21 de jun de 2010

Um mundo sem Deus

Não é preciso ir muito longe para pensar em como seria um mundo sem Deus. A secularização moderna nos legou traços marcantes dessa realidade. Ao contrário do que afirmam certos teóricos, Deus não morreu, ainda que, na consciência humana, Ele tenha deixado de existir. Mesmo entre aqueles que crêem, há os que vivem como se Ele não existisse. Um mundo sem Deus não é outro mundo, mas o mundo no qual estamos inseridos. Sem Deus, diz João em uma das suas Epístolas, o kosmos (mundo em grego) está morto no Maligno. Mas nem todos se apercebem dessa realidade, há, inclusive, aqueles que defendem a necessidade de um mundo totalmente sem Deus.
As conseqüências de viver em um mundo sem Deus são nefastas. Ao declarar a morte de Deus, o ser humano optou pelo caminho da autonomia irrestrita. As implicações éticas de tal decisão resultaram num relativismo extremo. Cada um pode muito bem fazer o que bem entende, já que não há a quem prestar contas. Somos todos senhores de nós mesmos. Em um mundo sem Deus, é cada um por si e o diabo contra todos. A existência humana acaba sendo bestializada de tal modo que todas as pessoas passam a serem vistas como animais, espécies numa luta natural pela sobrevivência. Não conseguimos fazer coisa alguma sem tirar alguma vantagem do outro. Essa prática está de tal modo naturalizada que muitos têm vergonha de perder. Ganhar sempre, perder jamais, se tornou a motivação principal das práticas sociais.
Um mundo sem Deus é desgraçado, no sentido primário da etimologia bíblica, totalmente sem graça, não existe possibilidade de favor imerecido, misericórdia, nem pensar. A palavra perdão está totalmente fora do vocabulário do mundo sem Deus. A cultura da vingança gera um ciclo apavorante de violência, ninguém está disposto a oferecer a outra face, ou a andar outra milha. Revidar é a palavra-chave, dar o troco é o que se espera, pagar na mesma moeda é o mote. Em um mundo sem Deus, a natureza acaba sendo objetificada, o ser humano animalizado, e, às vezes, tratado como coisa. A imagem de Deus no homem não existe, pois este não passa de um conjunto de células, de um amontoado de órgãos.
Sem Deus, as ciências humanas perdem sua dimensão ética. Em nome de ideologias secularistas, o ser humano não passa de uma cobaia de laboratório. Sob a justificativa do progresso, o corpo, ao ser dessacralizado, perde toda a dignidade. Um mundo sem Deus não precisa, necessariamente, ser um mundo sem investigação científica. Mas a ciência precisa reconhecer seus limites, saber que não pode brincar de ser Deus, a não fazer ciência pela mera ciência, ou pior, fazer ciência apenas em nome do Mercado. Isso porque em um mundo sem Deus, o outro é sempre algo, nunca um alguém, um consumidor, não um sujeito, mas apenas um indivíduo sem sentimentos, história ou dignidade.
Mas um mundo sem Deus não quer dizer um mundo sem religião. Existem muitas religiões no mundo, muitas delas nada têm a ver com Deus. As religiões meramente humanas foram cooptadas pelos padrões seculares. Deus (talvez fosse melhor escrever com letra minúscula) se tornou uma espécie de sadista cósmico que se alegra ao ver o sofrimento das pessoas. Em um mundo mercatilizado, o relacionamento com esse deus não passa de um toma-la-da-cá. O conceito de espiritualidade é mensurado não pela piedade ou pela disposição para amar e se sacrificar pelos outros, mas pela possibilidade de acúmulo de riquezas e de bênçãos materiais. Em um mundo sem Deus, a religião não produz relacionamentos, apenas desconhecidos distantes, com os quais evitamos nos envolver.
Este mundo seria mais interessante se Deus estivesse nEle. Haveria menos pessoas padecendo necessidade, a criação, ao invés de ser destruída, seria preservada, o espírito de coletividade, ao invés do individualismo, prevaleceria. O envolvimento com as pessoas não teria como objetivo primordial a obtenção de alguma vantagem. O dinheiro não ocuparia lugar central nas decisões do dia-a-dia. Se olharmos para este mundo a partir do prisma bíblico, constataremos que este, definitivamente, não é o mundo de Deus. Mas ainda é possível a concretização de um outro mundo. As Escrituras estão repletas de promessas a esse respeito. Como cristãos, somos chamados a antecipar essa realidade, a participar de uma conspiração divina, subvertendo, a partir dos ensinamentos do evangelho de Cristo, os valores exarados por este mundo sem Deus.

1 de jun de 2010

Encontrando Deus em Lost

Acabei de ver o último episódio de Lost, a série televisiva que prendeu vários telespectadores, ao longo desses seis anos. Quando comecei a acompanhar a série, percebi, imediatamente, que havia uma tonalidade religiosa em suas tramas. As narrativas giravam sempre em torno de redenção. Os personagens, em cada episódio, tinham suas histórias mudadas devido ao contado com a ilha. O enredo, como tudo o mais na vida, remete a outros textos, prioritariamente literários, mas, também, religiosos, especialmente os bíblicos.
Os nomes dos personagens são escolhidos intencionalmente a fim de revelar não apenas suas personalidades individuais, mas a dos pensadores que marcaram a história, tais como Rousseau, Locke, Hume, entre outros. Livros da literatura universal aparecem ao longo da obra, e, propositadamente, contextualizam a construção da narrativa. Obras como: O mágico de Oz, Os irmãos Karamazov, Ratos e Homens, O Escolhido, dentre outras, remetem, dialogicamente, aos autores com os quais os roteiristas tiveram contato.
Mas a série é prioritariamente teológica, isto é, reflete a respeito do homem e sua relação com Deus. Como aconteceu com o Benjamin da Bíblia, sua mãe morre ao dar a luz. Ele é controlado por certo Jacob (Jacó), que também é o pai de Benjamin no Gênesis. Esse mesmo Jacob tem um irmão com o qual contenda, Esaú, que deseja matá-lo, por considerar-se traído pelo irmão. Os dois disputam o controle da Ilha, o último tenta destruí-la enquanto o primeiro quer preservá-la. Para tanto, precisa encontrar um candidato para protegê-la.
O nome da série, Lost (Perdidos), já antecipava a situação da humanidade. Lembro-me, imediatamente, da declaração de Cristo no evangelho de Lucas, quando na casa de Zaqueu: o filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. Lost nos lembra que estamos todos perdidos e que precisamos ser encontrados. Jesus, nos evangelhos, é apresentado como Aquele que nos aponta o norte. A perdição da humanidade se alastra em todos os sentidos, abrangendo a esfera ecológica.
A ilha é uma grande metáfora do planeta, que geme por que estamos tirando-a do lugar. O ser humano não tem feito outra coisa, ao longo desses últimos anos, a não ser investir na destruição do planeta. Em nome do progresso, estamos perdendo o equilíbrio com o ambiente. A racionalização e objetificação da natureza nos fez auto-suficientes, achamos, como Jack no início da série, que seríamos capazes de resolver tudo por meio da lógica. Resultando desse modelo, naufragamos no mar da angústia, nos estraçalhamos em decorrência da Queda.
O último episódio da série nos revela verdades teológicas profundas. Através das lentes do evangelho, podemos ver, em Jack, a figura do homem moderno que precisou sacrificar-se para que pudesse perceber o alcance de seu poder destruidor. C. S. Lewis, apelidado de Jack, encarna a figura desse homem. Após vários anos defendendo o ateísmo, Jack assumiu que Deus existia, e mais que isso, que Ele havia se revelado em Jesus Cristo. Após essa decisão a vida de Jack fora transformada. Ele passou a ver o mundo, e tudo mais, pelos olhos do cristianismo.
A série não é eminentemente cristã, isso porque está impregnada de crenças das mais diversas religiões. A figura de Christian Sheperd (Cristão Pastor), no último episódio, conversando com Jack, mostra, ao fundo, no vitral da janela, os símbolos das principais religiões do mundo. As palavras do Pai, para Jack, são contundentes e confortadoras. Todos iremos morrer, mas ninguém morre sozinho. Precisamos aprender a viver, mas, sobretudo, a morrer, a encontrar a Paz, e principalmente, a ser encontrado pelo Pai. O Filho Pródigo se distanciou da casa paterna, gastou tudo o que podia, mas, felizmente, retornou.
Lost termina como transcorreu ao longo da série, cheia de enigmas e mistérios. Dentro desse espírito pós-moderno, não seria possível encontrar respostas para todas as perguntas. Aqueles que assim desejavam, trazem ainda os resquícios da modernidade. Mas Lost não é apenas uma série, é uma metáfora da existência humana, uma obra que continuará arrastando admiradores mesmo depois de concluída. Isso porque o fim ainda não chegou, há sempre algo mais a esperar. O mistério, que sempre foi uma temática recorrente na série, também o é nas nossas vidas. Não é fácil conviver com a finitude e incompletude, mas é o primeiro passo para ser encontrado.