1 de ago de 2012

O secular sagrado

Há uma tendência dos cristãos atuais em dividir a vida cristã em compartimentos. Determinados compartimentos são considerados “sagrados”, e têm a ver com a vida espiritual. As demais atividades são categorizadas dentro do compartimento “secular”.  A divisão da vida cristã em compartimentos pode ter consequências drásticas. Eles podem correr o risco de assumirem Jesus como salvador pessoal em determinados contextos, mas negarem a eficácia da fé em outros. Esses cristãos tendem a ter uma vida dúbia, são crentes na igreja, mas têm dificuldade de se identificarem como tal na família, escola e no trabalho.
Essa compartimentalização da vida cristã não tem respaldo bíblico, é resultante de uma dicotomização filosófica, que encontrou expressão na idade média. Lutero, o reformador alemão, criticou veementemente esse tipo de pensamento. Conta-se que um sapateiro, ao testemunhar a euforia protestante, quis abrir mão do seu trabalho para tornar-se líder eclesiástico. Quando expressou sua intenção ao reformador protestante, esse respondeu que ele poderia muito bem servir a Deus na sapataria, fazendo melhores sapatos e vendendo-os por um preço justo. Certamente, aqueles que desejam o episcopado excelente obra almejam, mas essa não é a única maneira de servir ao Senhor.
Existem outras áreas onde o cristão pode atuar e expressar a sua fé em Cristo. A literatura, as artes em geral, o direito, a medicina, o magistério, entre outras, são áreas carentes do testemunho cristão. Certo jovem encontrou Charles Colson em um avião e aproveitou a oportunidade para demonstrar sua apreciação aos livros que ele havia escrito, e comunicá-lo da sua desistência de cursar engenharia química, justificando que iria se tornar um obreiro de tempo integral. Com carinho, Colson repreendeu o jovem cristão, disse-lhe que provavelmente ele não tinha entendido a intenção dos seus livros, pois se o tivesse feito, saberia que a engenharia era uma área carente de cristãos, tendo em vista o número de ateus que labutam nessa área.
Jesus chamou seus discípulos para serem sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13-16), levando seu testemunhos nas diversas áreas da sociedade. Ninguém deve se sentir menosprezado porque não está labutando no ministério de tempo integral. Evidentemente, alguns receberam o chamado para tal, e são dignos de consideração, respeito e salários. Mas aqueles que são “obreiros de tempo integral” não são mais “sagrados” do que aqueles que trabalham na vida “secular”. Na verdade, a distinção mais apropriada seria entre o sagrado e o profano, não entre o sagrado e o secular. Os cristãos foram chamados para estar no mundo, por esse motivo, devem fazer a diferença onde se encontram.
De acordo com Paulo, somente o que não é de fé é pecado (Rm. 14.23), por isso, tudo o que fazemos, deve ter como alvo a glória de Deus, não apenas para os homens (Cl. 3.23). Seja no ministério pastoral de tempo integral, diante da sala de aula de uma escola, do consultório médico ou advocatício, Deus será glorificado se as nossas vidas expressarem a fé cristã. O livro Um dia na vida de Ivan Denisovitch, do escritor russo Alexander Soljenistsin, mostra a vida de um prisioneiro político na ex-união soviética. O autor revela, ao longo da narrativa, como Denisovitch sacralizava cada momento da vida, mesmo em condições adversas. Qualquer tarefa na prisão era percebida como uma oportunidade para dar o melhor de si. Esse texto nos conduz à reflexão a respeito do valor que os cristãos precisam dar as coisas que fazem no cotidiano.
Nesse contexto, o capital mercadológico das profissões se desconstrói, o papel social do médico não é superior ao de um professor. Cada profissional tem o seu valor, e se esse for cristão, sua obra é sagrada, pois labuta não somente para homens, mas para Deus. Muitos cristãos que não eram “obreiros de tempo integral” fizeram diferença na sociedade. O luterano Johann Sebastian Bach, um dos maiores músicos de todos os tempos, legou a humanidade, composições que são elogiadas até mesmo por aqueles que não professam a fé cristã. O Senhor dos Anéis e as Crônicas de Narnia, escritos da pena de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, respectivamente, tornaram-se obras clássicas da literatura, e estão repletas de valores cristãos. O geneticista americano Francis Collins é respeitado pelos seus estudos do dna, ao mesmo tempo em que testemunha, com entusiasmo, da sua fé e amor a Jesus Cristo.
Todos os dias, milhares de cristãos anônimos, na sua labuta diária, na vida “secular”, estão sacralizando cada momento da existência. Esses, não apenas aqueles que se dedicaram ao ministério pastoral de “tempo integral”, receberão a recompensa do Senhor. Eles não fazem a diferença entre o sagrado e o secular, apenas entre o secular e o profano. Para esses, a vida cristã não está restrita às poucas horas que estão dentro de um templo. Esse é um momento especial de comunhão e adoração a Deus, mas não é o único. Jesus Cristo é glorificado em cada ato desses cristãos que vivem a fé vinte e quatro horas por dias, setes dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias do ano.
Como fazia Sebastian Bach, ao concluir suas composições, assinam seus feitos, com reverência, em tributo ao Criador: Soli Deo Gloria.