30 de jun de 2012

Cristãos no mundo

Ao longo da história da igreja vários movimentos apregoaram o isolamento em relação ao mundo como forma de alcançar a santificação. Ainda hoje, existem grupos que defendem um distanciamento da igreja para longe da sociedade. Nos tempos de Jesus, os essênios assumiam essa postura, para eles, os servos de Deus deveriam refugiar-se no deserto. Monges católicos optaram pela clausura, a fim desfrutarem de um relacionamento mais profundo com Deus. Algumas religiões orientais ainda estimulam o distanciamento social a fim de meditarem nos princípios legados pelos seus mentores espirituais.
Jesus também tinha seus momentos de isolamento social para ficar a sós com o Pai. Os evangelistas registram que diversas vezes o Senhor se distanciou da multidão a fim de orar. Ele mesmo orientou seus discípulos à valorização da intimidade com o Pai. Mas Cristo não optou pela vida totalmente ascética. Ele era reconhecido, e muitas vezes criticado pelos religiosos da época, pela Sua inserção na sociedade. Jesus era o amigo dos pecadores, Ele os amava e a eles estendia Suas mãos. O Senhor sabia da necessidade de mudança do mundo, e que este era o campo da colheita divina.
Muitos cristãos não compreendem o significado de mundo porque essa palavra – cosmos em grego – tem significados diversos. Pode referir-se ao mundo criado, planetas e firmamento, à extensão física que visualizamos. Mundo também diz respeito à humanidade que Deus ama a quem entregou Seu Único Filho em sacrifício pelos pecadores. Mas o mundo tem a ver ainda com o sistema satânico, caído e que se opõe à vontade boa, perfeita e agradável de Deus. A esse mundo os escritores bíblicos orientam para que a igreja não se conforme a ele.
Esse mundo, a quem Paulo adjetiva como tenebroso, regido por principados e potestades das regiões celestes, é antiDeus. Suas motivações estão pautadas no ódio, em oposição ao amor, na mercantilização do ser humano, subjugando sua dignidade. Os interesses desse mundo se fundamentam no egoísmo, por isso, o individualismo sobrepõe-se às necessidades coletivas. Por conseguinte, o dinheiro passa a ser endeusado como Mercado, a quem Jesus denominou de Mamon. Os pobres são transformados em moeda de troca, sem nenhum valor. A política dos homens – a da ganância – predomina sobre a política de Deus – a do amor sacrificial.
Diante de um mundo tão perturbador, é compreensível que alguns cristãos desejem se voltar para o isolamento. Jesus sabia muito bem disso, por essa razão, em Sua oração sacerdotal, rogou pelos Seus seguidores a esse respeito. Intercedeu ao Pai não para que Seus discípulos fossem retirados do mundo, mas que fossem libertos do poder do Mal. Estar no mundo é uma necessidade, o próprio Cristo, o Deus-Homem, precisou encarnar-se para salvar a humanidade. Ele é a demonstração nítida de que os cristãos devem estar no mundo, como sal e luz.
Estar no mundo é viver em contracultura, é uma atitude de seguir em oposição. Para tanto, é preciso ouvir a voz dAquele que sentiu na carne as agruras do mundo que O crucificou e O expôs à ignomínia pública. Ao contrário do que se apregoa em alguns circuitos evangélicos, ser cristão não torna a vida das pessoas mais fácil. Se alguém procura uma religião para se sentir bem, não recomendaria aderir à fé cristã, a menos que essa já tenha sido cooptada e se transformado em mero “cristianismo”.
Cristo, Aquele que esteve no mundo, mas não fez parte dele, comissiona, a todos os que O seguem, a que façam o mesmo. Essa é uma missão desafiadora, pois retira o cristão do lugar comum. A condição imposta ao discípulo de Jesus é de paratopia, ou seja, de deslocamento. Assumir os valores políticos, econômicos e morais partilhados pelo mundo é entregar-se ao governo dos principados e potestades desta Era. O príncipe deste século ofereceu fama, glória e riqueza a Cristo se esse o adorasse e se prostrasse aos seus pés. A resposta do Mestre, e a de todo cristão no mundo, deve ser a mesma, fundamentada na Palavra: somente Deus é digno de adoração.