31 de mar de 2012

Pensar é um ato de amor a Deus

O avanço dos evangélicos no Brasil, nesses últimos anos, favoreceu a formação de um grupo que cada vez mais se torna majoritário nas igrejas, aqueles que defendem a incompatibilidade da fé com a razão. Uma contestação dessa realidade foi expressa é uma canção do compositor evangélico João Alexandre intitulada “É proibido pensar”. Infelizmente, aqueles que se opõem à reflexão na igreja estão prestando um desserviço à obra do Senhor Jesus Cristo. Isso porque tanto na Bíblia quanto na História da Igreja, o ato de pensar a fé sempre teve o seu devido lugar.
É bem verdade que existem exageros, alguns pensadores cristãos, sob a influência do Iluminismo, acabaram invertendo a ordem de prioridade, e colocaram a razão diante da fé. Em casos extremos, a fé passou a ser totalmente negada, e a razão supervalorizada. Em geral, a fé cristã sempre conviveu bem com a razão. A igreja assumiu, ao longo da história, a importância de refletir a respeito da fé que uma vez foi entregue aos santos (Jd. 3), até porque, conforme expõe Pedro em uma das suas epístolas, é necessário que estejamos prontos para dar aos outros a razão da nossa fé (I Pe. 3.15).
Deus nos criou para pensar, não podemos esquecer que a reflexão é uma dádiva do Criador. A Queda é uma realidade, e isso impede que o ser humano submeta seu pensamento à Palavra, mesmo assim, Deus convida as pessoas para refletirem e julgarem qual seja a mais sábia decisão (Is. 1.18). O problema do homem moderno não é a intelectualização, mas a negação total da revelação de Deus. A mente deva estar a serviço da revelação, isto é, do que Deus diz em Sua Palavra, tendo em vista que as verdades espirituais não podem ser discernidas pela razão somente, mas pelo Espírito Santo, e a Escritura, que nos trazem a verdade do Evangelho de Cristo (I Co. 1.21).
A disciplina da mente, através da reflexão na Escritura, é um dos motes cristãos. Paulo instrui aos crentes de Filipos a respeito do que deveria ocupar a mente deles: “tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama (Fp. 4.8). Aos Coríntios, orientou para que tornassem cativo todo pensamento para levá-lo à obediência a Cristo (II Co. 10.5). Ao longo da sua Epístola aos Romanos, o mesmo Apóstolo repete cerca de dez vezes a expressão “porque não quero, irmãos, que ignoreis”. Com destaque para o texto de Rm. 12.1,2, no qual argumenta em favor do culto racional a Deus e de um entendimento consolidado de acordo com a Sua vontade.
A reflexão com base na Palavra de Deus não distancia o cristão de Deus, na verdade, trata-se de um ato de adoração. No Salmo 119 o poeta sacro declara várias vezes: “Dá-me entendimento e guardarei a tua lei, de todo o coração a cumprirei”. Ao ser indagado pelos religiosos a respeito do maior dos mandamentos, Jesus respondeu: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mt. 5.37). Pensar não é, ou pelo menos não deveria, ser proibido, já que desse modo demonstramos nosso amor a Deus.
Amor e conhecimento precisam estar balanceados, muito amor sem conhecimento resulta em fanatismo e muito conhecimento sem amor em arrogância. Como bem expressa Paulo: “o conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica” (I Co. 8.1). E acrescenta: “ainda que eu conheça todos os mistérios e toda a ciência, se não tiver amor, nada serei” (I Co. 13.2). A reflexão submissa à Palavra de Deus deva nos conduzir a amar mais e a melhor vivermos para o Senhor. Agostinho de Hipona expõe essa relação ao declarar: "eu creio para compreender e compreendo para crer melhor". Séculos depois Anselmo de Aorta reforçaria tal premissa: "não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender".
Aqueles que querem demonstrar seu amor a Deus devem fazê-lo não apenas com todo o coração e alma, mas também com todo o entendimento.