18 de dez de 2011

O céu é real

Livros que falam a respeito do céu estão na moda, por curiosidade, e também para edificação espiritual, resolvi ler os últimos lançamentos na categoria testemunho que abordam supostas visitas de pessoas ao paraíso. O primeiro deles 90 minutos no céu é a história do sobrevivente Don Piper, que narra sua ida ao céu após um grave acidente automobilístico. Recentemente, outro livro com essa temática entrou na lista dos best sellers do New York Times, trata-se de O céu é de verdade, escrito por Todd Burpo, com a cooperação de Lynn Vincent. Neste Burpo registra as dores que passou quando seu filho enfrentou complicações com abcessos resultantes de apendicite.
No lastro desse livro, outro acabou de ser traduzido e lançado em português pela CPAD. O Menino que voltou do céu, da autoria de Alex Malarkey (o filho) e Kevin Malarkey (o pai) descreve as lutas que ambos enfrentaram após um acidente automobilístico que levaram Alex a passar dois meses em coma. Ao sair do coma, a criança, que na época tinha apenas seis anos, conta suas experiências no céu. Os três livros surgem no contexto de uma era marcada, ao mesmo tempo, pelo surgimento do neoateísmo, de um lado, e da expansão da fé, mas supre, principalmente, a necessidade do ser humano de saber o que acontece do outro lado, depois da morte.
A leitura desses livros, de certo modo, me ajuda a continuar acreditando que o céu é de verdade. Mas, sinceramente, tentei manter certo ceticismo na medida em que acompanhava o relato dos autores. Acredito que são sinceros em suas narrativas, que não têm a pretensão de ludibriar os leitores. Mesmo assim, não sei se posso confiar cegamente nas experiências por eles escritas. Como filho da Reforma Protestante, que privilegia a autoridade bíblica, e do cientificismo, que se fundamenta na razão, mantive certa suspeição enquanto lia suas declarações sobre a visão de anjos, parentes, e do próprio Cristo no céu.
Essa ânsia por saber a respeito do céu é antiga, o ser humano sempre teve o desejo de saber o que acontece após a morte. E, sinceramente, a Bíblia tem pouco a nos dizer a esse respeito, existem poucas passagens que abordam esse tema. Mesmo assim, podemos saber, pela Palavra de Deus, que o céu é real, ainda que não possamos detalhar como será. Sabemos, pelo que revela Paulo aos Filipenses, que partir é estar com Cristo e é muito melhor (Fp. 1.23) e que sua preferência é estar ausente do corpo e habitar com o Senhor (II Co. 5.8). João, ao escrever o Apocalipse, declara que os que morrem no Senhor descansam das suas fadigas, e que suas obras seguirão (Ap. 14.11).
Em relação ao céu, somente podemos ter esperança, exercitada por meio da fé, convicção, tal como a de Paulo, ciente que quando a habitação terrena for destruída, teremos, da parte de Deus, um edifício, uma casa eterna nos céus, não construída por mãos humanas (II Co. 5.1). Por isso, diante das tribulações existenciais, ele afirmava estar pressionado dos dois lados, com desejo de partir e estar com Cristo, optando permanecer no corpo, por causa do evangelho, e da necessidade dos seus filhos espirituais (Fp. 1.24). Quando se encontrava preso, em Roma, no período de Nero, antecipando o dia da sua execução, declarou: eu já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está próximo o tempo da minha partida (II Tm. 4.6).
Essa é a bendita esperança do cristão, primeiramente a volta iminente de Jesus, para arrebatar a sua igreja (I Ts. 4.13-17). Não temos motivos para desespero, pois, conforme assegura o autor da Epístola aos Hebreus, temos esta esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar (Hb. 6.19,20). Na verdade, o fundamento dessa esperança é Cristo, já que Ele mesmo afirmou ter muitas moradas na casa do Pai, e o desejo de que estejamos com Ele para sempre (Jo. 14.2,3). Temos, como diz Paulo, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor (II Co. 5.8).
Quando chegarmos ao céu, nossa percepção será aguçada, e, deferentemente dos dias atuais, conheceremos plenamente (I Co. 13.12), e o mais importante, os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada (Rm. 8.18), ali o Senhor enxugará dos nossos olhos toda lágrima (Ap. 7.17; 21.4). Após a morte física, seguiremos para o céu, e ali estaremos em estado de consciência, mas não completos, pois aguardaremos a manifestação de Cristo, a fim de nos tornarmos semelhantes a ele, em glorificação (I Jo. 3.2; I Co. 15.42-44).
A existência terrena está repleta de “ses”, Marta e Maria, irmãs de Lázaro, lamentaram a ausência de Jesus e a associaram à morte de Lázaro. Elas prantearam, como o fazem as pessoas todos os dias, quando perdem um dos seus entes queridos. A morte, biblicamente falando, ainda é uma inimiga (I Co. 15.55), mas aqueles que recebem a Cristo como Salvador têm, dEle, a garantia de que foram libertos do poder e do medo da morte (Hb. 2.14,15). Diante da angústia e desespero de Marta e Maria, Jesus afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente".
O testemunho de Don Piper, Colton Burpo e Alex Malarkey são dignos de respeito, mas o de Jesus é de verdade, porque Ele é a Verdade, por causa dEle, cremos que o céu é real. 

23 de out de 2011

Sabedoria no sofrimento

Enquanto redijo esta crônica, diante da tela fria do computador, Sofia está no leito de um hospital. Há mais de cinco dias a princesianha não sai do soro, e de vez quando, precisa tomar uma injeção. A avaliação preliminar é de uma dessas bactérias que se alastram cada vez com maior intensidade, fazendo as crianças reféns, em virtude das defesas limitadas do organismo. A impaciência de Sofia é constante, entre um soro e outro ela se inquieta, e, de vez em quando, pergunta quando retornará para casa, isso porque as crises de vômito persistem. Não é fácil responder às situações adversas semelhantes a essa, as limitações impostas pela existência nos põem no devido lugar, o da espera que tudo passe.
Algumas vezes, a pequena, que ainda não completou oito anos, se ajoelha e ora. Pede a Deus para que Ele a livre daquela situação, que a cure imediatamente. Mas isso não acontece com a rapidez desejada. A melhora é paulatina, e isso incomoda bastante, confunde sua cabecinha ainda em formação. Diante de tal quadro, pedi em determinado momento que ela tivesse um pouco mais de paciência, e acrescentei que Deus a curaria. Sofia respondeu, em tom de desespero, que Ele não poderia fazê-lo, já que ela havia orado, e mesmo assim não havia obtido uma resposta favorável. A princípio, fiquei desconcertado com a resposta da menina, mas compreendi sua lógica.
Tal resposta me levou a refletir sobre a situação de várias outras pessoas que sofrem neste momento. Elas certamente devem fazer a mesma indagação: por que Deus não cura se Ele pode? Essa problemática já conduziu muitas pessoas ao ateísmo. Basta citar o famoso argumento: "Se Deus pode e não cura é porque  não é bom e se é bom e não cura é porque não pode". Alguns teólogos modernos, com base nesse raciocínio admitem que Deus esteja limitado, e que, de fato, está incapacitado para agir em prol do sofrimento humano. Essa temática sempre alimentou as discussões filosóficas. Pensadores de todos os tempos se envolveram nessa discussão desde Agostinho, até, mais recentemente, C. S. Lewis. Mas nenhum dos gigantes da fé trouxe uma resposta satisfatória a esse respeito.
Eu também, como um anão na fé, não sei por que razão Deus permite o sofrimento. O livro poético de Jó discorre magistralmente sobre o assunto. O patriarca hebreu perdeu parte da família, e posteriormente a própria saúde. Sua esposa, a fim de atenuar sua dor, recomendou que ele amaldiçoasse ao seu Deus e morresse. Jó a repreendeu, e ao contrário do que se esperava, depositou sua confiança em Deus, mesmo em meio a dor. É bem verdade que ele questionou o porquê de tanto sofrimento, desejou ficar frente a frente com Deus para colocar suas queixas. Mas quando o Senhor lhe apareceu, no meio de um redemoinho, não deu uma resposta sequer as mais de setenta feitas pelo patriarca.
A lição que Jó tirou do sofrimento foi a de que Deus é soberano, e que seus atos estão para além da nossa compreensão. O que acontecia por detrás da cortina não era sabido pelo piedoso servo do Senhor. Ao retornar às indagações de Sofia, reflito: talvez ela seja pequena demais para entender os desígnios de Deus. A fé dela ainda é, literalmente, infantil, está baseada no controle a fim de satisfazer seus interesses. Como Sofia, milhares de cristãos gostariam que Deus fizesse o que desejam. Mas se assim acontecesse, Deus não seria Deus, o Soberano, o Criador do Céu e da Terra. Como Jó, diante dos seus santos e eternos desígnios, podemos apenas exercitar a fé.
Oro para que Deus cure a pequena Sofia, para que logo ela esteja de volta ao lar. Sinto falta das suas travessuras, da esperteza que de vez em quando me espanta. Mas rogo também ao Eterno para que lhe dê mais sabedoria. Que Deus lhe dê uma confiança inabalável, que vá além de todo entendimento. Uma fé madura seja capaz de suportar as intempéries circunstanciais, seja nos momentos de fartura ou adversidade. O Deus revelado na Escritura tudo pode fazer, suas forças não estão limitadas, mas Ele, por razões que não podemos explicar, não faz tudo o que desejamos. Existem propósitos mais amplos que não conseguimos acompanhar, especialmente quando focamos a horizontalidade.
Sabemos que o sofrimento é constitutivo da existência humana. Todos sofrem, uns mais, outros menos, cada um sabe onde e o quanto padece. Gostaríamos, mas não podemos apresentar respostas prontas para a dor. Por isso, posso apenas ficar ao lado da cama hospitalar, dar massagens nos pés inquietos, dar atenção, e quando permitido, um beijo e um abraço. Consola saber que pelo menos Deus sabe o que é sofrer, na cruz do calvário Jesus experimentou as formas mais intensas de dor, até mesmo a sensação de ser abandonado pelo Pai. Por isso, Ele se compadece de cada um de nós, e cremos, ao Seu tempo, conforme aconteceu com Jó, compreenderemos Seus propósitos. 
Sofia ainda não entende por qual motivo suas orações não são respondidas, por isso fica ansiosa e demonstra desconfiança em Deus. Como um Pai que já caminhou algumas milhas adiante, e tenta aceitar os mistérios de Deus, espero que minha menina cresça e desenvolva uma fé madura, que não se abale com as adversidades. Rogo a Deus para que ala aprenda a amá-LO, e mais que isso, que seja capaz de confiar nEle, ainda que não obtenha resposta favorável às suas orações. Mais importante do que receber o que desejamos de Deus é sabem que Ele, em todos os momentos, se mantem no controle da nossa existência e que a Sua graça nos é suficiente. Jó queria que sua história fosse registrada, hoje ela está na Bíblia. Por causa disso, sabemos que fazemos parte de uma narrativa maior, cujo desfecho será revelado na eternidade.


31 de ago de 2011

Stott, um amigo

John Stott, o célebre teólogo britânico falecido em julho último, aos 90 anos de idade, foi um grande amigo. Explico, não que ele tenha me conhecido, sinceramente, tenho certeza que nunca ouviu falar a meu respeito. Mesmo assim, atrevo-me a chamá-lo de amigo, pois desde os anos inicias de fé, até aos dias atuais, seus escritos têm contribuido significativamente para fundamentar minha percepção de fé cristã. Nos idos dos anos 80, caiu-me às mãos um livro publicado no Brasil, com o título provocador de Cristianismo Equilibrado. Para quem estava se iniciando nas doutrinas cristãs, aquele opúsculo norteou meu pensamento nos anos subseqüentes. Destaco, entre os posicionamentos de Stott que me chamaram a atenção no livro: o equilíbrio entre evangelização e engajamento social e entre emoção e razão.
Desde então, não parei mais de ler Stott, consegui, posteriormente, uma edição de Cristianismo Básico. Compreendi, logo ao concluí-lo, que se tratava de um clássico teológico, um daqueles livros que ultrapassam as limitações temporais. Stott conseguiu, com a maestria de sempre, expor os pressupostos da fé cristã. Anos depois, assim que foi traduzido para o português, tratei de ler Porque sou cristão. Nesse livro o teólogo britânico dialoga com aqueles que negam a possibilidade de acreditar em Deus, na medida em que se inscreve a outros expoentes que se converteram. No lastro de Paulo e Agostinho, Stott assume que a conversão é um ato de coragem, mais que isso, de esperança nAquele que nos chamou a ir após Ele. A teologia de Stott é cristocêntrica, e não se distancia, conforme propõe Paulo, da mensagem da cruz, exposta nas páginas do Novo Testamento.
A esse respeito, Stott escreveu um outro clássico da teologia. Um livro que deva constar na biblioteca de todo pensador cristão. A Cruz de Cristo é um tratado no qual o pastor da All Souls Church aborda a relevância do sacrifício vicário de Jesus, enquanto ponto de partida e chegada na caminhada. Essa é uma mensagem que, segundo ele, não pode ser descartada. Para tanto, em seu livro Eu Creio na Pregação, Stott, como brilhante teólogo que era, faz uma apologia histórica e contextual da importância da pregação para a igreja, bastante propício para a realidade atual entre os evangélicos dos dias de hoje, afeitos ao barulho, e desinteressados na reflexão. Mas a pregação, conforme advoga Stott, pressupõe conhecimento bíblico, por isso, Stott sempre foi um defensor do estudo criterioso do Livro Sagrado, contextualizando-o com a realidade social.
A afeição de Stott pela Bíblia pode ser avaliada pelos seus comentários bíblicos. Tive a oportunidade de ler alguns deles, entre os quais destaco: Atos e Romanos. Seus comentários Sttot se destacam não apenas por demonstram erudição teológica, mas, sobretudo, pela competência que demonstra para aplicar as verdades bíblicas às perspectivas contemporâneas. No seu livro Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, ele demonstra como o cristão pode responder às perguntas da sociedade moderna a partir da cosmovisão bíblica. Os escritos de Stott revelam sintonia com as teorias sociais, por isso, resultando, assim, em relevância para os que podiam fazer o entrelaçamento entre teologia e sociedade. Causou-me expanto, constatar, através dos seus livros, que ele era admirador de Paulo Freire, o pedagogo brasileiro, às vezes desconhecido e pouco celebrado entre nós. Em observância ao mandamento de Jesus, sobre olhar para as andorinhas do céu, Stott desenvolu um profundo conhecimento sobre pássadores, cultivando com denodo a ornitologia.
No momento de sua passagem, os presentes liam a Escritura e ouviam o Messias de Handel. Em um artigo que li logo após sua partida, o autor declarava que se existisse a figura do Papa entre os protestantes, certamente Stott teria sido escolhido. Concordo plenamente com tal afirmação, e penso, e que papa ele teria sido. Um homem que, por ter o dom do celibato, abriu mão do casamento para dedicar-se exclusivamente à igreja de Cristo. Um teólogo que buscou, com todo esmero, traduzir textos eruditos em conhecimentos acessíveis ao povo simples. Um pensador engajado, comprometido com as causas sociais, preocupado com os mais necessitados. Stott é um daqueles que, parafraseando o título do livro de C. S. Lewis, não foi um mero cristão. A chamada de Deus a Jeremias se aplica perfeitamente a dele, não para correr com homens, mas como alguém que compete contra cavalos. Depois que ele se foi, perguntei-me: e agora? A Palavra e o Espírito me responderam: continue sendo imitador dele, como ele era de Cristo. Em sua homenagem, e com esse desafio em vista, fui à estante, peguei seu último livro, o canto do cisne, retirei o plástico e comecei a lê-lo, seu título define o que foi e o que todos os cristãos deveriam ser: Um Discípulo Radical.

31 de jul de 2011

Quando a fé falha

A fé de alguns cristãos faliu, isso mesmo, e não estou me referindo aos dos Estados Unidos ou da Europa, mas a alguns evangélicos do Brasil. A Europa se tornou pós-cristã faz tempo, o continente que conheceu e difundiu a fé evangélica está entregue nas mãos do ocultismo e do ateísmo. Os Estados Unidos já não é mais como era antes, o materialismo sacudiu a nação de tal modo que a prosperidade financeira tornou-se a razão de ser da existência. O sonho dos pioneiros, de construir uma nação com liberdade para cultuar a Deus, reduziu-se ao consumismo desenfreado, produto de um capitalismo degenerador.
O Brasil caminha na mesma direção, ainda que continuemos tendo um número crescente de evangélicos. O problema é que o movimento evangélico brasileiro está se secularizando. Antigamente os evangélicos era minoria, ficavam à margem da sociedade, não eram ouvidos, sequer notados. Mas a realidade se inverteu, ser evangélico, neste país, é algo normal. Há muitos que aderem aos evangélicos, sem compreender a dimensão global e integral do evangelho de Cristo. Testemunhamos uma descaracterização gradual da fé, especialmente quando essa deixa de surtir o efeito que lhe é próprio.
Essa verdade é constatável nas palavras do Senhor Jesus, quando indagou aos Seus discípulos: porventura encontrará fé na terra quando retornar o Filho do Homem? Jesus adiantou que pela falta de amor a fé de muitos viria a esfriar. Um destaque para essa relação: a ausência de amor é proporcional ao declínio da fé. Alguns cristãos evangélicos não amam a Deus, muito menos ao próximo, apenas a eles mesmos. A fé, como bem a define o autor da Epístola aos Hebreus, é o firme fundamento das coisas que se esperam, mas que se não vêem. Essa é uma definição prática da fé cristã, isso quer dizer que crer traz implicações.
A falência da fé de alguns evangélicos é justamente essa, aqueles que a assumem não vivem em conformidade com os princípios cristãos. Não me refiro apenas aos aspectos morais, considerando que temas como novo nascimento e nova criatura saíram da pauta de muitas pregações (onde ainda há pregação e ensino). Há outras dimensões da fé cristã que estão sendo desconsideradas, práticas que são assumidas como normais, mas que nada têm de verdade bíblica. A ânsia descomunal pelo ter em detrimento do ser é a principal delas. Alguns evangélicos não se conformam a um estilo de vida simples, abraçam o consumismo com se vida estivesse escorrendo pelos dedos. A prosperidade financeira acaba justificando os meios.
A ética do “jeitinho brasileiro” incorporou-se a pauta de alguns evangélicos, atitudes reprováveis se naturalizaram, a benção tornou-se o fim último, o Abençoador pouco interessa. Testemunhamos uma total imanência da fé, isto é, atitudes que se coadunam muito mais com a expressão paulina de reprovação aos cristãos de Corinto: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. E é justamente nesse particular que a fé entra em falência. Alguns evangélicos não conseguem mais lidar com a perda e a morte, essas se tornaram motivos de pavor. Tomados pelo materialismo, muitos evangélicos vivem ansiosos, na expectativa do que acumularão para os anos seguintes. A autoconfiança, ao invés da expectativa em Deus, passou a ser o trunfo.
Como não há mais certezas, a esperança também desaba, o amor sacrificial torna-se algo utópico. A morte, que outrora era acatada como um portal para a eternidade, é motivo de pânico. Alguns evangélicos têm pavor da morte, quando a doença terminal chega, eles entram em colapso, muitos até chegam a dizer que determinado irmão ou irmã perdeu a luta contra a doença. Paulo, em sua Epístola aos Romanos, diz que nada, absolutamente, nada nos separará do amor de Cristo, nem mesmo a morte. Jesus ensinou aos seus discípulos a não temerem a morte, paradoxalmente, essa, vencida no sacrifício do calvário, ainda causa calafrios em muitos evangélicos.
A falência da fé de alguns não está apenas não ausência da fé bíblica, na disposição incondicional para acreditar, independentemente das circunstâncias. Mas na esperança, aqueles que vivem apenas na dimensão horizontal, mesmo dizendo que acreditam, não conseguem olhar para o amanhã a partir da convicção de Cristo, o Senhor da história. Como os crentes de Tessalônica, ficam atemorizados quando a morte se torne iminente. Mas a pior consequência da falência da fé é a ausência de amor, isso porque quando perdemos a fé, a esperança fica restrita ao tempo presente, centramos a atenção no ego, perdemos a capacidade de olhar para o outro. Por isso, como destaca Paulo, Permanece a fé, a esperança e o amor, mais o maior desses é o amor.

30 de jun de 2011

A loucura do evangelho

Evangelho é boa nova, notícia alvissareira, novidade que alegra. Essa é a definição simplificada do termo grego euangelion, infelizmente transformado em religiosidade, liturgia normatizada, páginas amareladas de um livro. O sentido bíblico do evangelho é totalmente contrário ao que postulam céticos e crentes do nosso tempo. Ouvir o evangelho, para os escritores neotestamentários, significava ser tocado pela mais impactante mensagem de todos os tempos, cujo pressuposto maior era a encarnação de um Deus gracioso que se fez gente, que surpreendentemente resolveu fazer morada no meio de nós.
Por esse motivo, o evangelho desse Deus, reconhecido por todos nós como Cristo, é uma inversão da lógica humana, ele instaura uma logia, ao invés de uma lógica, que, em Jo. 1.1, é a logia tou Theou, ou seja, não um axioma, mas uma Palavra, um Discurso que provem de Deus, não apenas em letras e acentos, mas em Carne, a Palavra que se fez Carne. Por causa dessa realidade, a razão humana é suspensa, ela é incapaz de assimilar essa verdade, a não ser por meio da graça, de um ato de fé que se dispõe a aceitar o inaceitável para a lógica humana: não seria um ato de desatino Deus ter se tornado Carne?
Isso mesmo, no ato de se fazer humano, Deus tomou uma atitude de loucura, Ele decidiu participar da condição humana. Há muitos que não acreditam nessa Palavra, porque, de fato, do ponto de vista meramente racional, ela é totalmente fora de lógica. Paulo quis explicar essa realidade aos gregos, mas eles não a entenderam, fizeram questão de fugir dessa logia. Para eles, esse pensamento era totalmente absurdo, e mais escandaloso ainda seria acreditar que esse Deus-Homem teria levado esse desatino às últimas conseqüências, aceitando morrer em uma cruz pelos pecados da humanidade. A rejeição dos gregos levou o Apóstolo Paulo a reconhecer a loucura do evangelho de Cristo, e a aceitar tal condição como uma disposição existencial.
A loucura do evangelho de Cristo, e a própria atitude fora de lógica de Deus, traz implicações para todos aqueles que assumem essa Verdade, não como uma racionalização, mas como um ato de fé. Por causa da loucura do evangelho, todos aqueles que abraçam a mensagem da cruz, são convidados a viverem a partir dessa logia. Mas essa não é uma loucura qualquer, como aquela do homem repreendido por Jesus que depositou seu coração nas riquezas, mas uma de outra natureza, voltada para uma dimensão que a sociedade, em sua lógica, não pode compreender. A loucura do evangelho conduz o ser humano a tomar atitudes consideradas sem sentido pelo pensamento humano normal.
Essa loucura se manifesta de diversas formas, uma delas pelo desapego às coisas materiais. O evangelho de Cristo nos instrui a entesourar no céu, a não colocar as riquezas terrenas em primeiro plano, a desindeusar o ídolo a quem todos chamam hoje de Mercado. Viver a partir dessa logia causa espanto para o mundo capitalista, tão moldado pelos interesses monetários, incapaz de doar a quem quer que seja, já que se sustenta no raciocínio e na segurança do ter. Aqueles que enlouqueceram pelo evangelho de Jesus não têm medo de perder, na verdade, eles sabem que se doar é a única forma de romper com um sistema ingrato de trocas, insensível às necessidades dos pobres e necessitados.
A loucura do evangelho pode ser levada ao extremo, e essa se concretiza no exemplo dado pelo Seu maior expoente, o próprio Jesus, que, pregado na dura cruz, se volta para os seus algozes e os perdoa. Dostoievski, com sua maestria literária, representou como poucos a loucura de Cristo e do Seu evangelho em dois romances: O Idiota e em Os Irmãos Karamazov. No primeiro, o príncipe Mikichin é alguém que destoa da lógica social da sua época, no segundo, o Inquisidor perde as forças diante do amor daquele a quem pretende torturar. O evangelho é loucura, é uma pena que muitos tentem racionalizá-los, talvez, esse seja um escape, uma fuga ao convite desconcertante que o Príncipe faz: vinde após mim. Seguir os passos de um Louco, no contexto da racionalidade, é, não poucas vezes, vergonhoso, mesmo assim, permanece o desafiante convite do Senhor para todos os que quiserem abraçar essa sábia loucura divina.

29 de mai de 2011

A Gramática da Vida

Ensinaram-me que a gramática era apenas uma, um conjunto de normas que deveriam ser rigorosamente obedecidas. Por muito tempo acreditei que conseguiria dominar a língua se fosse capaz de fazer todas as concordâncias e de usar corretamente todos os acentos graves. Os anos se passaram, e, ao chegar à universidade, (des)aprendi uma série de coisas. Dentre elas, a de que as gramáticas são várias, e que existem outras além da normativa. Esta apenas diz o que devo dizer, a descritiva diz o que eu digo, e explicativa, o que sou capaz de dizer, e a funcional, aquilo que digo de acordo com o contexto social.
De vez em quando aparecem na mídia discussões sobre o que é certo ou errado falar ou escrever. Detalhe, ninguém escuta os lingüistas (quando vou me livrar desse trema), preferem os gramáticos. Quando isso acontece, pergunto-me: por que será que as pessoas gostam tanto de regras? Por que elas exercem tanto fascínio sobre a sociedade? Os gramáticos são os oráculos da língua, eles determinam o que podem ou não ser dito ou escrito. Os compêndios de gramática normativa são sacralizados como revelação transcendente que controla e regulamenta o dizer. As outras gramáticas são marginalizadas, devam ser mantidas fora dos muros dos padrões legitimados pela sociedade “culta”.
As diferenças nos falares das pessoas não são concebidas dentro da esfera normativa. É proibido dizer “pru mode”, “da donde” “sumana”, “cadê”, entre outras expressões interditadas pela norma. Essas expressões, no entanto, fazem parte dos dizeres das pessoas que nos cercam, meu avô octogenário, as profere, e, ao ouvi-las, vibro, parecem música suave aos meus ouvidos, aprendi a amar o bom velhinho, independetemente do que ele diga, e por respeitá-lo na sua forma de falar. Afinal, diferentemente de muitas pessoas dos dias atuais, ele nunca teve a oportunidade de freqüentar uma escola. A gramática do meu avô não se circunscreve às regras normatizadas pela gramática dos gramáticos, são expressões da sua própria vida, da sua condição existencial.
Por muito tempo, deixei-me conduzir pelas normas da gramática, não nego que elas estão dentro de mim, internalizaram-na em minhas entranhas. Mesmo assim, resolvi ir além delas, para tanto, resolvi desvencilhar-me dos paradigmas da sentença, dar vida às palavras, voar nas asas das metáforas. Essa não é uma tarefa fácil, escrever é um desafio, e também, de exposição. Lutero, o sábio reformador, costumava dizer que quando Deus quer humilhar alguém o chama para ser escritor. Por isso, assumindo essa condição, escrevo, às vezes, escuto a gramática normativa que inculcaram dentro de mim, mas, na maioria das vezes, ouço as minhas próprias regras, a regência da alma, as concordâncias da vida, as crases do amor.
Respeito os que estudam a gramática normativa, recomendo aos meus alunos que a dominem, pois dela precisarão para as intrevistas, avaliações escolares ou qualquer outra exigência institucional. Mas aos que querem ser criativos, sugiro que não se deixem encaixotar pelas regras do sistema. Quando leio os evangelhos em grego, deparo-me constantemente com os diálogos de Jesus com os doutores da lei. Em grego eles são chamados de grammateus, e não se conformavam com a interpretação que o Mestre fazia da Torah. Isso porque Cristo, a Palavra por Excelência, não atentava para a letra, mas para o espírito da lei. Tempos depois Paulo, o Apóstolo dos gentios, escreveria: a letra mata, mas o espírito vivifica.
Diante dessa dialética indômita, na tentativa de conciliar forma e conteúdo, a gramática da letra e o sentido da vida, caminho no fio da navalha, buscando equilíbrio, mas tendo sempre em mente que o mero domínio das normas gramaticais não garante a competência para produzir textos. Por isso, escrevo, sigo a regência da Vida, as concordâncias do Amor, a sintaxe da Esperança. Ao invés de deixar-me engaiolar por regras e mais regras que restringem a criatividade, faço como Jesus, reinterpreto as normas, aplico-as à existência, pois muito mais importante que saber as regras isoladas da língua, é ser capaz de tecer as linhas das palavras, é fazer a alquimia das frases, é transformar os textos em alimentos. Quando criticaram Rubem Alves por não saber escrever (paradoxalmente esse é um dos mais profícuos escritores brasileiros), o erudito psicanalista e teólogo respondeu em um texto, afirmando que preferia as palavras vivas às mortas. Recomendo essa crônica, bastante superior a essas minhas parcas linhas, cujo título provocativo e irônico é: Sobre Dicionários e Necrotérios. Para concluir, uma pérola do mestre Patativa do Assaré: "é melhor escrever a coisa certa errado do que escrever certo a coisa errada".

25 de abr de 2011

40 anos de idade, que diferença isso faz.

Neste último mês de abril completei 40 anos, esperei bastante até chegar aqui. Incomodova-me uma declaração de Nelson Rodrigues, a de que nenhum homem pode se considerar maduro até chegar aos 40. Consegui realizar uma série de feitos antes dos 40: faculdade, casamento, filhos, pós-graduação, somente para citar alguns. Mas me perturbava essa declaração nelsiana. Antes mesmo de chegar aos 40, percebi que o escritor tinha alguma razão em sua afirmação. Um balanço desses últimos anos possibilita admitir, ainda que parcialmente, a veracidade da declaração desse autor.
Reconheço a existência de certo grau de subjetividade em todo processo de maturidade. No entanto, chegar aos 40 me possibilitou algumas reflexões, as quais, obviamente, não poderiam ter ocorrido aos 20 ou 30 anos de idade. Quando tinha 20, estava tomado pelo espírito da modernidade. Defendia que tudo poderia ser explicado, inclusive as verdades teológicas. Como naquele período conclui o curso de graduação, entrei no magistério, comecei a fazer pesquisas e envolvi-me com a pós-graduação, uma percepção cientificizada do mundo acabou sendo inevitável. A máxima naquele período era: “creio porque posso explicar”. Atraia-me todo tipo de apologética, as posições eram contundentes, as defesas irrefutáveis. Aos 40 vejo que esse sistema é falseável, identifico suas lacunas.
Aos 30, muita coisa já havia mudado, algumas verdades foram desconstruídas. Comecei a abandonar a leitura fundamentalista literalista das Escrituras. A própria sistematização bíblica deixou de me empolgar. A interpretação dos textos começou a fazer mais sentido. As pesquisas quantitativas, que nunca me agradaram, também foram descartadas, passei a dar preferência às análises qualitativas. A influência da filosofia analítica favoreceu uma percepção diferenciada da vida, principalmente em relação à linguagem. O ensino-aprendizagem de línguas também sofreu rupturas, deixei de buscar a língua ideal, a dos anjos e me conformei com a ordinariedade dos signos, e por sua vez, com a incompletude da linguagem humana.
Na literatura, encontrei amigos que me farão companhia ao longo dos anos seguintes, entre eles, Tolstoi e Dostoievski, meu braço direito e esquerdo da literatura. Mais de cinco anos lendo as obras desses autores fizerem-me aceitar dialeticamente algumas condições existenciais opostas. Não desprezo a hermenêutica bíblica, principalmente a pós-estruturalista, mas foram esses autores russos cristãos que me deram fundamentos para aprender a ler a Escritura, na verdade a ler o próprio mundo. Eles, e alguns outros autores, ajudaram-me a desconstruir alguns pressupostos ocidentais que nada têm a ver com o cristianismo. Destaco o capitalismo do cristianismo ocidental, principalmente o que veio da América do Norte, com sua teologia da ganância.
Mesmo antes dos 40, tomei várias decisões que as julgo fundamentais. Deixei de ler a principal revista de circulação semanal do Brasil, enviei uma carta pedindo para que os editores não mais a enviassem ao meu endereço, nem mesmo gratuitamente. A rede de televisão mais assistida desse país praticamente deixou de fazer parte dos botões do meu controle remoto. E como o tempo passa velozmente, tornei-me extremamente seletivo nas leituras que faço, nos filmes que vejo e nas músicas que ouço. Somente leio, escuto e vejo o que realmente acredito que contribua para meu amadurecimento mental e espiritual. A essas alturas não posso mais me dar ao luxo, como fazia aos 20 anos e início dos 30, de ler, ver e ouvir qualquer coisa que me caia às mãos.
Estou concluindo a leitura dos clássicos da literatura ocidental, tenho lido o Novo Testamento com muita intensidade, na Lingüística, tenho fundamentado meus estudos na pesquisa social, atentando para as relações de poder, materializadas na língua. No limiar desses 40 anos, faz todo sentido parafrasear meu velho amigo Paulo, que, contrariando Nelson Rodrigues, declara, em relação à maturidade, não havê-la alcançado. Por isso, prossigo em direção ao alvo, ao prêmio da soberana vocação que está em Cristo Jesus. Reconheço que há um longo caminho a ser percorrido, e seguindo os passos de Robert Frost, espero continuar naquele menos trilhado, isso certamente fará toda a diferença.

20 de fev de 2011

A esperança no Reino de Cristo

Não é fácil encontrar esperança em um mundo pós-cristão. As ideologias anticristãs mataram todo senso de expectação em relação ao futuro. Com a morte do sagrado, sepultamos as expectativas por um mundo melhor. O ser humano, reduzido a um amontoado de células, não sabe mais para onde caminha. Essa realidade pode ser constatada nas tendências culturais do tempo presente, comumente denominada de pós-modernidade. Essa perspectiva esteticamente elaborada no existencialismo cinematográfico de Woody Allen e na literatura filosófica de Camus e Sartre, que retratam com maestria a condição humana contemporânea.
O materialismo extremado, legado de pensadores marxistas, transformou a esperança em uma utopia para o presente. “Se Deus não existe”, então, “precisamos tomar as rédeas da história”. Paradoxalmente, a ânsia por reconstruir a narrativa humana a partir de si mesmo não passa de uma projeção da modernidade. As guerras, os desastres naturais, a exploração dos mais fracos, entre outros problemas sociais é um sintoma de que não é possível mudar a história simplesmente pelo processo de conscientização. O ser humano é muito mais do que razão, como destacou Paulo, e posteriormente, Freud, ele é também desejo.
Mas o que esperar do ser humano que não consegue encontrar uma saída desse complexo labirinto existencial? A impressão que se tem é que esse está fadado ao Mito de Sísifo, a repetição rotineira de práticas destituídas de sentido. Diante de tal condição, as palavras do Eclesiastes soam como auto-ajuda ao contrário: “vaidade de vaidades, tudo é vaidade, é correr atrás do vento”. Se a solidão é uma realidade, não há um Deus para prestar contas, se a ética se reduz aos contratos sociais, aplica-se a dedução irônica de Paulo: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Ou, conforme destacou Dostoievski, na voz de um dos seus célebres personagens em Os irmãos Karamazov, “se Deus não existe, tudo é permitido”.
O temor pelo sagrado se liquefez, por esse motivo, Deus deixou de fazer sentido. A partir desse ponto de vista, Nietzsche está correto, pois Deus não passa de uma idéia ultrapassada. Não que Ele tenha morrido, pois o Eterno está para além do tempo, foram os seres humanos O mataram dentro deles mesmos. O relacionamento das pessoas nas ruas, os programas que passam na televisão, as produções literárias e jornalísticas partem sempre do pressuposto de que não há Deus, ou, se Ele existe, o melhor é viver como se não existisse. Para a maioria das pessoas será melhor assim, afinal, se não existe Deus, também não haverá a quem prestar contas. Mas, por outro lado, essa negação do Outro resulta na objetificação do outro, na redução ao nada, em angústia.
Diante dessa realidade, o cristão lança-se sobre o paradoxo e decide viver no contexto da esperança. Ele sabe que Deus existe, por isso, conforme declara o Apóstolo, “espera contra todo desespero”. A história, para a fé cristã, não está concluída, ela tem seu ápice em Cristo. E por causa da Sua morte e ressurreição, entramos em um processo de reversão do desespero, comparado àquele elaborado por C. S. Lewis, em O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa. O Reino de Deus já está no meio de nós, e, conforme destacou esse escritor britânico, temos a missão de “sabotar” o império que governa esse mundo tenebroso. Nesse sentido, nos avizinhamos de alguns posicionamentos marxistas, estamos sonhando e lutando por “um novo mundo”.
Essa nova realidade já começou, e não precisa ser postergada para o futuro, o reino de Deus já está entre nós. Por esse motivo, o cristão vive na tensão entre o “já” e o “ainda não”, ele sabe que haverá um futuro no qual a morte será tragada na vitória, em que o que é corruptível se revestirá da incorruptibilidade e em que os mortos ressuscitarão. Ao mesmo tempo, enquanto esse tempo não chega, ele investe em mudanças nessa realidade a partir da dimensão do Reino de Cristo, a respeito do qual Ele ensinou em diversas situações, mas que se encontra especificamente detalhada nos Sermão do Monte. O reino de Deus está fundamentado na ética, na graça e no amor, não na meritocracia, mas no perdão e na misericórdia.
A dimensão ética desse reino nos conclama à esperança, não apenas por um mundo porvir, no qual estaremos na eternidade, no céu com Cristo, mas a “fazer a diferença” aqui e agora, no tempo presente. A esperança cristã nos impulsiona para viver o amor e o perdão de Cristo, a não tratar na “mesma moeda”, a ter a coragem de “oferecer a outra face”, a viver em santidade, buscando a pureza de coração; a ser uma voz em prol dos injustiçados. Os súditos do reino, como aconteceu com Cristo, o Senhor, padecerão perseguição, mas aqueles que não se dobrarem perante a lógica do desespero, serão “bem-aventurados”. E por fim, quando o “ainda não” se transformar em “já”, esses serão recebidos pelo Rei, e conhecerão a verdadeira recompensa.