja se levanta ou fica de pé dependendo do modo como trata as Escrituras.
Na verdade, é pela forma que uma igreja se submete à Palavra de Deus que identificamos seu caráter evangélico. Uma igreja que não valoriza a Bíblia, em que essa é apenas um pretexto para interesses individuais. Em algumas delas os membros a conduzem, mas não a leem, e se o fazem, é debaixo dos óculos de um grupo, que mesmo desqualificado, determina como essa deve ser interpretada. A Bíblia pode ser interpretada por qualquer pessoa, contanto que essa escute o que a igreja tem a dizer, que esteja em consonância com Cristo, mas, sobretudo, que considere o que o texto quer realmente dizer, atentando tanto para os aspectos linguísticos quanto contextuais.
Que as igrejas, algumas delas ditas evangélicas, se voltem mais para a Palavra de Deus, que estudem a Bíblia, que seus líderes se dediquem à ministração expositiva, que as a interpretação do texto seja feita com seriedade. E mais importante ainda, que reconheçamos que a Bíblia não é apenas um livro de curiosidades, ou mesmo de perguntas difíceis, mas uma palavra fiel e verdadeira, útil e proveitosa para ensinar, para conduzir à santificação. Assim fazendo, ela, como espada poderosa que é, lerá nossas intenções, transformará as nossas vidas, e no Espírito, trabalhará em nosso caráter, até que sejamos encontrados no padrão de Cristo. 

4 de out de 2013

O triunfo da graça em Os Miseráveis

Os miseráveis está na pauta, o livro escrito por Victor Hugo foi mais uma vez levado às telas. Desta feita no gênero musical, arrebatando corações e muitos prêmios. Tive a oportunidade de ver o filme, e de também me emocionar. Mas resolvi retornar ao livro, que já havia lido tempos atrás. Relutei antes de fazê-lo, pois mesmo sendo dado à leitura, não foi fácil se debruçar sobre mais de 1.000 páginas. Segui sem pressa, deixando o tempo passar, lendo pequenas porções ao longo deste ano. Neste dia, após uma paciente jornada, concluo a leitura do último capítulo, sinto-me instigado a socializar algumas impressões dessa obra clássica da literatura universal.
Quando peguei o tomo, decidi fazer uma leitura teológica do texto que resultaram em uma série de anotações às margens das páginas, muitas delas estão sublinhadas. Parece-me inegável que o autor foi extremamente influenciado pelos relatos bíblicos. O tema central da obra é a relação de confronto entre lei e graça, assunto discutido por muitos pensadores. As Epístolas de Paulo estão repletas de orientações cristãs quanto à função da lei, para apontar o pecado, e da graça, como escape divino para a redenção. Agostinho de Hipona, tocado pela Epístola de Paulo aos Romanos, desenvolveu esse assuntos em seus escritos. O mesmo fez o teólogo católico Erasmo de Roterdã, e os protestantes Lutero e Calvino.
A partir dessa tradição, a lei, nomos no grego, é sempre uma projeção humana, e, de certo modo, uma exigência divina. Paulo, em seus escritos, reconhece a necessidade da lei, mas apenas como meta a ser perseguida, ainda que não seja alcançada. Justamente por causa dessa limitação a graça, charis em grego que carrega o significado de favor imerecido, entra em ação. A graça de Deus é a manifestação do próprio Cristo, nEle se encarna o Favor de Deus, a disposição de aceitar o pecador, independentemente da sua condição moral. Cristo, nos relatos dos Evangelhos, é apresentado como Aquele que se aproxima, e diferentemente dos religiosos da Sua época, abraça as pessoas marginalizadas pelos padrões humanos. Assim como o pai do filho pródigo, Jesus se compadece dos pecadores.
Os Miseráveis dialoga intertextualmente com esses valores cristãos, nem sempre observados pela sociedade, fundamentada no moralismo legalista. Jean Valjean, o prisioneiro condenado a viver debaixo da égide da lei, é alcançado pela graça de um cristão, que levou a graça às últimas consequências. Ao invés de imputar sobre ele o juízo, lhe estende a mão e o agracia com o perdão. Essa atitude desequilibra o infrator ao perceber naquele ato a inversão da lógica humana pela intervenção divina. Javert, o policial que busca colocar Valjean detrás das grades representa a lei, em sua extensão mais cruel, a que não vê pessoas, apenas números e rótulos. As declarações desse homem da lei fazem eco às falas dos fariseus legalistas do tempo de Jesus, que O censuravam por se acercar de pecadores.
Valjean, ao ser tocado pela doutrina graça, decide viver não mais debaixo da lei. Ele olha para Fantini, a prostituta, como alguém que foi colocada naquela situação. Seu pecado não é visto isoladamente, mas dentro de uma teia maior, resultante de outros pecados sociais, dentre eles, a ganância. A morte daquela mulher seria motivo de celebração para alguns, uma a menos entre as párias da sociedade. Não para Jean Valjean, pois não está diante de um objeto, mas de uma pessoa digna de honra. Cosette, a filha de Fantini, simboliza a esperança, a possibilidade para a qual a graça aponta. Ao encontrá-la, perdida no mundo, Valjean, o homem agraciado, age com graça, e não mede esforços para redimir aquela pobre existência.
Os Miseráveis é um grande tratado litero-teológico, uma expressão de que a graça pode vencer. Ao concluir a leitura desse clássico, reflito sobre as atitudes de Jesus, perdoando até mesmo aqueles que O executaram. Volto-me para a possibilidade da redenção humana, concretizada em Jean Valjean, materializada no Evangelho a cada vez que Jesus recebia um pecador. A lei e a graça estão em disputa a todo instante, a primeira sempre mostrando aonde devemos ir, sem nos conduzir ao local desejado. A graça, por outro lado, nos atrai, com ternura, na pessoa de Cristo, para onde nem mesmo imaginávamos. A justiça do cristão excede a dos fariseus, é o escândalo da cruz, do sacrifício para com os que não merecem. Javert não suportou o impacto da graça, lançou-se no abismo, negando-se a assimilar outra possibilidade existencial.
A graça de Deus é maravilhosa, espanta aos que vivem debaixo da lei. Os fariseus não compreenderam, preferiram fechar os olhos. Cristo, a graça de Deus manifestada, é absurda para aqueles que se pautam pela norma. A justiça de Deus é o auto-sacrifício, a entrega incondicional pelo outro. Jean Valjean somos todos nós, que em algum momento da vida nos percebemos pecadores atingidos pela graça. Nada merecemos de Deus, não passamos de meros miseráveis, carentes de aceitação. Quando a graça nos alcança, ficamos estupefatos, a religiosidade se desequilibra. Somente aqueles que vivem a partir da graça podem, tal como Valjean, triunfar em um mundo marcado pelo legalismo. 

13 de ago de 2013

Desafios do ministério pastoral

Paulo, em sua carta ao jovem pastor Timóteo, ressalta o valor do ministério pastoral ao reconhecer que “aquele que deseja o episcopado excelente obra deseja”. Talvez não possamos dizer o mesmo hoje, em uma sociedade marcada pela lógica consumista. Nem todos querem abraçar o pastorado porque não é condizente com o lucro, com a obtenção de recursos fartos e fáceis. Pelo menos se levarmos em consideração a prática bíblica do ministério cristão, que geralmente exige sacrifício. Mas como esse não faz parte do hedonismo moderno, até mesmo os pastores estão fugindo dessa premissa.
Jesus, o exemplo maior de Pastor, que entregou Sua própria vida pelas ovelhas, não é mais seguido, está fora de moda. Paulo, o imitador de Cristo, ofereceu sua vida em libação pelas igrejas que pastoreou. Não a tinha por preciosa, antes se gastou ao extremo, a fim de conduzir muitos ao Senhor. Por causa dessa sua opção, não foi compreendido por aqueles que queriam apenas tirar proveito, auferir lucros por meio do evangelho de Cristo. Por causa desses sofistas ministeriais, que apenas se utilizam do termo evangélico, para autopromoção, o evangelho tem sido envergonhado.
A mídia tem explorado de forma exagerada os descalabros do ministério pastoral. Com certa frequência os jornais noticiam escândalos de pastores que nenhum compromisso têm com o ministério genuinamente cristão. A famigerada teologia da ganância, denominada por alguns de prosperidade, descaracterizou a excelência do pastorado. Dominados pelo mundanismo, tais pastores, que se intitulam bispos e apóstolos, trocaram a Bíblia por jargões triunfalistas, e a simplicidade cristã por ostentação. A palavra sofrimento foi extirpada do dicionário pastoral, a felicidade deve ser buscada a qualquer custo, mesmo que comprometa o bem-estar espiritual das ovelhas.
Diante dessa celeuma, que confunde a cabeça de todos, principalmente dos não evangélicos, há apenas uma saída. Os pastores verdadeiros são chamados a desafiarem essa filosofia anticristã. O modelo bíblico de pastorado precisa ser resgatado, os membros da igreja não são clientes, mas ovelhas do rebanho de Cristo. A igreja não pode ser administrada como uma empresa, com sua hierarquia engessada. Devemos lembrar sempre que somos o Corpo de Cristo, e como partes dele, estamos firmados, funcionalmente, para auxiliar uns aos outros. Não podemos instigar à competitividade, como fazem as cooperações, precisamos investir na solidariedade, principalmente na generosidade.
Ao distanciar-nos da Bíblia nos esquecemos do real significado do pastorado, e deixamos de atentar para seus desafios. A menos que voltemos aos princípios estaremos fadados ao fracasso espiritual. O ministério pastoral não passará de uma franquia, na qual disputaremos espaços uns contra os outros. Adoeceremos todos, pois a ânsia por poder não nos permitirá mar. Esse adoecimento implicará nas atitudes em relação rebanho, confundiremos autoridade, sobretudo espiritual, com autoritarismo. Fugiremos para as torres inacessíveis dos escritórios, a fim de evitar relacionamentos duradouros. Na verdade, essa liquidez nos relacionamentos tornou-se condição necessária para ministros que fogem de qualquer envolvimento.
Preocupa-nos ver os jovens cristãos testemunharem todos esses descalabros do ministério pastoral. Estamos diante de uma geração de ministros que está na idade de “passar o bastão” para que outros deem sequência ao trajeto. Na verdade, poucos são os jovens que querem algum compromisso com o ministério, têm vergonha dos seus pastores, não querem ser associados a eles. Há até casos de filhos que não querem assumir publicamente que são filhos de pastores. Talvez essa seja a hora de resgatarmos os bons exemplos, propagar aos quatro ventos que, apesar de tudo, ainda existem homens sérios, obreiros que manejam bem a Palavra, que não têm do que se envergonhar.
Esses ministros, que são servos na etimologia do termo, certamente estão longe da mídia, não podem ser identificados porque não distribuem cartões, não promovem seu marketing pessoal. Eles se encontram nas vielas, sobem os morros das favelas em busca de almas perdidas. Como não colocam o dinheiro em primeiro plano, não têm o que ostentar. Ternos caros, sapatos luxuosos, carros importados, outras quinquilharias não os atraem.  Eles simplesmente vagam pelas ruas, se relacionam com aqueles que sofrem, leva-lhes uma palavra de alento, carregam no rosto um sorriso, e a esperança plena da realização do Reino de Deus. Conduzem uma Bíblia na mão e a Palavra de Deus no coração, não se vendem a interesses políticos, não buscam vanglória, pois seus olhos estão sempre fitos na eternidade.
A recompensa que eles buscam não está nesta terra, Jesus, o Supremo Pastor, que os vocacionou, os receberá na glória, dizendo-lhes: “servos fieis, entrem no gozo do teu Senhor”.

11 de mai de 2013

Sexualidade e ativismos


A sexualidade está em pauta, ou como diria Michel Foucault, na ordem do discurso. Evangélicos e ativistas homossexuais estão em pé de guerra. Há perseguições e excessos em ambos os lados. Observo com critério as discussões, e, pelo que presumo, ambas as partes sairão prejudicadas do embate. Isso porque há excesso de ativismos, tanto de um lado quanto de outro. Na tentativa de impor suas “vontades de verdade”, evangélicos e homossexuais, trocam farpas e impropérios. Alguns desses, não poucas vezes, desrespeitosos, para não dizer, homofóbicos e evangelicofóbicos.
Em um país que pressupõe a liberdade de expressão, ainda que essa seja controlada pela mídia, pelos discursos da ordem, tanto evangélicos quanto homossexuais têm o direito de se posicionarem. O confronto é de natureza ideológica, de um lado estão os defensores dos princípios judaico-cristãos, que se baseiam na Bíblia, e que acreditam que o casamento é uma instituição divina, uma aliança entre um homem e uma mulher. Do outro, os homossexuais, que, fundamentados no materialismo, e em uma concepção cultural de casamento, argumentam que os homens, e não a divindade, deve determinar os padrões a serem seguidos.
Nenhum desses grupos conseguirá convencer o outro da verdade, pois partem de pressupostos distintos, e que, historicamente, estão consolidados na sociedade. Os evangélicos continuarão a defender seus princípios cristãos, os homossexuais, os fundamentos culturais do materialismo dialético. A disputa vai mais além porque ambos os grupos querem convencer a sociedade de que estão com a verdade. Quando a situação está posta em tal perspectiva, espera-se que alguém responda a questão: afinal, quem é detentor da verdade? Os evangélicos apelarão para a revelação, a expressão bíblica, os homossexuais, para a ciência, as comprovações acadêmicas.
A sociedade na qual estamos inseridos é marcadamente cientificizada, as pessoas cada vez mais valorizam o posicionamento científico. Mas esta é também uma sociedade religiosa, o ser humano precisa de alguém que lhe diga qual a maneira correta de viver. Diante desse empasse, ciência e fé caminharão sempre na direção oposta. A saída, se é que essa é possível, está no respeito mútuo. Os homossexuais têm o direito de viverem como bem entendem, mas não podem privar os evangélicos de se posicionarem em relação as suas crenças. Eles buscam direitos civis, uma espécie de contrato, que validem suas relações homoafetivas. Essa, no entanto, jamais poderá ser considerada “casamento”, pelo menos de acordo com o formato cristão.
Deus não impõe uma ditadura a quem quer que seja, Ele entregou o ser humano as suas escolhas, e esse prestará contas delas no futuro. Os evangélicos, mesmo que preguem com todo entusiasmo, jamais farão com que todas as pessoas se tornem cristãs. Os homossexuais, por um engajamento político, quererão tirar muitos do “armário”, mas nem todos sairão dele. A liberdade de expressão é importante, mas também a religiosa, as pessoas têm o direito de acreditarem. Os cristãos, por acreditarem na santidade, devem viver a partir dos pressupostos cristãos. Ter cautela é fundamental, a homossexualidade, na visão bíblica, é pecado, mas não é o único.
Há evangélicos que se envolvem em atos de adultério, que também é pecado, mas acham isso normal, e criticam os homossexuais pelas suas práticas. O moralismo em excesso pode resultar em hipocrisia, por outro lado, o ativismo homossexual pode ser tirano, por desrespeitar uma tradição, alicerçada no bem mais precioso para os religiosos, a sua fé. Enquanto os discursos se confrontam na arena do poder, o amor é esquecido, os cristãos, que deveriam estar firmados sobre esse, são os que mais pecam. Espera-se, daqueles que seguem a Cristo, a disposição para aceitar o outro, a mostrar-lhe, com graça, o caminho da cruz. Os homossexuais, principalmente os ativistas, precisam ampliar seus horizontes de crítica.
Evangélicos e homossexuais têm em comum a marginalização, tanto um grupo quanto o outro estão tentado se firmar, ganhar espaço no contexto da sociedade brasileira. A perseguição, desenfreada, evangelicofóbica e homofóbica, está escrita dos anais da história. É legítima a busca por autoafirmação, por reconhecimento social. Mas, enquanto isso, os poderosos dormem nas recâmeras da pobreza que se alastra. As lutas pelas inclusões foram absorvidas pelos neocapitalistas. Evangélicos, negros e homossexuais brigam por seu lugar ao sol, nos brejos e ruelas, os pobres não encontram quem os defendam.
Dormem todos em berço esplêndido, ninguém fala por eles, a não ser o Cristo, que não era evangélico nem homossexual, mas que amava os pobres e pecadores.

17 de fev de 2013

Missões cristocêntricas


Existem muitas perspectivas a respeito da obra missionária, antigas, modernas e pós-modernas. Essas últimas estão adquirindo cada vez mais adeptos no meio evangélico, cujo fundamento não é a Palavra de Deus, mas as concepções meramente humanas. O liberalismo teológico tem feito com que muitos missionários, outrora entusiastas da obra de Deus, se entregassem à obra dos homens. Evidentemente a missão precisa ser integral, porque esse é o modelo bíblico, o evangelho todo para o homem [e a mulher] integralmente.
Mas é preciso ter cautela para não perder o foco central da obra missionária. A função da igreja não é simplesmente fazer filantropia, ainda que essa seja necessária à manifestação da fé. Cristo, o Senhor e Comissionador da igreja, determina os fundamentos a partir dos quais a obra missionária deve ser conduzida. Ele é Aquele que a envia e, ao mesmo tempo, promete estar com ela até a consumação dos séculos. Não podemos esquecer que Cristo, e não a igreja por si mesma, é a base da missão.
Por isso, todos aqueles que estão envolvidos nesse trabalho devem voltar sempre que possível à Palavra. Os textos bíblicos da Grande Comissão é um exercício apropriado para não perder o foco da tarefa a ser desempenhada. Essas passagens se encontram em Mt. 28.16-20, Mc. 16.15; Lc. 24.46-48; Jo. 20.19-23; At. 1.3-12. Os relatos distintos dos evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João não se contradizem, antes se complementam, na medida em que orientam a igreja quanto a sua função na obra missionária.
Cada um desses escritores bíblicos destacou um aspecto importante nos ensinamentos de Jesus a respeito desse assunto, cuja importância é atestada pela própria repetição do tema nos quatro evangelhos, reforçado no livro de Atos. Mateus fez o recorte do objetivo da obra missionária: “fazer discípulos”. Esse é um aspecto fundamental, principalmente nos dias atuais em que os pregoeiros querem apenas fazer volume.
A missão da igreja é fazer discípulos para Cristo, pessoas que neguem a si mesmas, e que estejam dispostas a carregarem a cruz do discipulado. Marcos aponta o alcance da missão: “por todo mundo”, ou para ser mais claro, “em todas as etnias”. A igreja não pode se dar ao luxo de escolher lugares para plantar igrejas, onde estiver um pecador estará ali uma alma carente de Deus, independentemente da condição socioeconômica.
Lucas trata a respeito do conteúdo da mensagem missionária, que não pode ser comprometido. A realidade do pecado e a necessidade de arrependimento, como condição para a salvação, não podem ser omitidas, sob a justificativa de ser humanisticamente correto. A igreja não está na terra para ser “politicamente correta”, mas para ser “teologicamente correta”. Para tanto, deve ouvir sempre o que o Espírito diz através da Palavra, e nela se pautar, ainda que seja alvo de perseguição.
João, por sua vez, destaca a autoridade dAquele que envia a igreja, não é ela que envia a si mesma, nem mesmo os missionários, pois esses são enviados, primeiramente, pelo próprio Cristo, que fora, enviando anteriormente pelo Pai. Por fim, Lucas, em seu registro dos Atos do Espírito Santo, estende o alcance da obra missionária, não apenas a Jerusalém, mas também Samaria e até aos confins da terra.
Mas a obra missionária cristocêntrica deve também depender da atuação do Espírito, pois é o poder do alto que impulsiona a igreja. É pela virtude do Espírito Santo que a igreja consegue, com autoridade celestial, mostrar que Cristo é o Senhor a todas aos povos. Essa é a base bíblica para a missão, nenhuma perspectiva humana pode a ela se sobrepor. Jesus enviou seus apóstolos para fazerem discípulos, em todas as etnias, até aos confins da terra, pregando arrependimento de pecados, testemunhando no poder do Espírito Santo.