27 de set de 2010

Em quem votarei em 3 de outubro

Mais uma eleição se aproxima, e, como sempre, repetem-se as mesmas ladainhas evangélicas. Um grupo de pastores, incitados por determinados políticos, tenta convencer seus fiéis a não votarem em determinados candidatos. Dizem eles: candidatos X, Y e Z apóiam o aborto, a eutanásia, casamento de pessoas do mesmo sexo, entre outros temas da agenda moral. Fazem um terrorismo extremo a fim de dissuadir os “irmãos” a não aderirem à política de certos partidos, os quais, recorrentemente, são taxados de liberais (ou de esquerda).
Decidi não mais me deixar levar por esse terrorismo. A partir de agora voto em candidatos que tenham uma política de justiça social. Não descarto a agenda moral, creio ser fundamental continuarmos defendendo uma cultura pró-vida, a família nos padrões bíblicos, entre outros valores. Mas esses são padrões cristãos, os quais, sinceramente, não acredito que todas as pessoas deverão segui-los, apenas, reforço, exclusivamente, os que decididamente são cristãs. Assumir uma agenda cristã para o país me parece hipocrisia, afinal, desde quando este país é cristão?
A corrupção deslavada que vem assolando essa nação faz tempo nada tem de cristã. Os políticos que estiveram à dianteira das decisões nada fizeram para melhorar a vida dos brasileiros. Nesses últimos anos, em decorrência do governo de um partido de tendência esquerdista, uma série de escândalos foi propagada, como se esses fossem os únicos, negando uma condição histórica de corrupção com a qual esse país conviveu. Alguns poucos tiraram vantagens lucrativas da economia brasileira, enquanto a maioria padecia de fome. Esses políticos querem retornar ao poder para fazerem aquilo que sempre fizeram: nada.
Os evangélicos estão sendo usados como massa de manobra. As opções sexuais de determinados candidatos são divulgadas. Seus “pecados” são publicados como se fossem merecedores do inferno. Os pecados de cada um devam ser julgados por Deus, Ele, e somente Ele, é o Senhor. Em relação à política, estou convicto que jamais teremos um Reino de Deus na terra pelas vias democráticas. A política de Deus, definitivamente, é diferente da dos homens. O evangelho de Jesus Cristo nos ensina a amar, a política dos homens incita ao poder. Onde há poder não existe lugar para o amor, um se opõe ao outro, não se misturam, como água e óleo.
Por essa razão, não votarei em candidatos apenas que sejam contra o aborto e contra a família, mas naqueles que estão engajados no processo de justiça social. O aborto e o divórcio continuarão a existir, seja ele legalizado ou descriminalizado. Enquanto cristão, continuarei me opondo tanto a um quanto a outro, mas, para tanto, levarei o evangelho de Cristo. Quando as pessoas o aceitarem, elas serão capazes, pelo Espírito, de viver a partir dessa dimensão, pautadas no genuíno amor, o fundamento do Reino de Deus. Se a perseguição vier por causa de tais opções, rogo a Deus para que não tenha medo e seja capaz de enfrentá-la com fé e coragem. Prefiro a perseguição ao marasmo, a cultuar na surdina do que fazer conchavos com o Império.
Enquanto membro da igreja, não oriento ninguém a votar em partido A ou B. Mas eu, particularmente, já tomei minha decisão. Votarei num projeto de política que favoreça a justiça social deste país. Não concordo com tudo que a(o) candidata(o) que escolhi apregoa, tenho algumas restrições de ordem ideológica. Mesmo assim, tomarei uma decisão pelo coletivo, não quero compromisso com a bancada “evangélica” que apenas busca interesses pessoais, fisiologismos para agradar suas denominações e envolvimento em atos de corrupção. Não quero pactuar com orações de “prosperidade” que agradecem a Deus pelos dividendos da corrupção.
No dia 3 de outubro, se o Senhor permitir, sairei de casa para votar. Não mais com o mesmo ufanismo de anos passados, mas convicto da relevância da atitude. Não me deixarei levar por atos de terrorismo “evangélico”, votarei nos candidatos que têm vocação para a vida pública, que fazem política para o bem comum da nação, que não estão aliados a grupos do capitalismo selvagem, ou que buscam enriquecimento através da vida pública. Estou ciente que esses candidatos não são perfeitos, mas prefiro votar neles (ainda que não sejam evangélicos) do que alimentar um sistema corrupto que, sem peso na consciência, continua alimentando a miséria e pobreza.