29 de jan de 2012

Tese entre dois russos

A escritura de uma tese é sempre traumática. Para uns mais, menos para outros, mas todas deixam algum tipo de sequela. Iniciei esse processo no início de 2004, após ter sido aprovado no doutorado. As tentativas de tecer um texto com argumentos convincentes me perseguiram desde o primeiro parágrafo. O rigor metodológico, ainda que a pesquisa fosse qualitativa, tornou-se minha obsessão. Leituras e orientações faziam com que oscilasse entre momentos de euforia e desânimo. Às vezes experimentava a síndrome de Sísifo, e com Camus, tinha impressão de que estava indo e vindo ao mesmo lugar.
Após alguns dias improdutivos, sem que conseguisse chegar a um bom termo para o trabalho, decidi reavaliar a direção da pesquisa. Em meio às discussões com alguns colegas da área de jornalismo e literatura, os autores russos entraram na pauta, em especial por dois escritores: Tolstoi e Dostoievski. Depois daquela conversa, retornei para casa com um desafio: embrenhar-me na leitura desses dois mestres. Nos dois anos seguintes, na mesma proporção em que me entregava ao texto acadêmico, lia com avidez, os tomos complexos e repletos de personagens desses autores russos. 
Comecei por Memórias do Subsolo, de Dostoievski, a fim de ter um primeiro contato com o homem desencontrado. A compreensão do humano que quer ser alguém, mas que é reduzido a quase nada me impactaram, principalmente em Sonho de um homem ridículo e Crime e Castigo. Em Roskolnikov, o personagem central deste último, identifiquei-me com o homem moderno, e, ao mesmo tempo, reconheci a fragmentação do eu, a impossibilidade do progresso. Isso seria suficiente, mas, no mesmo período, resolvi também ler A morte de Ivan Ilich, de Tolstoi, que me lançou em uma melancolia, que julgo eu necessária a todo indivíduo.
A caminhada ao lado desses escritores conduziu-se a reflexões profundas, a respeito dos mais diversos temas psicossociais. Os demônios, de Dostoievski fez com que eu me tornasse mais cético em relação à política. Ana Karenina e Guerra e Paz, de Tolstoi, a questionar os motivos da guerra, sejam eles considerados “justos” ou “injustos”. Esses autores apontaram detalhes no percurso da vida que eu não havia percebido. Em O Idiota pude adentrar à natureza humana, atentando para sua decadência, e paradoxalmente, para a possibilidade de redenção estética, em modelos de beleza que são negados pela sociedade. Ressurreição, provavelmente um dos últimos livros de Tolstoi, ajudou-me a olhar com suspeição para as leis humanas.
Através de Os irmãos Karamazov passei a ouvir vozes, a polifonia daqueles que têm a coragem de acreditar em Deus, e a compreender os motivos dos que não crêem, bem como a posição dos que O consideram irrelevante. O Cristo, concretizado nas alucinações de O Idiota, é o Louco que acalenta, com a graça de uma criança, o Inquisidor que o faz sofrer. Por fim, a ganância nos conduz à morte, o amor ao dinheiro destrói a vida. A insanidade de ver o mundo diferente é a redenção, a possibilidade de acreditar no inacreditável, de existencialmente entregar-se ao que não faz sentido.
Depois de ler esses russos, comecei a encontrar o cerne para a minha tese, cheguei à conclusão de que não haveria conclusão alguma, que apenas seria possível fazer algumas considerações científicas. A defesa do trabalho aconteceu no final de 2007, com o devido reconhecimento acadêmico. Alguns dos temas que ventilei somente agora começam a ser difundidos no país. Não foi uma tarefa fácil, às vezes, hercúlea, mas que se tornou possível porque aprendi, com Tolstoi, a esforçar-me ao máximo para fazer o melhor, e, ao mesmo tempo, com Dostoievski, a aceitar minha condição limitada, a imperfeição e a incompletude.  
Consegui terminar a tese, mas não posso mais me desvencilhar desses autores russos. Eles me acompanham a todo instante, suspeito que exista um longo caminho a ser trilhado juntos. A essas alturas começo a fazer relações das suas obras com filmes, como por exemplo, Forest Gump e O Idiota. Tenho uma fragilidade, não leio em russo, por isso, comparo constantemente as traduções, na língua portuguesa, inglesa e francesa, e dependo, sempre que possível, das primorosas traduções de Paulo Bezerra para o vernáculo.
Nesses últimos anos tenho observado que cada vez mais aumenta o interesse dos pensadores por esses dois escritores russos. A Revista Cult do mês de novembro (2011) trouxe farta matéria a respeito dos dois. Acabei de ver um filme que trata dos últimos dias de vida de Tolstoi, baseado em um romance homônimo de Jay Parini, intitulado A última estação. Recentemente, conclui a leitura da organização dos seus últimos escritos, uma coletânea de ensaios, cartas e novelas, do mesmo Parini, publicada em português pela Penguin.
Recomendo-os, esteja você escrevendo ou não uma tese, certamente passará por uma experiência no mínimo intensa, testemunhada por leitores da estirpe de Nietzsche, Bakthin e Freud, entre os quais me considero o menor.