30 de jun de 2011

A loucura do evangelho

Evangelho é boa nova, notícia alvissareira, novidade que alegra. Essa é a definição simplificada do termo grego euangelion, infelizmente transformado em religiosidade, liturgia normatizada, páginas amareladas de um livro. O sentido bíblico do evangelho é totalmente contrário ao que postulam céticos e crentes do nosso tempo. Ouvir o evangelho, para os escritores neotestamentários, significava ser tocado pela mais impactante mensagem de todos os tempos, cujo pressuposto maior era a encarnação de um Deus gracioso que se fez gente, que surpreendentemente resolveu fazer morada no meio de nós.
Por esse motivo, o evangelho desse Deus, reconhecido por todos nós como Cristo, é uma inversão da lógica humana, ele instaura uma logia, ao invés de uma lógica, que, em Jo. 1.1, é a logia tou Theou, ou seja, não um axioma, mas uma Palavra, um Discurso que provem de Deus, não apenas em letras e acentos, mas em Carne, a Palavra que se fez Carne. Por causa dessa realidade, a razão humana é suspensa, ela é incapaz de assimilar essa verdade, a não ser por meio da graça, de um ato de fé que se dispõe a aceitar o inaceitável para a lógica humana: não seria um ato de desatino Deus ter se tornado Carne?
Isso mesmo, no ato de se fazer humano, Deus tomou uma atitude de loucura, Ele decidiu participar da condição humana. Há muitos que não acreditam nessa Palavra, porque, de fato, do ponto de vista meramente racional, ela é totalmente fora de lógica. Paulo quis explicar essa realidade aos gregos, mas eles não a entenderam, fizeram questão de fugir dessa logia. Para eles, esse pensamento era totalmente absurdo, e mais escandaloso ainda seria acreditar que esse Deus-Homem teria levado esse desatino às últimas conseqüências, aceitando morrer em uma cruz pelos pecados da humanidade. A rejeição dos gregos levou o Apóstolo Paulo a reconhecer a loucura do evangelho de Cristo, e a aceitar tal condição como uma disposição existencial.
A loucura do evangelho de Cristo, e a própria atitude fora de lógica de Deus, traz implicações para todos aqueles que assumem essa Verdade, não como uma racionalização, mas como um ato de fé. Por causa da loucura do evangelho, todos aqueles que abraçam a mensagem da cruz, são convidados a viverem a partir dessa logia. Mas essa não é uma loucura qualquer, como aquela do homem repreendido por Jesus que depositou seu coração nas riquezas, mas uma de outra natureza, voltada para uma dimensão que a sociedade, em sua lógica, não pode compreender. A loucura do evangelho conduz o ser humano a tomar atitudes consideradas sem sentido pelo pensamento humano normal.
Essa loucura se manifesta de diversas formas, uma delas pelo desapego às coisas materiais. O evangelho de Cristo nos instrui a entesourar no céu, a não colocar as riquezas terrenas em primeiro plano, a desindeusar o ídolo a quem todos chamam hoje de Mercado. Viver a partir dessa logia causa espanto para o mundo capitalista, tão moldado pelos interesses monetários, incapaz de doar a quem quer que seja, já que se sustenta no raciocínio e na segurança do ter. Aqueles que enlouqueceram pelo evangelho de Jesus não têm medo de perder, na verdade, eles sabem que se doar é a única forma de romper com um sistema ingrato de trocas, insensível às necessidades dos pobres e necessitados.
A loucura do evangelho pode ser levada ao extremo, e essa se concretiza no exemplo dado pelo Seu maior expoente, o próprio Jesus, que, pregado na dura cruz, se volta para os seus algozes e os perdoa. Dostoievski, com sua maestria literária, representou como poucos a loucura de Cristo e do Seu evangelho em dois romances: O Idiota e em Os Irmãos Karamazov. No primeiro, o príncipe Mikichin é alguém que destoa da lógica social da sua época, no segundo, o Inquisidor perde as forças diante do amor daquele a quem pretende torturar. O evangelho é loucura, é uma pena que muitos tentem racionalizá-los, talvez, esse seja um escape, uma fuga ao convite desconcertante que o Príncipe faz: vinde após mim. Seguir os passos de um Louco, no contexto da racionalidade, é, não poucas vezes, vergonhoso, mesmo assim, permanece o desafiante convite do Senhor para todos os que quiserem abraçar essa sábia loucura divina.