31 de jul de 2011

Quando a fé falha

A fé de alguns cristãos faliu, isso mesmo, e não estou me referindo aos dos Estados Unidos ou da Europa, mas a alguns evangélicos do Brasil. A Europa se tornou pós-cristã faz tempo, o continente que conheceu e difundiu a fé evangélica está entregue nas mãos do ocultismo e do ateísmo. Os Estados Unidos já não é mais como era antes, o materialismo sacudiu a nação de tal modo que a prosperidade financeira tornou-se a razão de ser da existência. O sonho dos pioneiros, de construir uma nação com liberdade para cultuar a Deus, reduziu-se ao consumismo desenfreado, produto de um capitalismo degenerador.
O Brasil caminha na mesma direção, ainda que continuemos tendo um número crescente de evangélicos. O problema é que o movimento evangélico brasileiro está se secularizando. Antigamente os evangélicos era minoria, ficavam à margem da sociedade, não eram ouvidos, sequer notados. Mas a realidade se inverteu, ser evangélico, neste país, é algo normal. Há muitos que aderem aos evangélicos, sem compreender a dimensão global e integral do evangelho de Cristo. Testemunhamos uma descaracterização gradual da fé, especialmente quando essa deixa de surtir o efeito que lhe é próprio.
Essa verdade é constatável nas palavras do Senhor Jesus, quando indagou aos Seus discípulos: porventura encontrará fé na terra quando retornar o Filho do Homem? Jesus adiantou que pela falta de amor a fé de muitos viria a esfriar. Um destaque para essa relação: a ausência de amor é proporcional ao declínio da fé. Alguns cristãos evangélicos não amam a Deus, muito menos ao próximo, apenas a eles mesmos. A fé, como bem a define o autor da Epístola aos Hebreus, é o firme fundamento das coisas que se esperam, mas que se não vêem. Essa é uma definição prática da fé cristã, isso quer dizer que crer traz implicações.
A falência da fé de alguns evangélicos é justamente essa, aqueles que a assumem não vivem em conformidade com os princípios cristãos. Não me refiro apenas aos aspectos morais, considerando que temas como novo nascimento e nova criatura saíram da pauta de muitas pregações (onde ainda há pregação e ensino). Há outras dimensões da fé cristã que estão sendo desconsideradas, práticas que são assumidas como normais, mas que nada têm de verdade bíblica. A ânsia descomunal pelo ter em detrimento do ser é a principal delas. Alguns evangélicos não se conformam a um estilo de vida simples, abraçam o consumismo com se vida estivesse escorrendo pelos dedos. A prosperidade financeira acaba justificando os meios.
A ética do “jeitinho brasileiro” incorporou-se a pauta de alguns evangélicos, atitudes reprováveis se naturalizaram, a benção tornou-se o fim último, o Abençoador pouco interessa. Testemunhamos uma total imanência da fé, isto é, atitudes que se coadunam muito mais com a expressão paulina de reprovação aos cristãos de Corinto: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. E é justamente nesse particular que a fé entra em falência. Alguns evangélicos não conseguem mais lidar com a perda e a morte, essas se tornaram motivos de pavor. Tomados pelo materialismo, muitos evangélicos vivem ansiosos, na expectativa do que acumularão para os anos seguintes. A autoconfiança, ao invés da expectativa em Deus, passou a ser o trunfo.
Como não há mais certezas, a esperança também desaba, o amor sacrificial torna-se algo utópico. A morte, que outrora era acatada como um portal para a eternidade, é motivo de pânico. Alguns evangélicos têm pavor da morte, quando a doença terminal chega, eles entram em colapso, muitos até chegam a dizer que determinado irmão ou irmã perdeu a luta contra a doença. Paulo, em sua Epístola aos Romanos, diz que nada, absolutamente, nada nos separará do amor de Cristo, nem mesmo a morte. Jesus ensinou aos seus discípulos a não temerem a morte, paradoxalmente, essa, vencida no sacrifício do calvário, ainda causa calafrios em muitos evangélicos.
A falência da fé de alguns não está apenas não ausência da fé bíblica, na disposição incondicional para acreditar, independentemente das circunstâncias. Mas na esperança, aqueles que vivem apenas na dimensão horizontal, mesmo dizendo que acreditam, não conseguem olhar para o amanhã a partir da convicção de Cristo, o Senhor da história. Como os crentes de Tessalônica, ficam atemorizados quando a morte se torne iminente. Mas a pior consequência da falência da fé é a ausência de amor, isso porque quando perdemos a fé, a esperança fica restrita ao tempo presente, centramos a atenção no ego, perdemos a capacidade de olhar para o outro. Por isso, como destaca Paulo, Permanece a fé, a esperança e o amor, mais o maior desses é o amor.