8 de ago de 2010

O cristão que quero ser

Se me permitem o destrocadilho, Agosto não é, para mim, um mês de desgosto. Isso porque nos idos de 1988, justamente nesse mês, abracei a fé cristã. Cada Agosto é uma oportunidade de refletir sobre a fé. Vinte três anos depois, se não tiver errado a conta, avalio a decisão que tomei, ainda na juventude, com apenas 16 anos de idade. Aquela foi uma opção radical, com implicações sérias na comunidade em que vivia. Os vizinhos e familiares se negavam a aceitar que eu tivesse “mudado de lei”. Isso porque eu havia deixado o catolicismo, que praticava com esmero, decorrente com o desencanto com a teologia da libertação.
Apesar de jovem, tive a percepção de que aquele não era o melhor caminho para a igreja. Não que me opussesse à opção pelos pobres, mas porque sentia um cheiro de imanentismo, uma perca gradual da transcendência naquele contexto. Tornei-me crente ou protestante, como eram denominados os evangélicos daquele tempo. Como já lia a Bíblia antes, os anos seguintes foram de aprofundamento. Deleitava-me em esmiuçar os textos. Degustava cada sentença, palavra e letra da Palavra de Deus. A leitura sempre acompanhada de oração favorecia a devoção, momentos sublimes na presença de Deus.
Ao longo desses anos de fé, tenho me esforçado para manter a disciplina espiritual, principalmente para não perder o frescor dos primeiros anos. Mas essa não é uma tarefa fácil, estamos envoltos de tantas distrações que, às vezes, perdemos o foco central da caminhada. Como Paulo, não julgo que tenha alcançado a perfeição, mas esquecendo das coisas que para traz ficam, corro em busca do prêmio da soberana vocação que se encontra em Cristo Jesus. Sou constantemente tentado a querer mudar os outros, mas esqueço que devo começar as mudanças por mim mesmo. A mudança do “eu” é o princípio da revolução espiritual, ainda que, constantemente, "eu" esteja propenso a fugir dos espelhos espirituais da Palavra.
Neste Agosto, quero refletir um pouco sobre o cristão que quero ser. É bem provável que não consiga atingir a essas metas nos próximos dias, ou quiçá, nos próximos anos, mas pretendo não desistir deles. Tenho plena consciência que somente conseguirei atingir a perfeição na dimensão escatológica, isto é, quando o que é corruptível se revestir da incorruptibilidade. Mesmo assim, cabe a mim, enquanto cristão, fazer a minha parte. Não esquecer de quais são os meus parâmetros, não me deixar distrair pelas circunstâncias, não fazer concessões com nada que me distancie do Senhor. Seguir o conselho dado pelo Senhor a Josué, não olhar nem para direita nem para a esquerda, antes seguir em frente, meditando na Sua Palavra.
Não sou ainda o cristão que quero ser, mas prossigo para o alvo. Quero estar menos centrado em mim mesmo e mais no Senhor. E na medida em que isso acontecer, quero está mais aberto para o meu próximo, disposto a amá-lo, a aceitar suas limitações, a perdoá-lo com maior facilidade. Quero ser um propagador da cultura da paz, evitar todo e qualquer tipo de violência, principalmente aquelas veladas, instrumentalizadas pela coerção. Quero ter um estilo de vida mais simples, viver com menos ostentação. Desprender-me das ambições que alimentam a inveja e a cobiça na alma humana. Quero ser mais solícito às necessidades dos pobres, investir mais naqueles que carecem de auxílio, acumular tesouros nos céus onde o ladrão não rouba e traça não corrói.
Quero viver uma espiritualidade mais sadia, que não se deixa dominar por ambições, que experiencia a comunhão fundamentada no amor. Quero ser amigo das pessoas e aprender a não julgá-las precipitadamente. Quero passar mais tempo com as pessoas que carecem de amor e que se sentem desamparadas. Quero ser um esposo melhor, aprender a cultivar cada momento da relação conjugal em sua singularidade. Quero estar mais tempo perto dos meus filhos, acompanhá-los em cada uma das etapas do crescimento. Quero sacralizar cada momento do meu trabalho, sem fazer distinção entre o que é eclesiástico ou secular. Quero ser um defensor da moralidade cristã, sem desconsiderar o compromisso ético na política e nas questões ambientais. Quero viver o cristianismo em sua dimensão integral, olhar não apenas às necessidades do espírito, mas também para as carências do corpo.
Reconheço que há um longo caminho a ser percorrido e que ainda estou distante do cristão que quero ser, alegra-me saber que, apesar de tudo, estou dando os primeiros passos.