20 de fev de 2011

A esperança no Reino de Cristo

Não é fácil encontrar esperança em um mundo pós-cristão. As ideologias anticristãs mataram todo senso de expectação em relação ao futuro. Com a morte do sagrado, sepultamos as expectativas por um mundo melhor. O ser humano, reduzido a um amontoado de células, não sabe mais para onde caminha. Essa realidade pode ser constatada nas tendências culturais do tempo presente, comumente denominada de pós-modernidade. Essa perspectiva esteticamente elaborada no existencialismo cinematográfico de Woody Allen e na literatura filosófica de Camus e Sartre, que retratam com maestria a condição humana contemporânea.
O materialismo extremado, legado de pensadores marxistas, transformou a esperança em uma utopia para o presente. “Se Deus não existe”, então, “precisamos tomar as rédeas da história”. Paradoxalmente, a ânsia por reconstruir a narrativa humana a partir de si mesmo não passa de uma projeção da modernidade. As guerras, os desastres naturais, a exploração dos mais fracos, entre outros problemas sociais é um sintoma de que não é possível mudar a história simplesmente pelo processo de conscientização. O ser humano é muito mais do que razão, como destacou Paulo, e posteriormente, Freud, ele é também desejo.
Mas o que esperar do ser humano que não consegue encontrar uma saída desse complexo labirinto existencial? A impressão que se tem é que esse está fadado ao Mito de Sísifo, a repetição rotineira de práticas destituídas de sentido. Diante de tal condição, as palavras do Eclesiastes soam como auto-ajuda ao contrário: “vaidade de vaidades, tudo é vaidade, é correr atrás do vento”. Se a solidão é uma realidade, não há um Deus para prestar contas, se a ética se reduz aos contratos sociais, aplica-se a dedução irônica de Paulo: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Ou, conforme destacou Dostoievski, na voz de um dos seus célebres personagens em Os irmãos Karamazov, “se Deus não existe, tudo é permitido”.
O temor pelo sagrado se liquefez, por esse motivo, Deus deixou de fazer sentido. A partir desse ponto de vista, Nietzsche está correto, pois Deus não passa de uma idéia ultrapassada. Não que Ele tenha morrido, pois o Eterno está para além do tempo, foram os seres humanos O mataram dentro deles mesmos. O relacionamento das pessoas nas ruas, os programas que passam na televisão, as produções literárias e jornalísticas partem sempre do pressuposto de que não há Deus, ou, se Ele existe, o melhor é viver como se não existisse. Para a maioria das pessoas será melhor assim, afinal, se não existe Deus, também não haverá a quem prestar contas. Mas, por outro lado, essa negação do Outro resulta na objetificação do outro, na redução ao nada, em angústia.
Diante dessa realidade, o cristão lança-se sobre o paradoxo e decide viver no contexto da esperança. Ele sabe que Deus existe, por isso, conforme declara o Apóstolo, “espera contra todo desespero”. A história, para a fé cristã, não está concluída, ela tem seu ápice em Cristo. E por causa da Sua morte e ressurreição, entramos em um processo de reversão do desespero, comparado àquele elaborado por C. S. Lewis, em O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa. O Reino de Deus já está no meio de nós, e, conforme destacou esse escritor britânico, temos a missão de “sabotar” o império que governa esse mundo tenebroso. Nesse sentido, nos avizinhamos de alguns posicionamentos marxistas, estamos sonhando e lutando por “um novo mundo”.
Essa nova realidade já começou, e não precisa ser postergada para o futuro, o reino de Deus já está entre nós. Por esse motivo, o cristão vive na tensão entre o “já” e o “ainda não”, ele sabe que haverá um futuro no qual a morte será tragada na vitória, em que o que é corruptível se revestirá da incorruptibilidade e em que os mortos ressuscitarão. Ao mesmo tempo, enquanto esse tempo não chega, ele investe em mudanças nessa realidade a partir da dimensão do Reino de Cristo, a respeito do qual Ele ensinou em diversas situações, mas que se encontra especificamente detalhada nos Sermão do Monte. O reino de Deus está fundamentado na ética, na graça e no amor, não na meritocracia, mas no perdão e na misericórdia.
A dimensão ética desse reino nos conclama à esperança, não apenas por um mundo porvir, no qual estaremos na eternidade, no céu com Cristo, mas a “fazer a diferença” aqui e agora, no tempo presente. A esperança cristã nos impulsiona para viver o amor e o perdão de Cristo, a não tratar na “mesma moeda”, a ter a coragem de “oferecer a outra face”, a viver em santidade, buscando a pureza de coração; a ser uma voz em prol dos injustiçados. Os súditos do reino, como aconteceu com Cristo, o Senhor, padecerão perseguição, mas aqueles que não se dobrarem perante a lógica do desespero, serão “bem-aventurados”. E por fim, quando o “ainda não” se transformar em “já”, esses serão recebidos pelo Rei, e conhecerão a verdadeira recompensa.