25 de abr de 2011

40 anos de idade, que diferença isso faz.

Neste último mês de abril completei 40 anos, esperei bastante até chegar aqui. Incomodova-me uma declaração de Nelson Rodrigues, a de que nenhum homem pode se considerar maduro até chegar aos 40. Consegui realizar uma série de feitos antes dos 40: faculdade, casamento, filhos, pós-graduação, somente para citar alguns. Mas me perturbava essa declaração nelsiana. Antes mesmo de chegar aos 40, percebi que o escritor tinha alguma razão em sua afirmação. Um balanço desses últimos anos possibilita admitir, ainda que parcialmente, a veracidade da declaração desse autor.
Reconheço a existência de certo grau de subjetividade em todo processo de maturidade. No entanto, chegar aos 40 me possibilitou algumas reflexões, as quais, obviamente, não poderiam ter ocorrido aos 20 ou 30 anos de idade. Quando tinha 20, estava tomado pelo espírito da modernidade. Defendia que tudo poderia ser explicado, inclusive as verdades teológicas. Como naquele período conclui o curso de graduação, entrei no magistério, comecei a fazer pesquisas e envolvi-me com a pós-graduação, uma percepção cientificizada do mundo acabou sendo inevitável. A máxima naquele período era: “creio porque posso explicar”. Atraia-me todo tipo de apologética, as posições eram contundentes, as defesas irrefutáveis. Aos 40 vejo que esse sistema é falseável, identifico suas lacunas.
Aos 30, muita coisa já havia mudado, algumas verdades foram desconstruídas. Comecei a abandonar a leitura fundamentalista literalista das Escrituras. A própria sistematização bíblica deixou de me empolgar. A interpretação dos textos começou a fazer mais sentido. As pesquisas quantitativas, que nunca me agradaram, também foram descartadas, passei a dar preferência às análises qualitativas. A influência da filosofia analítica favoreceu uma percepção diferenciada da vida, principalmente em relação à linguagem. O ensino-aprendizagem de línguas também sofreu rupturas, deixei de buscar a língua ideal, a dos anjos e me conformei com a ordinariedade dos signos, e por sua vez, com a incompletude da linguagem humana.
Na literatura, encontrei amigos que me farão companhia ao longo dos anos seguintes, entre eles, Tolstoi e Dostoievski, meu braço direito e esquerdo da literatura. Mais de cinco anos lendo as obras desses autores fizerem-me aceitar dialeticamente algumas condições existenciais opostas. Não desprezo a hermenêutica bíblica, principalmente a pós-estruturalista, mas foram esses autores russos cristãos que me deram fundamentos para aprender a ler a Escritura, na verdade a ler o próprio mundo. Eles, e alguns outros autores, ajudaram-me a desconstruir alguns pressupostos ocidentais que nada têm a ver com o cristianismo. Destaco o capitalismo do cristianismo ocidental, principalmente o que veio da América do Norte, com sua teologia da ganância.
Mesmo antes dos 40, tomei várias decisões que as julgo fundamentais. Deixei de ler a principal revista de circulação semanal do Brasil, enviei uma carta pedindo para que os editores não mais a enviassem ao meu endereço, nem mesmo gratuitamente. A rede de televisão mais assistida desse país praticamente deixou de fazer parte dos botões do meu controle remoto. E como o tempo passa velozmente, tornei-me extremamente seletivo nas leituras que faço, nos filmes que vejo e nas músicas que ouço. Somente leio, escuto e vejo o que realmente acredito que contribua para meu amadurecimento mental e espiritual. A essas alturas não posso mais me dar ao luxo, como fazia aos 20 anos e início dos 30, de ler, ver e ouvir qualquer coisa que me caia às mãos.
Estou concluindo a leitura dos clássicos da literatura ocidental, tenho lido o Novo Testamento com muita intensidade, na Lingüística, tenho fundamentado meus estudos na pesquisa social, atentando para as relações de poder, materializadas na língua. No limiar desses 40 anos, faz todo sentido parafrasear meu velho amigo Paulo, que, contrariando Nelson Rodrigues, declara, em relação à maturidade, não havê-la alcançado. Por isso, prossigo em direção ao alvo, ao prêmio da soberana vocação que está em Cristo Jesus. Reconheço que há um longo caminho a ser percorrido, e seguindo os passos de Robert Frost, espero continuar naquele menos trilhado, isso certamente fará toda a diferença.