23 de out de 2011

Sabedoria no sofrimento

Enquanto redijo esta crônica, diante da tela fria do computador, Sofia está no leito de um hospital. Há mais de cinco dias a princesianha não sai do soro, e de vez quando, precisa tomar uma injeção. A avaliação preliminar é de uma dessas bactérias que se alastram cada vez com maior intensidade, fazendo as crianças reféns, em virtude das defesas limitadas do organismo. A impaciência de Sofia é constante, entre um soro e outro ela se inquieta, e, de vez em quando, pergunta quando retornará para casa, isso porque as crises de vômito persistem. Não é fácil responder às situações adversas semelhantes a essa, as limitações impostas pela existência nos põem no devido lugar, o da espera que tudo passe.
Algumas vezes, a pequena, que ainda não completou oito anos, se ajoelha e ora. Pede a Deus para que Ele a livre daquela situação, que a cure imediatamente. Mas isso não acontece com a rapidez desejada. A melhora é paulatina, e isso incomoda bastante, confunde sua cabecinha ainda em formação. Diante de tal quadro, pedi em determinado momento que ela tivesse um pouco mais de paciência, e acrescentei que Deus a curaria. Sofia respondeu, em tom de desespero, que Ele não poderia fazê-lo, já que ela havia orado, e mesmo assim não havia obtido uma resposta favorável. A princípio, fiquei desconcertado com a resposta da menina, mas compreendi sua lógica.
Tal resposta me levou a refletir sobre a situação de várias outras pessoas que sofrem neste momento. Elas certamente devem fazer a mesma indagação: por que Deus não cura se Ele pode? Essa problemática já conduziu muitas pessoas ao ateísmo. Basta citar o famoso argumento: "Se Deus pode e não cura é porque  não é bom e se é bom e não cura é porque não pode". Alguns teólogos modernos, com base nesse raciocínio admitem que Deus esteja limitado, e que, de fato, está incapacitado para agir em prol do sofrimento humano. Essa temática sempre alimentou as discussões filosóficas. Pensadores de todos os tempos se envolveram nessa discussão desde Agostinho, até, mais recentemente, C. S. Lewis. Mas nenhum dos gigantes da fé trouxe uma resposta satisfatória a esse respeito.
Eu também, como um anão na fé, não sei por que razão Deus permite o sofrimento. O livro poético de Jó discorre magistralmente sobre o assunto. O patriarca hebreu perdeu parte da família, e posteriormente a própria saúde. Sua esposa, a fim de atenuar sua dor, recomendou que ele amaldiçoasse ao seu Deus e morresse. Jó a repreendeu, e ao contrário do que se esperava, depositou sua confiança em Deus, mesmo em meio a dor. É bem verdade que ele questionou o porquê de tanto sofrimento, desejou ficar frente a frente com Deus para colocar suas queixas. Mas quando o Senhor lhe apareceu, no meio de um redemoinho, não deu uma resposta sequer as mais de setenta feitas pelo patriarca.
A lição que Jó tirou do sofrimento foi a de que Deus é soberano, e que seus atos estão para além da nossa compreensão. O que acontecia por detrás da cortina não era sabido pelo piedoso servo do Senhor. Ao retornar às indagações de Sofia, reflito: talvez ela seja pequena demais para entender os desígnios de Deus. A fé dela ainda é, literalmente, infantil, está baseada no controle a fim de satisfazer seus interesses. Como Sofia, milhares de cristãos gostariam que Deus fizesse o que desejam. Mas se assim acontecesse, Deus não seria Deus, o Soberano, o Criador do Céu e da Terra. Como Jó, diante dos seus santos e eternos desígnios, podemos apenas exercitar a fé.
Oro para que Deus cure a pequena Sofia, para que logo ela esteja de volta ao lar. Sinto falta das suas travessuras, da esperteza que de vez em quando me espanta. Mas rogo também ao Eterno para que lhe dê mais sabedoria. Que Deus lhe dê uma confiança inabalável, que vá além de todo entendimento. Uma fé madura seja capaz de suportar as intempéries circunstanciais, seja nos momentos de fartura ou adversidade. O Deus revelado na Escritura tudo pode fazer, suas forças não estão limitadas, mas Ele, por razões que não podemos explicar, não faz tudo o que desejamos. Existem propósitos mais amplos que não conseguimos acompanhar, especialmente quando focamos a horizontalidade.
Sabemos que o sofrimento é constitutivo da existência humana. Todos sofrem, uns mais, outros menos, cada um sabe onde e o quanto padece. Gostaríamos, mas não podemos apresentar respostas prontas para a dor. Por isso, posso apenas ficar ao lado da cama hospitalar, dar massagens nos pés inquietos, dar atenção, e quando permitido, um beijo e um abraço. Consola saber que pelo menos Deus sabe o que é sofrer, na cruz do calvário Jesus experimentou as formas mais intensas de dor, até mesmo a sensação de ser abandonado pelo Pai. Por isso, Ele se compadece de cada um de nós, e cremos, ao Seu tempo, conforme aconteceu com Jó, compreenderemos Seus propósitos. 
Sofia ainda não entende por qual motivo suas orações não são respondidas, por isso fica ansiosa e demonstra desconfiança em Deus. Como um Pai que já caminhou algumas milhas adiante, e tenta aceitar os mistérios de Deus, espero que minha menina cresça e desenvolva uma fé madura, que não se abale com as adversidades. Rogo a Deus para que ala aprenda a amá-LO, e mais que isso, que seja capaz de confiar nEle, ainda que não obtenha resposta favorável às suas orações. Mais importante do que receber o que desejamos de Deus é sabem que Ele, em todos os momentos, se mantem no controle da nossa existência e que a Sua graça nos é suficiente. Jó queria que sua história fosse registrada, hoje ela está na Bíblia. Por causa disso, sabemos que fazemos parte de uma narrativa maior, cujo desfecho será revelado na eternidade.