23 de dez de 2012

Então é Natal.


Então é Natal, assim começa uma letra de uma das canções de John Lennon. Na linha seguinte o compositor pergunta: o que você fez? Essa é uma indagação pertinente, já que essa data é celebrada justamente nas proximidades do final do ano. O ano deveria ser um momento de avaliação existencial. O que fizemos? O que deixamos de fazer? O que poderia ser feito? O que poderá ser feito no ano que se aproxima?
Com os teólogos, reconheço a pouca probabilidade de que Cristo tenha nascido no mês de dezembro. Mesmo assim, gosto do Natal, trata-se uma das mais belas festas do ano. É bem verdade que se descaracterizou bastante do seu verdadeiro espírito. Esta época acabou se reduzindo a mero mercantilismo. As trocas de presentes e a figura esquisita do Pai Noel é mais lembrada que o próprio Cristo, que é o aniversariante, razão de ser do Natal.
Ainda assim, gosto do Natal. Aproveito, seguindo o tom da música de John Lennon, para (re)pensar a vida. Leio e releio trechos das Escrituras que abordam a vinda do Messias, do Verbo que se fez carne. Encantam-me as narrativas evangélicas, especialmente os detalhes apresentados por Lucas. Pastores no campo, reis perseguidores, magos adoradores, tabernas lotadas. 
Em uma estrebaria, uma criança deitada entre os animais, os anjos proclamam, não apenas um menino, mas o próprio Deus, paz na terra entre os homens de boa vontade. Mas não leio apenas a Bíblia, gosto de ver filmes sobre o Natal, também de ler outros livros. Neste ano, retornei a um clássico da literatura britânica com esse tema. 
Christmas Carol, do brilhante escritor Charles Dickens, traduzido para português como Um conto de Natal. O enredo é oportuno para refletir sobre o espírito do Natal. É bem verdade que a narrativa está repleta de incongruências teológicas, mas podemos extrair algumas aplicações espirituais do enredo. O velho Scrooge, personagem principal da obra, detesta o Natal, acha essa uma data irritante, uma perda de tempo, especialmente de dinheiro. 
O capitalismo selvagem, impulsionado pela industrialização, que objetificava o ser humano, era predominante no tempo de Dickens. Como costuma fazer em suas obras, o escritor aproveita este conto para fazer denúncia social. Scrooge representa a tirania capitalista que não vê pessoas, apenas lucros. As falas de Scrooge, ao longo da novela, são perturbadoras, mas encontram eco ainda nos dias atuais.
Tudo muda a partir do momento que Scrooge recebe a visita de fantasmas, primeiramente o do seu ex-sócio, Marley. Depois os espíritos do Natal Passado, Presente e Futuro, que fazem um passeio pela vida de Scrooge. A narrativa nos conduz à percepção de que parte do que somos tem a ver com o que éramos e o que seremos depende de quem somos. Scrooge sofreu bastante na infância, seus traumas natalinos o distanciam da alegria do Natal. A obsessão pelas riquezas o afasta das pessoas, inclusive do próprio Cristo.
Mas o Espírito do Natal Futuro tem algo a revelar a Scrooge, tal como Deus, na parábola do Rico Insensato, contada por Cristo, a morte do adorador do dinheiro será iminente. O velho avarento é advertido daquela dura realidade, que o faz (re)pensar sua existência. Scrooge havia feito o balanço de todas as suas economias, mas não da própria vida. Fez-se necessário uma intervenção sobrenatural para que ele avaliasse o real sentido da existência. A naturalização frenética do cotidiano não nos permite fazer tal reflexão.
Estamos tão acostumados à correria que não paramos para pensar. Nem mesmo no Natal separamos momentos para refletir. Com John Lennon, devemos constatar: “então é Natal”, e perguntar, não apenas aos outros, mas principalmente para nós mesmos: “o que você fez?”. Como Scrooge, devemos avaliar nosso passado, de que modo ele tem influenciado nossas decisões erradas? Será que estamos permitindo ser controlados pelos nossos traumas? 
Que um encontro com Cristo, o Verdadeiro Espírito do Natal, possa mudar nossa história. Como Scrooge, possamos perceber que existem coisas, ou melhor, pessoas na vida que são mais importantes que o dinheiro. Então é Natal.