23 de dez de 2012

Então é Natal.


Então é Natal, assim começa uma letra de uma das canções de John Lennon. Na linha seguinte o compositor pergunta: o que você fez? Essa é uma indagação pertinente, já que essa data é celebrada justamente nas proximidades do final do ano. O ano deveria ser um momento de avaliação existencial. O que fizemos? O que deixamos de fazer? O que poderia ser feito? O que poderá ser feito no ano que se aproxima?
Com os teólogos, reconheço a pouca probabilidade de que Cristo tenha nascido no mês de dezembro. Mesmo assim, gosto do Natal, trata-se uma das mais belas festas do ano. É bem verdade que se descaracterizou bastante do seu verdadeiro espírito. Esta época acabou se reduzindo a mero mercantilismo. As trocas de presentes e a figura esquisita do Pai Noel é mais lembrada que o próprio Cristo, que é o aniversariante, razão de ser do Natal.
Ainda assim, gosto do Natal. Aproveito, seguindo o tom da música de John Lennon, para (re)pensar a vida. Leio e releio trechos das Escrituras que abordam a vinda do Messias, do Verbo que se fez carne. Encantam-me as narrativas evangélicas, especialmente os detalhes apresentados por Lucas. Pastores no campo, reis perseguidores, magos adoradores, tabernas lotadas. 
Em uma estrebaria, uma criança deitada entre os animais, os anjos proclamam, não apenas um menino, mas o próprio Deus, paz na terra entre os homens de boa vontade. Mas não leio apenas a Bíblia, gosto de ver filmes sobre o Natal, também de ler outros livros. Neste ano, retornei a um clássico da literatura britânica com esse tema. 
Christmas Carol, do brilhante escritor Charles Dickens, traduzido para português como Um conto de Natal. O enredo é oportuno para refletir sobre o espírito do Natal. É bem verdade que a narrativa está repleta de incongruências teológicas, mas podemos extrair algumas aplicações espirituais do enredo. O velho Scrooge, personagem principal da obra, detesta o Natal, acha essa uma data irritante, uma perda de tempo, especialmente de dinheiro. 
O capitalismo selvagem, impulsionado pela industrialização, que objetificava o ser humano, era predominante no tempo de Dickens. Como costuma fazer em suas obras, o escritor aproveita este conto para fazer denúncia social. Scrooge representa a tirania capitalista que não vê pessoas, apenas lucros. As falas de Scrooge, ao longo da novela, são perturbadoras, mas encontram eco ainda nos dias atuais.
Tudo muda a partir do momento que Scrooge recebe a visita de fantasmas, primeiramente o do seu ex-sócio, Marley. Depois os espíritos do Natal Passado, Presente e Futuro, que fazem um passeio pela vida de Scrooge. A narrativa nos conduz à percepção de que parte do que somos tem a ver com o que éramos e o que seremos depende de quem somos. Scrooge sofreu bastante na infância, seus traumas natalinos o distanciam da alegria do Natal. A obsessão pelas riquezas o afasta das pessoas, inclusive do próprio Cristo.
Mas o Espírito do Natal Futuro tem algo a revelar a Scrooge, tal como Deus, na parábola do Rico Insensato, contada por Cristo, a morte do adorador do dinheiro será iminente. O velho avarento é advertido daquela dura realidade, que o faz (re)pensar sua existência. Scrooge havia feito o balanço de todas as suas economias, mas não da própria vida. Fez-se necessário uma intervenção sobrenatural para que ele avaliasse o real sentido da existência. A naturalização frenética do cotidiano não nos permite fazer tal reflexão.
Estamos tão acostumados à correria que não paramos para pensar. Nem mesmo no Natal separamos momentos para refletir. Com John Lennon, devemos constatar: “então é Natal”, e perguntar, não apenas aos outros, mas principalmente para nós mesmos: “o que você fez?”. Como Scrooge, devemos avaliar nosso passado, de que modo ele tem influenciado nossas decisões erradas? Será que estamos permitindo ser controlados pelos nossos traumas? 
Que um encontro com Cristo, o Verdadeiro Espírito do Natal, possa mudar nossa história. Como Scrooge, possamos perceber que existem coisas, ou melhor, pessoas na vida que são mais importantes que o dinheiro. Então é Natal.


30 de nov de 2012

Nem todos os evangélicos


O termo evangélico é bastante controvertido, principalmente no Brasil. Isso porque, diferentemente de em outros países, não se costuma fazer a diferença entre evangélicos e evangelicais. Este último abarca os grupos denominacionais comprometidos com o evangelho, ou mais especificamente, com os princípios bíblicos. No Brasil, ser evangélico quer dizer tudo, e, ao mesmo tempo, quase nada. Qualquer pessoa que abre uma igreja, ou que se filia a um determinado grupo, de confissão não católica, é considerado evangélico.
Uma distinção clássica, e histórica do genuíno movimento evangélico, deveria levar em conta alguns princípios, que remetem aos fundamentos da Reforma Prostestante. Ser evangélico, nesse contexto, significa, entre outros aspectos, ter a Escritura como normativa na vida cristã; a necessidade de conversão, ter passado pela experiência do novo nascimento; considerar a obra expiatória de Cristo enquanto Único Mediador entre Deus e a humanidade; e atentar para o imperativo evangelístico, a proclamação das boas novas para a salvação dos perdidos.
Infelizmente, os evangélicos, neste país, são comumente associados a um grupo que nada tem a ver com o evangelho de Jesus Cristo. A mídia coloca todos os supostos evangélicos dentro da mesma categoria. Por isso, os evangélicos são comumente rotulados de, no mínimo, fundamentalistas estúpidos e dogmáticos, anticientíficos, leitores literalistas da Bíblia, direitistas políticos, contra os palestinos e homofóbicos. Como toda e qualquer generalização, essa também é preconceituosa. Ninguém deveria fazer qualquer acusação contra os evangélicos sem lhes dá o direito de se pronunciarem.
Nem todos os evangélicos são estúpidos e dogmáticos, tendo em vista que a tradição protestante resultou de um movimento de reflexão em torno das Escrituras. Os protestantes, desde o princípio, foram pensadores firmados na revelação bíblica, mas que não descartavam o papel da razão na construção do conhecimento. Ao longo da história vários cristãos, de formação evangélica, contribuíram para o avanço da ciência. Existem evangélicos que sabem distinguir entre conhecimento científico, resultante da investigação; e o teológico, da revelação divina.
Nem todos os evangélicos estão exclusivamente do lado de Israel na rotineira disputa armada entre judeus e palestinos. Há evangélicos que reconhecem o papel escatológico de Israel. Isto é, as promessas de Deus para o povo da Aliança. Por outro lado, aguardam essa concretização no futuro, por isso, até que ele se concretize, atuam na igreja, em busca da paz, inclusive entre judeus e palestinos. Deus não está tratando, neste momento, com nações, mas com um povo, independentemente das fronteiras geográficas. Em Cristo, judeus e palestinos podem conviver como irmãos.
Em relação ao posicionamento político, nem todos os evangélicos são de direita, e muito menos de esquerda. O evangelho de Jesus Cristo é uma revelação que atinge a humanidade de cima. Os partidos políticos são invenções humanas, ideologicamente marcadas. Os de direita valorizam apenas o mercado, a liberdade humana, sem atentar para a natureza pecaminosa. Os de esquerda, por sua vez, atentam apenas para a dimensão social, desconsiderando a responsabilidade humana. Deus não está nem de um lado nem do outro, Ele é pela humanidade, não admite a injustiça social, e muito menos que o ser humano seja mercantilizado em prol do deus mercado.
Nem todos os evangélicos são ricos, ou adeptos da teologia da prosperidade, melhor dizendo, da ganância. Essa famigerada desteologia bíblica surgiu nos Estados Unidos a fim de corroborar o acúmulo indiscriminado de riquezas, em detrimento das carências dos mais pobres. A teologia bíblica, especialmente no Novo Testamento, não respalda a prosperidade insensível à necessidade dos mais pobres. A riqueza, na visão de Cristo, é um perigo, pois pode distanciar a humanidade de Deus. O dinheiro deve ser usado pelo homem, nunca o contrário, tê-lo, na cosmovisão cristã, é arriscado.
Nem todos os evangélicos fazem uma leitura literalista das Escrituras. Há tradição protestante possibilitou o livre exame da Bíblia, mas não o seu uso irresponsável. A Bíblia, enquanto revelação divina, deve ser interpretada, por isso, alguns evangélicos recorrem aos recursos linguístico-contextuais. A dependência do Espírito Santo é uma realidade, mas não exime o leitor do esforço hermenêutico, do crivo da comunidade, a fim de reconstruir o sentido do texto. Há evangélicos que defendem a exposição da Biblia, ao invés do uso indiscriminado de passagens isoladas, que favorece posicionamentos meramente humanos.
Nem todos os evangélicos são sexistas ou homofóbicos, tendo em vista que o Deus dos evangelhos é gracioso e includente. Homem e mulher se complementam através do amor-agape. O casamento cristão é constituído nessa diferença, a completude somente se dá nessa dimensão. Marido e mulher devam conviver na disposição sacrificial do genuíno amor cristão. Nenhum dos cônjuges deve assenhorar-se sobre o outro, somente Cristo é Senhor dessa relação. Mas nem todas as pessoas são obrigadas a viverem a partir desse princípio bíblico. Aqueles que vivem com base em outra orientação devem ser amados. O amor, ao invés do enfrentamento, pode ser muito mais eficaz a fim de conduzi-los a Cristo.
Em suma, nem todos os evangélicos são iguais, há diferenças marcantes que não podem ser desconsideradas. Por isso, ao invés de coloca-los na mesma categoria, é recomendável cautela. Nem todos os evangélicos devem ser confundidos com aqueles que estão na televisão. Eles têm a mídia em suas mãos, por isso dizem o que bem entendem. O ponto de vista deles é veiculado como se fosse o da maioria, pior ainda, o único existente. Há muitos evangélicos que não se identificam com aquele discurso. Eles não são ouvidos por uma razão muito simples, estão trabalhando em surdina, construindo o Reino de Deus, que já está entre nós. 

22 de set de 2012

O Caminho menos trilhado


A metáfora do caminho é recorrente na tradição humana para expressar o trajeto da existência. Essa comparação é tão comum no imaginário coletivo que fazemos uso de termos que fazem referência (des)caminhos da vida com naturalidade. A literatura ocidental está repleta de narrativas sobre jornadas e caminhadas. O clássico Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, é um exemplo dessa consciência. Um dos mais célebres livros cristãos, depois da Bíblia, é O Peregrino, de John Bunyan, e trata especificamente da caminhada de Cristão, a fim de chegar à Cidade Celestial.
Na Bíblia encontramos muitas passagens que se referem à vida como caminho, principalmente nos livros sapienciais. O salmista diz que “quanto a Deus, o seu caminho é perfeito; a promessa do Senhor é provada; ele é um escudo para todos os que nele confiam” (Sl. 18.30). E que “bom e reto é o Senhor, pelo que ensina o caminho aos pecadores” (Sl. 25.8). O sábio, em seus Provérbios, diz que “o caminho dos ímpios é como a escuridão: não sabem eles em que tropeçam” (Pv. 4.19) e acrescenta “há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele conduz à morte” (Pv. 14.12).
Como diz o antigo provérbio popular, todos os caminhos levam a Roma. Mas essa não é uma verdade respalda pelo texto bíblico. Os descaminhos são muitos, existe apenas um Caminho. A respeito desse caminho, profetizou Isaias: “E guiarei os cegos por um caminho que não conhecem; fá-los- ei caminhar por veredas que não têm conhecido; tornarei as trevas em luz perante eles, e aplanados os caminhos escabrosos. Estas coisas lhes farei; e não os desampararei” (Is. 42.16). Esse é o Caminho de Deus: “E ali haverá uma estrada, um caminho que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para os remidos” (Is. 35.8).
Esse Caminho nos é revelado na pessoa de Cristo, Ele identifica-se como tal ao declarar: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo. 14.6). Esse Caminho é de Deus, não dos homens, e não é para todos, “porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram” (Mt. 7.14). Isso porque ao invés de seguirem O Caminho, alguns preferem os descaminhos, ou o caminho de Balaão (Jd. 1.11). Não é difícil pegar o caminho errado, por causa disso, o Caminho da verdade acaba sendo blasfemado (II Pe. 2.22).
Mesmo as igrejas ditas cristãs podem se perder em seus descaminhos. O Caminho, que é Cristo, pode ser confundido com o de Herodes ou Caifás. Herodes é o caminho do poder, da fama, riqueza e glória humana. Seguir por ele significa negar o sacrifício da cruz, renunciar ao calvário. A política dos homens tem tudo a ver com este caminho. Muitos cristãos, enfeitiçados pela ambição terrena, trocam O Caminho de Deus pelos descaminhos de Herodes. Ele não mede esforços para continuar no poder, se preciso for sacrifica crianças, decapita profetas e desconsidera Jesus.
O caminho de Herodes se cruza com o de Caifás, na verdade se confundem. Aquele é o da política dos homens, este o da religiosidade interesseira. Herodes faz de tudo para ser amigo de Caifás, e este, por sua vez, toma proveito dessa relação. Para manter a tradição, faz conchavos com o poder, orquestra o povo para que esse incite Pilatos a lavar as mãos e se distanciar do Caminho. Os (des)caminhos de Herodes e Caifás são aplainados pela perseguição. Sacrificados são profetas e apóstolos, todos aqueles que os contrariam. Por seguir o Caminho de Cristo, Paulo diz que foi perseguido até a morte, e que, por causa disso, foi colocado na prisão (At. 22.4).
O sofrimento do Apóstolo encontra eco nas palavras de Drummond, ao atestar que também havia encontrado “uma pedra no meio do caminho”. Os que seguem O Caminho são criticados por não se moldarem ao status quo. Enquanto isso, muitos seguem apressadamente pelo cômodo caminho de Herodes e Caifás. Este, diferentemente do Caminho de Cristo, não tem cruz para carregar. Decisões na vida são inevitáveis, e essa é uma que precisa ser tomada.. O poeta americano Robert Frost tomou a dele: “Dois caminhos divergiam num bosque, e eu segui o menos trilhado, e foi o que fez toda diferença”. Muitos são os (des)caminhos dos homens, mas somente um Caminho conduz a Deus, Jesus Cristo, O Caminho “menos trilhado”. 



16 de set de 2012

As aflições do tempo presente


O homem moderno não admite passar por aflições. As adversidades do tempo presente o incomodam, por isso, ninguém quer ser visto pobre, doente, feio ou fragilizado. A religiosidade não foge a esse esquema, há lideres eclesiásticos que são os primeiros a ostentarem riqueza, saúde, beleza e poder. Não poucos fazem uso da mídia para propagarem suas receitas de “sucesso”. Vendem, à vista ou em “suaves” prestações, a riqueza ilusória, a beleza transitória, a saúde adoecida e o poder corrompido.
A vida, como ela é, está muito longe dessa fórmula idealizada de existência. A menos que nos escondamos nas torres de marfim, logo constataremos que, ao redor, o que mais existe é pobreza, doença, feiura e fraqueza. As pessoas sobrevivem com valores abaixo do necessário para a subsistência. O comércio da doença conduz muitos aos hospitais que não funcionam. Os cosméticos estão longe do poder aquisitivo da maioria da população. A maioria das pessoas com as quais nos deparamos no cotidiano nada se parece com as modelos digitalizadas nas capas das revistas.
As pessoas sofrem, essa é uma constatação irrefutável. Neste exato momento muitas estão em condição de aflição nas mais diversas partes do mundo. Enquanto celebramos o crescimento econômico neste país, observamos, nas calçadas e ruelas, o resultado de uma dívida social histórica. Isso tudo decorrente da ganância desenfreada do ser humano, nem mesmo a natureza é respeitada. A criação que Deus nos entregou, para com ela convivermos, está sendo devastada.  O homem veio do pó, para ele retornará, não pode esquecer dessa dependência natural.
Como diz a letra de uma canção clássica, não passamos de poeira ao vento. Mas preferimos fugir dessa verdade, nos escondemos atrás das máscaras. A negação do verdadeiro eu é uma constante. O principal desafio do homem moderno repousa justamente no encontro da sua identidade. Sabemos que ela está em movimento, portanto em processo, e que somente poderá ser encontrada no Outro. Não podemos ser nós mesmos a menos que sejamos menos quem somos, e pareçamos mais com Aquele que é. Cristo, o Deus-Homem-Sofredor, é o modelo que devemos espelhar.  O caminho que leva até Ele está cheio de aflições. O Deus da Bíblia optou pelo sofrimento, foi à cruz para mostrar que não há amor sem dor.
A Canãa aqui na terra, livre dos sofrimentos, não passa de uma projeção humana. Aqueles que levam o cristianismo a serio sabem que o sofrimento pode bater à porta a qualquer momento. O alento está no Deus-Homem que não se negou a morrer pelos pecados dos homens. Ele se identifica não com aqueles que desfrutam de riqueza, saúde, beleza e poder, mas com os que padecem, os que sofrem as mazelas da vida. Jesus é a encarnação escandalosa do Deus-Sofredor. Ele desafia seus seguidores a encarnarem a dor do que sofre, a viverem não apenas para si mesmos, mas também para os outros.
Mas apesar de toda angústia, há esperança, um Reino está em construção, a alegria começa a sorrir no horizonte. Na tensão do “já” e do “ainda não”, estendemos as mãos uns aos outros, sentido a dor do que sofre. Chegará o dia em que o que é corruptível será revestido da incorruptibilidade. Na expectação por esse dia, caminhamos, lado a lado, aliviando as feridas uns dos outros. Paulo testemunha com convicção a respeito desse dia no qual Cristo, o Deus-Homem-Glorificado, finalmente enxugará dos olhos toda lágrima, diz assim o Apóstolo: “tenho por certo que as aflições do tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Rm. 8.18). 

1 de ago de 2012

O secular sagrado

Há uma tendência dos cristãos atuais em dividir a vida cristã em compartimentos. Determinados compartimentos são considerados “sagrados”, e têm a ver com a vida espiritual. As demais atividades são categorizadas dentro do compartimento “secular”.  A divisão da vida cristã em compartimentos pode ter consequências drásticas. Eles podem correr o risco de assumirem Jesus como salvador pessoal em determinados contextos, mas negarem a eficácia da fé em outros. Esses cristãos tendem a ter uma vida dúbia, são crentes na igreja, mas têm dificuldade de se identificarem como tal na família, escola e no trabalho.
Essa compartimentalização da vida cristã não tem respaldo bíblico, é resultante de uma dicotomização filosófica, que encontrou expressão na idade média. Lutero, o reformador alemão, criticou veementemente esse tipo de pensamento. Conta-se que um sapateiro, ao testemunhar a euforia protestante, quis abrir mão do seu trabalho para tornar-se líder eclesiástico. Quando expressou sua intenção ao reformador protestante, esse respondeu que ele poderia muito bem servir a Deus na sapataria, fazendo melhores sapatos e vendendo-os por um preço justo. Certamente, aqueles que desejam o episcopado excelente obra almejam, mas essa não é a única maneira de servir ao Senhor.
Existem outras áreas onde o cristão pode atuar e expressar a sua fé em Cristo. A literatura, as artes em geral, o direito, a medicina, o magistério, entre outras, são áreas carentes do testemunho cristão. Certo jovem encontrou Charles Colson em um avião e aproveitou a oportunidade para demonstrar sua apreciação aos livros que ele havia escrito, e comunicá-lo da sua desistência de cursar engenharia química, justificando que iria se tornar um obreiro de tempo integral. Com carinho, Colson repreendeu o jovem cristão, disse-lhe que provavelmente ele não tinha entendido a intenção dos seus livros, pois se o tivesse feito, saberia que a engenharia era uma área carente de cristãos, tendo em vista o número de ateus que labutam nessa área.
Jesus chamou seus discípulos para serem sal da terra e luz do mundo (Mt. 5.13-16), levando seu testemunhos nas diversas áreas da sociedade. Ninguém deve se sentir menosprezado porque não está labutando no ministério de tempo integral. Evidentemente, alguns receberam o chamado para tal, e são dignos de consideração, respeito e salários. Mas aqueles que são “obreiros de tempo integral” não são mais “sagrados” do que aqueles que trabalham na vida “secular”. Na verdade, a distinção mais apropriada seria entre o sagrado e o profano, não entre o sagrado e o secular. Os cristãos foram chamados para estar no mundo, por esse motivo, devem fazer a diferença onde se encontram.
De acordo com Paulo, somente o que não é de fé é pecado (Rm. 14.23), por isso, tudo o que fazemos, deve ter como alvo a glória de Deus, não apenas para os homens (Cl. 3.23). Seja no ministério pastoral de tempo integral, diante da sala de aula de uma escola, do consultório médico ou advocatício, Deus será glorificado se as nossas vidas expressarem a fé cristã. O livro Um dia na vida de Ivan Denisovitch, do escritor russo Alexander Soljenistsin, mostra a vida de um prisioneiro político na ex-união soviética. O autor revela, ao longo da narrativa, como Denisovitch sacralizava cada momento da vida, mesmo em condições adversas. Qualquer tarefa na prisão era percebida como uma oportunidade para dar o melhor de si. Esse texto nos conduz à reflexão a respeito do valor que os cristãos precisam dar as coisas que fazem no cotidiano.
Nesse contexto, o capital mercadológico das profissões se desconstrói, o papel social do médico não é superior ao de um professor. Cada profissional tem o seu valor, e se esse for cristão, sua obra é sagrada, pois labuta não somente para homens, mas para Deus. Muitos cristãos que não eram “obreiros de tempo integral” fizeram diferença na sociedade. O luterano Johann Sebastian Bach, um dos maiores músicos de todos os tempos, legou a humanidade, composições que são elogiadas até mesmo por aqueles que não professam a fé cristã. O Senhor dos Anéis e as Crônicas de Narnia, escritos da pena de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, respectivamente, tornaram-se obras clássicas da literatura, e estão repletas de valores cristãos. O geneticista americano Francis Collins é respeitado pelos seus estudos do dna, ao mesmo tempo em que testemunha, com entusiasmo, da sua fé e amor a Jesus Cristo.
Todos os dias, milhares de cristãos anônimos, na sua labuta diária, na vida “secular”, estão sacralizando cada momento da existência. Esses, não apenas aqueles que se dedicaram ao ministério pastoral de “tempo integral”, receberão a recompensa do Senhor. Eles não fazem a diferença entre o sagrado e o secular, apenas entre o secular e o profano. Para esses, a vida cristã não está restrita às poucas horas que estão dentro de um templo. Esse é um momento especial de comunhão e adoração a Deus, mas não é o único. Jesus Cristo é glorificado em cada ato desses cristãos que vivem a fé vinte e quatro horas por dias, setes dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias do ano.
Como fazia Sebastian Bach, ao concluir suas composições, assinam seus feitos, com reverência, em tributo ao Criador: Soli Deo Gloria. 

30 de jun de 2012

Cristãos no mundo

Ao longo da história da igreja vários movimentos apregoaram o isolamento em relação ao mundo como forma de alcançar a santificação. Ainda hoje, existem grupos que defendem um distanciamento da igreja para longe da sociedade. Nos tempos de Jesus, os essênios assumiam essa postura, para eles, os servos de Deus deveriam refugiar-se no deserto. Monges católicos optaram pela clausura, a fim desfrutarem de um relacionamento mais profundo com Deus. Algumas religiões orientais ainda estimulam o distanciamento social a fim de meditarem nos princípios legados pelos seus mentores espirituais.
Jesus também tinha seus momentos de isolamento social para ficar a sós com o Pai. Os evangelistas registram que diversas vezes o Senhor se distanciou da multidão a fim de orar. Ele mesmo orientou seus discípulos à valorização da intimidade com o Pai. Mas Cristo não optou pela vida totalmente ascética. Ele era reconhecido, e muitas vezes criticado pelos religiosos da época, pela Sua inserção na sociedade. Jesus era o amigo dos pecadores, Ele os amava e a eles estendia Suas mãos. O Senhor sabia da necessidade de mudança do mundo, e que este era o campo da colheita divina.
Muitos cristãos não compreendem o significado de mundo porque essa palavra – cosmos em grego – tem significados diversos. Pode referir-se ao mundo criado, planetas e firmamento, à extensão física que visualizamos. Mundo também diz respeito à humanidade que Deus ama a quem entregou Seu Único Filho em sacrifício pelos pecadores. Mas o mundo tem a ver ainda com o sistema satânico, caído e que se opõe à vontade boa, perfeita e agradável de Deus. A esse mundo os escritores bíblicos orientam para que a igreja não se conforme a ele.
Esse mundo, a quem Paulo adjetiva como tenebroso, regido por principados e potestades das regiões celestes, é antiDeus. Suas motivações estão pautadas no ódio, em oposição ao amor, na mercantilização do ser humano, subjugando sua dignidade. Os interesses desse mundo se fundamentam no egoísmo, por isso, o individualismo sobrepõe-se às necessidades coletivas. Por conseguinte, o dinheiro passa a ser endeusado como Mercado, a quem Jesus denominou de Mamon. Os pobres são transformados em moeda de troca, sem nenhum valor. A política dos homens – a da ganância – predomina sobre a política de Deus – a do amor sacrificial.
Diante de um mundo tão perturbador, é compreensível que alguns cristãos desejem se voltar para o isolamento. Jesus sabia muito bem disso, por essa razão, em Sua oração sacerdotal, rogou pelos Seus seguidores a esse respeito. Intercedeu ao Pai não para que Seus discípulos fossem retirados do mundo, mas que fossem libertos do poder do Mal. Estar no mundo é uma necessidade, o próprio Cristo, o Deus-Homem, precisou encarnar-se para salvar a humanidade. Ele é a demonstração nítida de que os cristãos devem estar no mundo, como sal e luz.
Estar no mundo é viver em contracultura, é uma atitude de seguir em oposição. Para tanto, é preciso ouvir a voz dAquele que sentiu na carne as agruras do mundo que O crucificou e O expôs à ignomínia pública. Ao contrário do que se apregoa em alguns circuitos evangélicos, ser cristão não torna a vida das pessoas mais fácil. Se alguém procura uma religião para se sentir bem, não recomendaria aderir à fé cristã, a menos que essa já tenha sido cooptada e se transformado em mero “cristianismo”.
Cristo, Aquele que esteve no mundo, mas não fez parte dele, comissiona, a todos os que O seguem, a que façam o mesmo. Essa é uma missão desafiadora, pois retira o cristão do lugar comum. A condição imposta ao discípulo de Jesus é de paratopia, ou seja, de deslocamento. Assumir os valores políticos, econômicos e morais partilhados pelo mundo é entregar-se ao governo dos principados e potestades desta Era. O príncipe deste século ofereceu fama, glória e riqueza a Cristo se esse o adorasse e se prostrasse aos seus pés. A resposta do Mestre, e a de todo cristão no mundo, deve ser a mesma, fundamentada na Palavra: somente Deus é digno de adoração.

19 de mai de 2012

Provérbios evangélicos, mas não bíblicos


Aurélio define provérbio como uma “máxima ou sentença de caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens”. É comum ouvirmos expressões do tipo: “casa de ferreiro, espeto de pau”, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”, entre outras. Os provérbios não são neutros, eles estão tomados de carga ideológica. Alguns deles, inclusive, são preconceituosos, pois denigrem a imagem da pessoa humana. O contexto evangélico, situado na cultura, também apresenta seus provérbios. São aquelas máximas que circulam entre os membros das igrejas e que, na maioria das vezes, nada têm de bíblicos.
Esses provérbios se alastram como jargões, que acabam fazendo parte do repertório expressivo e que sustentam determinadas práticas. De vez em quando se escuta um evangélico dizer “é mistério!”. Esse dito, em várias circunstâncias, favorece uma ausência de reflexividade em relação à fé cristã. Para determinada ala evangélica, especialmente os neopentecostais, não é preciso explicar o que se acredita. Essa preguiça não tem fundamentação bíblica. É bem verdade que existe mistério na fé, mas não podemos deixar de refletir a respeito do que nos foi revelado. As coisas misteriosas pertencem a Deus, mas aquilo que Ele nos revelou em Sua palavra é digno de estudo.
“Deus está no controle”, esse é outro provérbio evangélico repetido com muita frequência nas igrejas. Aparentemente essa é uma expressão que até respaldaria a fé daquele que assim declara. O perigo, no entanto, está em universalizar essa afirmação, para defender que Deus é responsável por tudo. Isso definitivamente não é verdade, o Deus da Bíblia não é determinista. Ele espera que o ser o humano responda às suas orientações, e que tenha liberdade para escolher. Deus está no comando das situações, mas trabalha com os seres humanos. Há determinadas coisas que compete a nós, Deus está esperando que tomemos as atitudes necessárias.
Sempre que têm oportunidade, e principalmente com vistas à evangelização, os evangélicos declaram: “Jesus é a resposta”. De fato, essa é uma verdade, mas que precisa ser contextualizada. Quando afirmamos que Jesus é a resposta, não podemos nos isentar da responsabilidade de apresentar a pergunta. Para que a declaração “Jesus é a resposta” não fique no vazio, faz-se necessário uma contextualização da fé. Inicialmente, devemos deixar claro que Jesus não é a resposta para todas as situações. Muitas pessoas querem abraçar a fé cristã para ter uma vida menos sofrível. O cristianismo, porém, não dar essa garantia, na verdade, há quem sofra muito mais depois de se tornar cristão.
As respostas de Jesus estão na Bíblia,  há até evangélicos que dizem que “a Bíblia tem todas as respostas”. Esse é mais um provérbio, pois nem todas as respostas podem ser encontradas nesse livro. A Bíblia deixa de tratar a respeito de uma série de assuntos atuais, dentre eles, pesquisa com células-tronco. Encontramos na Bíblia os princípios a partir dos quais nossa vida pode ser dirigida pelo Espírito Santo. Mas ela nada diz diretamente com quem devo me casar, qual profissão deverei escolher, entre outras indagações da vida cotidiana. A Bíblia não é um livro de ciência, Deus não tem a mínima pretensão de concorrer com as pesquisas humanas. A Bíblia é um livro inspirado por Deus, que visa à santificação do cristão, e que este esteja preparado para trabalhar para o Senhor.
Outro provérbio comum entre os evangélicos é o de que “Deus ajuda a quem se ajuda”. Há uma versão mais ampla, assumida até mesmo entre as pessoas que não fazem parte do meio que diz: “faça a tua parte que eu te ajudarei”. O problema desse provérbio é que ele favorece o individualismo, uma tendência predominante na sociedade moderna. Cristo nos ensina a amar o próximo, a nos sacrificar pelos outros, a sermos generosos. O provérbio “Deus ajuda a quem se ajuda” nega tal princípio e alimenta a mentalidade que cada um deva fazer a sua parte. Essa posição se coaduna muito mais à competitividade do mercado, alicerçada na lei do mais forte, que massacra os mais fracos. Os pobres, sempre os teremos conosco, mas nem todos são miseráveis porque querem, existem condições sociais injustas que patrocinam tal realidade.
Uma máxima recorrente entre os evangélicos é a de que não se deve julgar. É comum alguém citar a afirmação de Jesus, “não julgueis” para confirmar seu posicionamento. Esse ponto de vista resulta em total liberalismo doutrinário, comprometendo toda a ortodoxia bíblica. No contexto em que Jesus faz tal assertiva, Ele está tratado do julgamento futuro das pessoas. De fato, não podemos antecipadamente assumir que uma determinada pessoa irá para o céu ou inferno. Mas isso não quer dizer que devamos nos isentar da responsabilidade de assumir o que expressamente está revelado como pecado na Bíblia.
Evidentemente, precisamos ter cautela, e diferentemente dos religiosos do tempo de Jesus, criteriosos para não julgar apenas os pecados morais, esquecendo-se dos mais graves, os espirituais, com destaque para a hipocrisia. Deus é amor, esse não é um provérbio, mas uma declaração bíblica de profunda verdade teológica. Ele ama aos pecadores, e demanda desses que se arrependam e passem a desfrutar de um relacionamento profundo com Ele, o que implica em viver em santidade. A Bíblia é explícita nesse sentido, e em relação a muitos outros assuntos. Como cristãos responsáveis, e reconhecendo o risco de repassar provérbios destoados da Palavra, recomendamos a reflexão bíblica, que leve em consideração princípios interpretativos que respeitem o Autor, e principalmente, em submissão, disposto a ouvir o que Ele, e não os provérbios humanos, tem a dizer às igrejas.  

31 de mar de 2012

Pensar é um ato de amor a Deus

O avanço dos evangélicos no Brasil, nesses últimos anos, favoreceu a formação de um grupo que cada vez mais se torna majoritário nas igrejas, aqueles que defendem a incompatibilidade da fé com a razão. Uma contestação dessa realidade foi expressa é uma canção do compositor evangélico João Alexandre intitulada “É proibido pensar”. Infelizmente, aqueles que se opõem à reflexão na igreja estão prestando um desserviço à obra do Senhor Jesus Cristo. Isso porque tanto na Bíblia quanto na História da Igreja, o ato de pensar a fé sempre teve o seu devido lugar.
É bem verdade que existem exageros, alguns pensadores cristãos, sob a influência do Iluminismo, acabaram invertendo a ordem de prioridade, e colocaram a razão diante da fé. Em casos extremos, a fé passou a ser totalmente negada, e a razão supervalorizada. Em geral, a fé cristã sempre conviveu bem com a razão. A igreja assumiu, ao longo da história, a importância de refletir a respeito da fé que uma vez foi entregue aos santos (Jd. 3), até porque, conforme expõe Pedro em uma das suas epístolas, é necessário que estejamos prontos para dar aos outros a razão da nossa fé (I Pe. 3.15).
Deus nos criou para pensar, não podemos esquecer que a reflexão é uma dádiva do Criador. A Queda é uma realidade, e isso impede que o ser humano submeta seu pensamento à Palavra, mesmo assim, Deus convida as pessoas para refletirem e julgarem qual seja a mais sábia decisão (Is. 1.18). O problema do homem moderno não é a intelectualização, mas a negação total da revelação de Deus. A mente deva estar a serviço da revelação, isto é, do que Deus diz em Sua Palavra, tendo em vista que as verdades espirituais não podem ser discernidas pela razão somente, mas pelo Espírito Santo, e a Escritura, que nos trazem a verdade do Evangelho de Cristo (I Co. 1.21).
A disciplina da mente, através da reflexão na Escritura, é um dos motes cristãos. Paulo instrui aos crentes de Filipos a respeito do que deveria ocupar a mente deles: “tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama (Fp. 4.8). Aos Coríntios, orientou para que tornassem cativo todo pensamento para levá-lo à obediência a Cristo (II Co. 10.5). Ao longo da sua Epístola aos Romanos, o mesmo Apóstolo repete cerca de dez vezes a expressão “porque não quero, irmãos, que ignoreis”. Com destaque para o texto de Rm. 12.1,2, no qual argumenta em favor do culto racional a Deus e de um entendimento consolidado de acordo com a Sua vontade.
A reflexão com base na Palavra de Deus não distancia o cristão de Deus, na verdade, trata-se de um ato de adoração. No Salmo 119 o poeta sacro declara várias vezes: “Dá-me entendimento e guardarei a tua lei, de todo o coração a cumprirei”. Ao ser indagado pelos religiosos a respeito do maior dos mandamentos, Jesus respondeu: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mt. 5.37). Pensar não é, ou pelo menos não deveria, ser proibido, já que desse modo demonstramos nosso amor a Deus.
Amor e conhecimento precisam estar balanceados, muito amor sem conhecimento resulta em fanatismo e muito conhecimento sem amor em arrogância. Como bem expressa Paulo: “o conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica” (I Co. 8.1). E acrescenta: “ainda que eu conheça todos os mistérios e toda a ciência, se não tiver amor, nada serei” (I Co. 13.2). A reflexão submissa à Palavra de Deus deva nos conduzir a amar mais e a melhor vivermos para o Senhor. Agostinho de Hipona expõe essa relação ao declarar: "eu creio para compreender e compreendo para crer melhor". Séculos depois Anselmo de Aorta reforçaria tal premissa: "não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender".
Aqueles que querem demonstrar seu amor a Deus devem fazê-lo não apenas com todo o coração e alma, mas também com todo o entendimento.

29 de jan de 2012

Tese entre dois russos

A escritura de uma tese é sempre traumática. Para uns mais, menos para outros, mas todas deixam algum tipo de sequela. Iniciei esse processo no início de 2004, após ter sido aprovado no doutorado. As tentativas de tecer um texto com argumentos convincentes me perseguiram desde o primeiro parágrafo. O rigor metodológico, ainda que a pesquisa fosse qualitativa, tornou-se minha obsessão. Leituras e orientações faziam com que oscilasse entre momentos de euforia e desânimo. Às vezes experimentava a síndrome de Sísifo, e com Camus, tinha impressão de que estava indo e vindo ao mesmo lugar.
Após alguns dias improdutivos, sem que conseguisse chegar a um bom termo para o trabalho, decidi reavaliar a direção da pesquisa. Em meio às discussões com alguns colegas da área de jornalismo e literatura, os autores russos entraram na pauta, em especial por dois escritores: Tolstoi e Dostoievski. Depois daquela conversa, retornei para casa com um desafio: embrenhar-me na leitura desses dois mestres. Nos dois anos seguintes, na mesma proporção em que me entregava ao texto acadêmico, lia com avidez, os tomos complexos e repletos de personagens desses autores russos. 
Comecei por Memórias do Subsolo, de Dostoievski, a fim de ter um primeiro contato com o homem desencontrado. A compreensão do humano que quer ser alguém, mas que é reduzido a quase nada me impactaram, principalmente em Sonho de um homem ridículo e Crime e Castigo. Em Roskolnikov, o personagem central deste último, identifiquei-me com o homem moderno, e, ao mesmo tempo, reconheci a fragmentação do eu, a impossibilidade do progresso. Isso seria suficiente, mas, no mesmo período, resolvi também ler A morte de Ivan Ilich, de Tolstoi, que me lançou em uma melancolia, que julgo eu necessária a todo indivíduo.
A caminhada ao lado desses escritores conduziu-se a reflexões profundas, a respeito dos mais diversos temas psicossociais. Os demônios, de Dostoievski fez com que eu me tornasse mais cético em relação à política. Ana Karenina e Guerra e Paz, de Tolstoi, a questionar os motivos da guerra, sejam eles considerados “justos” ou “injustos”. Esses autores apontaram detalhes no percurso da vida que eu não havia percebido. Em O Idiota pude adentrar à natureza humana, atentando para sua decadência, e paradoxalmente, para a possibilidade de redenção estética, em modelos de beleza que são negados pela sociedade. Ressurreição, provavelmente um dos últimos livros de Tolstoi, ajudou-me a olhar com suspeição para as leis humanas.
Através de Os irmãos Karamazov passei a ouvir vozes, a polifonia daqueles que têm a coragem de acreditar em Deus, e a compreender os motivos dos que não crêem, bem como a posição dos que O consideram irrelevante. O Cristo, concretizado nas alucinações de O Idiota, é o Louco que acalenta, com a graça de uma criança, o Inquisidor que o faz sofrer. Por fim, a ganância nos conduz à morte, o amor ao dinheiro destrói a vida. A insanidade de ver o mundo diferente é a redenção, a possibilidade de acreditar no inacreditável, de existencialmente entregar-se ao que não faz sentido.
Depois de ler esses russos, comecei a encontrar o cerne para a minha tese, cheguei à conclusão de que não haveria conclusão alguma, que apenas seria possível fazer algumas considerações científicas. A defesa do trabalho aconteceu no final de 2007, com o devido reconhecimento acadêmico. Alguns dos temas que ventilei somente agora começam a ser difundidos no país. Não foi uma tarefa fácil, às vezes, hercúlea, mas que se tornou possível porque aprendi, com Tolstoi, a esforçar-me ao máximo para fazer o melhor, e, ao mesmo tempo, com Dostoievski, a aceitar minha condição limitada, a imperfeição e a incompletude.  
Consegui terminar a tese, mas não posso mais me desvencilhar desses autores russos. Eles me acompanham a todo instante, suspeito que exista um longo caminho a ser trilhado juntos. A essas alturas começo a fazer relações das suas obras com filmes, como por exemplo, Forest Gump e O Idiota. Tenho uma fragilidade, não leio em russo, por isso, comparo constantemente as traduções, na língua portuguesa, inglesa e francesa, e dependo, sempre que possível, das primorosas traduções de Paulo Bezerra para o vernáculo.
Nesses últimos anos tenho observado que cada vez mais aumenta o interesse dos pensadores por esses dois escritores russos. A Revista Cult do mês de novembro (2011) trouxe farta matéria a respeito dos dois. Acabei de ver um filme que trata dos últimos dias de vida de Tolstoi, baseado em um romance homônimo de Jay Parini, intitulado A última estação. Recentemente, conclui a leitura da organização dos seus últimos escritos, uma coletânea de ensaios, cartas e novelas, do mesmo Parini, publicada em português pela Penguin.
Recomendo-os, esteja você escrevendo ou não uma tese, certamente passará por uma experiência no mínimo intensa, testemunhada por leitores da estirpe de Nietzsche, Bakthin e Freud, entre os quais me considero o menor.