27 de dez de 2010

Heróis da Solidariedade

Esta semana tive a oportunidade de assistir a um programa de tv no qual algumas pessoas eram convidadas ao palco para receber troféus. Chamou-me a atenção que os homenageados nada fizeram em prol deles próprios. Eles eram heróis, assim eram denominados, por terem tomado atitudes que favoreceram a outros. Um senhor de idade que dedicava parte do seu tempo à construção de casas para veteranos de guerra mutilados nos campos de combate, uma senhora que conscientizava sua comunidade sobre os perigos da obesidade e a necessidade de uma alimentação sadia e uma senhora indiana que construiu um lar a fim de resgatar jovens vendidas à prostituição.
Enquanto acompanhava a premiação, fiz um contraponto com os valores que a sociedade contemporânea elegeu. Não estamos acostumados a esse tipo de reconhecimento. Em uma sociedade competitiva, as pessoas são idolatradas não pelo que fazem aos outros, mas pelo que conseguem obter para elas próprias. Vivemos na cultura do sucesso, e esse não é medida pela solidariedade, mas, no contexto do capitalismo selvagem, por aqueles que conseguem acumular mais riquezas. Os jovens estão cada vez mais se distanciando de exemplos como Martin Luther King Jr., Madre Tereza, Mahatma Gandhi, entre outros.
Os heróis contemporâneos são os megaempresários, um símbolo maior deles é Donald Trump, pessoas que conseguiram ultrapassar seu primeiro milhão de dólares. Enquanto isso, aqueles que se envolvem com práticas solidárias são esquecidos. A imprensa não divulga os trabalhos daqueles que sacrificam suas vidas na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Há todo um sistema que alimenta a ganância, os realities shows, os programas de auditório, a programação televisiva costumam fomentar a competitividade. Aos ganhadores os prêmios, aos perdedores, as traças. Essa realidade é estendida à sociedade em geral, como forma de justificar a “deficiência” e “incompetência”.
Após alguns minutos diante da TV, emocionado com a história daquelas pessoas que realmente fizeram a diferença, sem qualquer interesse financeiro ou político, questionei a Deus: “Senhor, por que aqueles que se sacrificam com vistas a transformação da sociedade não são percebidos?” A resposta veio após alguns minutos, após ler a galeria dos heróis da fé, do livro bíblico de Hebreus, o capítulo 11. Essas pessoas não buscam um prêmio corrutível. Elas não vivem a partir do tangível, seus olhos estão fitos na eternidade, aguardam a recompensa do Senhor. A autor dessa epístola é categórico ao afirmar que o mundo não é digno de tais pessoais (Hb. 11.38).
Aqueles que semeiam para temporal certamente já estão colhendo seus dividendos. Uma minoria, que se sobrepõe a maioria, reafirmando-se a partir dos pobres e fracos, festeja o sucesso. Os vencedores são apresentados diante do holofotes, saem pelo mundo ministrando palestras motivacionais e instruem alienados a como ficarem tão ricas quanto elas. Faz parte do espetáculo, o objetivo é acreditar no princípio da meritocracia, isto é, que todos os que fizerem a sua parte se darão bem ao final. As exceções, ou para ser mais realista, a exceção das exceções, é celebrada como regra geral. É assim que o mundo gira, é desse modo que a engrenagem funciona.
Mas há muitos que não se dobraram diante desse sistema. Eles, contra tudo e contra todos, vivem a partir da fé, da convicção e esperança nas coisas que se não vêem (Hb. 11.1). Esses ainda não receberam a devida recompensa, são os esquecidos da sociedade, lembrados apenas uma vez ou outra em algum programa de tv – semelhante ao que vi recentemente. Esse esquecimento não será para sempre, pois o trabalho feito para Deus não é vão, assim afirma o apóstolo Paulo, que dedicou sua vida à propagação do evangelho de Cristo (I Co. 15.58). Assim também fez Hudson Taylor, missionário inglês que renunciou a tudo para viver entre os chineses. Anos depois, quando retornava à terra natal, queixou a Deus por não ser aguardado na estação férrea: “Senhor, por que ninguém veio reconhecer o meu trabalho?”. Conformou-se ao ouvir uma voz que partia do íntimo da sua alma: “aguarde, meu filho, você ainda não chegou em casa”.
Os heróis da solidariedade também estão a caminho. A esses dirá o Senhor Jesus: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25.34-40).