7 de nov de 2010

Deixei de orar por uma nação evangélica

Não desejo mais um Brasil para Cristo. É triste chegar a essa constatação. Digo isso porque nos idos de 80, no início da minha fé, roguei a Deus para que esse dia chegasse. Depois de passados esses anos, cheguei à conclusão que, infelizmente, não vale a pena ter uma nação evangélica. Para evitar mal-entendidos, explico o que quero dizer por “nação evangélica”. Destaco, inicialmente, que o movimento evangélico brasileiro, ou pelo menos o que é denominado de evangélico hoje, nada tem a ver com o evangelicalismo histórico.
O genuíno movimento evangélico surgiu como uma resposta alternativa ao liberalismo e ao fundamentalismo teológico. O primeiro defendia uma leitura racionalista da Bíblia, distanciando-a do seu caráter sobrenatural, deixando de reconhecê-la como Palavra de Deus. O último pendia para o outro lado, argüia em favor de uma leitura literalista da Escritura, sem atentar para os fundamentos interpretativos, legados pela reforma protestante. Na ânsia de combater o liberalismo teológico, o fundamentalismo descambou para a ignorância, inclusive a bíblica.
O movimento evangélico emergiu no contraponto, na tentativa de propor uma percepção equilibrada, que respeitasse tanto a razão quanto o texto bíblico. No Brasil, o termo “evangélico” não é usado dentro desse paradigma. Esse termo passou a abarcar todos os segmentos que fazem parte de alguma agremiação cristã que se distinga do catolicismo romano. As denominações ditas evangélicas, sejam elas quais foram, são colocadas todas no mesmo pacote, como se fossem “farinha do mesmo saco”. Até os anos 80, quando éramos poucos, orávamos piedosamente por uma conversão nacional, desejávamos que o Brasil se rendesse aos pés de Cristo.
Mas ao perceber no que se tornaram os evangélicos no Brasil, começo a repensar esse motivo de oração. O discurso evangélico brasileiro, ao longo da sua história, fez oposição ao catolicismo. Negávamos os preceitos, principalmente os dogmas católicos, mas, paradoxalmente, desejávamos, na verdade, ser o que o catolicismo era, melhor dizendo, conquistar o que ele tinha. É isso mesmo que estamos nos tornando, ao desejar ser uma nação evangélica, temos pretensão de o mesmo poder que o catolicismo tinha antigamente. Esquecemos, porém, que muitos daqueles que se diziam católicos, eram apenas nominais, não levavam a sério os dogmas da igrejas.
Começo a testemunhar esse mesmo fenômeno no movimento evangélico brasileiro. O nominalismo evangélico parece ser uma realidade da qual não podemos mais fugir. Há pessoas que se dizem evangélicas, mas que não conhecem a Bíblia, sequer dedicam alguns momentos à oração. Em meio a esse caldo de crenças evangélicas, existem denominações que não merecem, à luz dos critérios bíblico-históricos, a serem reconhecidas como evangélicas. O legado da Reforma Protestante passa muito longe dessas igrejas. Os líderes de tais denominações têm fome e sede de poder, então não têm compromisso com a Palavra, não pastoreiam o rebanho de Deus.
Diante desse icabode evangélico – expressão hebraica que significa foi-se a glória de Israel – começo a rever minhas orações e meu desejo para que essa se transforme numa nação evangélica. Ao invés de fazer esse tipo de oração, rogo a Deus para que continue salvando pessoas que se deixem conduzir pela simplicidade e loucura do genuíno evangelho de Cristo. Ao ler os evangelhos, chego a constatação que Jesus não precisa de mais evangélicos no País, e sim de discípulos, pessoas que estejam dispostas a negarem a si mesmas, a abrirem mão da zona de conforto, a carregarem a cruz do sacrifício por Cristo, a viverem pelo próximo. Essa visão deturpada do que significa ser evangélico está fazendo muito mal à igreja.
Antigamente éramos conhecidos por ser um povo separado, distanciado dos valores do mundo. A relevância da igreja estava na fé, sua esperança maior era a vinda de Cristo, seu sustentáculo, o amor. Após anos de caminhada nessa fé, começo a questionar se vale a pena identificar-se como evangélico no Brasil. Talvez seja o caso de semelhantemente aos católicos, fazer a distinção entre os evangélicos nominais e praticantes. Nada pior para uma religião do que passar a ser oficial no Estado. É justamente isso que está acontecendo com o movimento evangélico no Brasil. Quem são os culpados? Nós somos os culpados, estamos deixando de ser igreja, desejamos ser como o mundo.
Contraditoriamente, o mundo precisa da igreja de Jesus Cristo, ainda que não saiba. Em meio à competitividade, ela pode ser a voz dos mais fracos. Diante da cultura da morte, ela pode assumir a posição pró-vida, não apenas censurando, mas, sobretudo, demonstrando graça. Em face da ganância pelo poder, levado às últimas conseqüências, maquiavelicamente, a igreja pode apontar para a direção do serviço. No contexto moldado pela ostentação de bens materiais, a igreja pode orientar para a valoração de riquezas incorruptíveis. Não precisamos de uma nação evangélica, carecemos de uma igreja forte, cujo poder esteja alicerçado na Palavra de Deus e na atuação do Espírito Santo.