30 de nov de 2012

Nem todos os evangélicos


O termo evangélico é bastante controvertido, principalmente no Brasil. Isso porque, diferentemente de em outros países, não se costuma fazer a diferença entre evangélicos e evangelicais. Este último abarca os grupos denominacionais comprometidos com o evangelho, ou mais especificamente, com os princípios bíblicos. No Brasil, ser evangélico quer dizer tudo, e, ao mesmo tempo, quase nada. Qualquer pessoa que abre uma igreja, ou que se filia a um determinado grupo, de confissão não católica, é considerado evangélico.
Uma distinção clássica, e histórica do genuíno movimento evangélico, deveria levar em conta alguns princípios, que remetem aos fundamentos da Reforma Prostestante. Ser evangélico, nesse contexto, significa, entre outros aspectos, ter a Escritura como normativa na vida cristã; a necessidade de conversão, ter passado pela experiência do novo nascimento; considerar a obra expiatória de Cristo enquanto Único Mediador entre Deus e a humanidade; e atentar para o imperativo evangelístico, a proclamação das boas novas para a salvação dos perdidos.
Infelizmente, os evangélicos, neste país, são comumente associados a um grupo que nada tem a ver com o evangelho de Jesus Cristo. A mídia coloca todos os supostos evangélicos dentro da mesma categoria. Por isso, os evangélicos são comumente rotulados de, no mínimo, fundamentalistas estúpidos e dogmáticos, anticientíficos, leitores literalistas da Bíblia, direitistas políticos, contra os palestinos e homofóbicos. Como toda e qualquer generalização, essa também é preconceituosa. Ninguém deveria fazer qualquer acusação contra os evangélicos sem lhes dá o direito de se pronunciarem.
Nem todos os evangélicos são estúpidos e dogmáticos, tendo em vista que a tradição protestante resultou de um movimento de reflexão em torno das Escrituras. Os protestantes, desde o princípio, foram pensadores firmados na revelação bíblica, mas que não descartavam o papel da razão na construção do conhecimento. Ao longo da história vários cristãos, de formação evangélica, contribuíram para o avanço da ciência. Existem evangélicos que sabem distinguir entre conhecimento científico, resultante da investigação; e o teológico, da revelação divina.
Nem todos os evangélicos estão exclusivamente do lado de Israel na rotineira disputa armada entre judeus e palestinos. Há evangélicos que reconhecem o papel escatológico de Israel. Isto é, as promessas de Deus para o povo da Aliança. Por outro lado, aguardam essa concretização no futuro, por isso, até que ele se concretize, atuam na igreja, em busca da paz, inclusive entre judeus e palestinos. Deus não está tratando, neste momento, com nações, mas com um povo, independentemente das fronteiras geográficas. Em Cristo, judeus e palestinos podem conviver como irmãos.
Em relação ao posicionamento político, nem todos os evangélicos são de direita, e muito menos de esquerda. O evangelho de Jesus Cristo é uma revelação que atinge a humanidade de cima. Os partidos políticos são invenções humanas, ideologicamente marcadas. Os de direita valorizam apenas o mercado, a liberdade humana, sem atentar para a natureza pecaminosa. Os de esquerda, por sua vez, atentam apenas para a dimensão social, desconsiderando a responsabilidade humana. Deus não está nem de um lado nem do outro, Ele é pela humanidade, não admite a injustiça social, e muito menos que o ser humano seja mercantilizado em prol do deus mercado.
Nem todos os evangélicos são ricos, ou adeptos da teologia da prosperidade, melhor dizendo, da ganância. Essa famigerada desteologia bíblica surgiu nos Estados Unidos a fim de corroborar o acúmulo indiscriminado de riquezas, em detrimento das carências dos mais pobres. A teologia bíblica, especialmente no Novo Testamento, não respalda a prosperidade insensível à necessidade dos mais pobres. A riqueza, na visão de Cristo, é um perigo, pois pode distanciar a humanidade de Deus. O dinheiro deve ser usado pelo homem, nunca o contrário, tê-lo, na cosmovisão cristã, é arriscado.
Nem todos os evangélicos fazem uma leitura literalista das Escrituras. Há tradição protestante possibilitou o livre exame da Bíblia, mas não o seu uso irresponsável. A Bíblia, enquanto revelação divina, deve ser interpretada, por isso, alguns evangélicos recorrem aos recursos linguístico-contextuais. A dependência do Espírito Santo é uma realidade, mas não exime o leitor do esforço hermenêutico, do crivo da comunidade, a fim de reconstruir o sentido do texto. Há evangélicos que defendem a exposição da Biblia, ao invés do uso indiscriminado de passagens isoladas, que favorece posicionamentos meramente humanos.
Nem todos os evangélicos são sexistas ou homofóbicos, tendo em vista que o Deus dos evangelhos é gracioso e includente. Homem e mulher se complementam através do amor-agape. O casamento cristão é constituído nessa diferença, a completude somente se dá nessa dimensão. Marido e mulher devam conviver na disposição sacrificial do genuíno amor cristão. Nenhum dos cônjuges deve assenhorar-se sobre o outro, somente Cristo é Senhor dessa relação. Mas nem todas as pessoas são obrigadas a viverem a partir desse princípio bíblico. Aqueles que vivem com base em outra orientação devem ser amados. O amor, ao invés do enfrentamento, pode ser muito mais eficaz a fim de conduzi-los a Cristo.
Em suma, nem todos os evangélicos são iguais, há diferenças marcantes que não podem ser desconsideradas. Por isso, ao invés de coloca-los na mesma categoria, é recomendável cautela. Nem todos os evangélicos devem ser confundidos com aqueles que estão na televisão. Eles têm a mídia em suas mãos, por isso dizem o que bem entendem. O ponto de vista deles é veiculado como se fosse o da maioria, pior ainda, o único existente. Há muitos evangélicos que não se identificam com aquele discurso. Eles não são ouvidos por uma razão muito simples, estão trabalhando em surdina, construindo o Reino de Deus, que já está entre nós.