31 de ago de 2011

Stott, um amigo

John Stott, o célebre teólogo britânico falecido em julho último, aos 90 anos de idade, foi um grande amigo. Explico, não que ele tenha me conhecido, sinceramente, tenho certeza que nunca ouviu falar a meu respeito. Mesmo assim, atrevo-me a chamá-lo de amigo, pois desde os anos inicias de fé, até aos dias atuais, seus escritos têm contribuido significativamente para fundamentar minha percepção de fé cristã. Nos idos dos anos 80, caiu-me às mãos um livro publicado no Brasil, com o título provocador de Cristianismo Equilibrado. Para quem estava se iniciando nas doutrinas cristãs, aquele opúsculo norteou meu pensamento nos anos subseqüentes. Destaco, entre os posicionamentos de Stott que me chamaram a atenção no livro: o equilíbrio entre evangelização e engajamento social e entre emoção e razão.
Desde então, não parei mais de ler Stott, consegui, posteriormente, uma edição de Cristianismo Básico. Compreendi, logo ao concluí-lo, que se tratava de um clássico teológico, um daqueles livros que ultrapassam as limitações temporais. Stott conseguiu, com a maestria de sempre, expor os pressupostos da fé cristã. Anos depois, assim que foi traduzido para o português, tratei de ler Porque sou cristão. Nesse livro o teólogo britânico dialoga com aqueles que negam a possibilidade de acreditar em Deus, na medida em que se inscreve a outros expoentes que se converteram. No lastro de Paulo e Agostinho, Stott assume que a conversão é um ato de coragem, mais que isso, de esperança nAquele que nos chamou a ir após Ele. A teologia de Stott é cristocêntrica, e não se distancia, conforme propõe Paulo, da mensagem da cruz, exposta nas páginas do Novo Testamento.
A esse respeito, Stott escreveu um outro clássico da teologia. Um livro que deva constar na biblioteca de todo pensador cristão. A Cruz de Cristo é um tratado no qual o pastor da All Souls Church aborda a relevância do sacrifício vicário de Jesus, enquanto ponto de partida e chegada na caminhada. Essa é uma mensagem que, segundo ele, não pode ser descartada. Para tanto, em seu livro Eu Creio na Pregação, Stott, como brilhante teólogo que era, faz uma apologia histórica e contextual da importância da pregação para a igreja, bastante propício para a realidade atual entre os evangélicos dos dias de hoje, afeitos ao barulho, e desinteressados na reflexão. Mas a pregação, conforme advoga Stott, pressupõe conhecimento bíblico, por isso, Stott sempre foi um defensor do estudo criterioso do Livro Sagrado, contextualizando-o com a realidade social.
A afeição de Stott pela Bíblia pode ser avaliada pelos seus comentários bíblicos. Tive a oportunidade de ler alguns deles, entre os quais destaco: Atos e Romanos. Seus comentários Sttot se destacam não apenas por demonstram erudição teológica, mas, sobretudo, pela competência que demonstra para aplicar as verdades bíblicas às perspectivas contemporâneas. No seu livro Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, ele demonstra como o cristão pode responder às perguntas da sociedade moderna a partir da cosmovisão bíblica. Os escritos de Stott revelam sintonia com as teorias sociais, por isso, resultando, assim, em relevância para os que podiam fazer o entrelaçamento entre teologia e sociedade. Causou-me expanto, constatar, através dos seus livros, que ele era admirador de Paulo Freire, o pedagogo brasileiro, às vezes desconhecido e pouco celebrado entre nós. Em observância ao mandamento de Jesus, sobre olhar para as andorinhas do céu, Stott desenvolu um profundo conhecimento sobre pássadores, cultivando com denodo a ornitologia.
No momento de sua passagem, os presentes liam a Escritura e ouviam o Messias de Handel. Em um artigo que li logo após sua partida, o autor declarava que se existisse a figura do Papa entre os protestantes, certamente Stott teria sido escolhido. Concordo plenamente com tal afirmação, e penso, e que papa ele teria sido. Um homem que, por ter o dom do celibato, abriu mão do casamento para dedicar-se exclusivamente à igreja de Cristo. Um teólogo que buscou, com todo esmero, traduzir textos eruditos em conhecimentos acessíveis ao povo simples. Um pensador engajado, comprometido com as causas sociais, preocupado com os mais necessitados. Stott é um daqueles que, parafraseando o título do livro de C. S. Lewis, não foi um mero cristão. A chamada de Deus a Jeremias se aplica perfeitamente a dele, não para correr com homens, mas como alguém que compete contra cavalos. Depois que ele se foi, perguntei-me: e agora? A Palavra e o Espírito me responderam: continue sendo imitador dele, como ele era de Cristo. Em sua homenagem, e com esse desafio em vista, fui à estante, peguei seu último livro, o canto do cisne, retirei o plástico e comecei a lê-lo, seu título define o que foi e o que todos os cristãos deveriam ser: Um Discípulo Radical.