16 de set de 2012

As aflições do tempo presente


O homem moderno não admite passar por aflições. As adversidades do tempo presente o incomodam, por isso, ninguém quer ser visto pobre, doente, feio ou fragilizado. A religiosidade não foge a esse esquema, há lideres eclesiásticos que são os primeiros a ostentarem riqueza, saúde, beleza e poder. Não poucos fazem uso da mídia para propagarem suas receitas de “sucesso”. Vendem, à vista ou em “suaves” prestações, a riqueza ilusória, a beleza transitória, a saúde adoecida e o poder corrompido.
A vida, como ela é, está muito longe dessa fórmula idealizada de existência. A menos que nos escondamos nas torres de marfim, logo constataremos que, ao redor, o que mais existe é pobreza, doença, feiura e fraqueza. As pessoas sobrevivem com valores abaixo do necessário para a subsistência. O comércio da doença conduz muitos aos hospitais que não funcionam. Os cosméticos estão longe do poder aquisitivo da maioria da população. A maioria das pessoas com as quais nos deparamos no cotidiano nada se parece com as modelos digitalizadas nas capas das revistas.
As pessoas sofrem, essa é uma constatação irrefutável. Neste exato momento muitas estão em condição de aflição nas mais diversas partes do mundo. Enquanto celebramos o crescimento econômico neste país, observamos, nas calçadas e ruelas, o resultado de uma dívida social histórica. Isso tudo decorrente da ganância desenfreada do ser humano, nem mesmo a natureza é respeitada. A criação que Deus nos entregou, para com ela convivermos, está sendo devastada.  O homem veio do pó, para ele retornará, não pode esquecer dessa dependência natural.
Como diz a letra de uma canção clássica, não passamos de poeira ao vento. Mas preferimos fugir dessa verdade, nos escondemos atrás das máscaras. A negação do verdadeiro eu é uma constante. O principal desafio do homem moderno repousa justamente no encontro da sua identidade. Sabemos que ela está em movimento, portanto em processo, e que somente poderá ser encontrada no Outro. Não podemos ser nós mesmos a menos que sejamos menos quem somos, e pareçamos mais com Aquele que é. Cristo, o Deus-Homem-Sofredor, é o modelo que devemos espelhar.  O caminho que leva até Ele está cheio de aflições. O Deus da Bíblia optou pelo sofrimento, foi à cruz para mostrar que não há amor sem dor.
A Canãa aqui na terra, livre dos sofrimentos, não passa de uma projeção humana. Aqueles que levam o cristianismo a serio sabem que o sofrimento pode bater à porta a qualquer momento. O alento está no Deus-Homem que não se negou a morrer pelos pecados dos homens. Ele se identifica não com aqueles que desfrutam de riqueza, saúde, beleza e poder, mas com os que padecem, os que sofrem as mazelas da vida. Jesus é a encarnação escandalosa do Deus-Sofredor. Ele desafia seus seguidores a encarnarem a dor do que sofre, a viverem não apenas para si mesmos, mas também para os outros.
Mas apesar de toda angústia, há esperança, um Reino está em construção, a alegria começa a sorrir no horizonte. Na tensão do “já” e do “ainda não”, estendemos as mãos uns aos outros, sentido a dor do que sofre. Chegará o dia em que o que é corruptível será revestido da incorruptibilidade. Na expectação por esse dia, caminhamos, lado a lado, aliviando as feridas uns dos outros. Paulo testemunha com convicção a respeito desse dia no qual Cristo, o Deus-Homem-Glorificado, finalmente enxugará dos olhos toda lágrima, diz assim o Apóstolo: “tenho por certo que as aflições do tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm. 8.18).