24 de mai de 2010

Meu amigo descrente

Tenho um amigo descrente, na verdade, vários, mas nesta crônica, quero destacar um em especial. Não pretendo revelar seu nome, por isso, vou denominá-lo, ao longo destas linhas, de Carlos. Ele não consegue acreditar em Deus, ainda que, de vez em quando, faça algum esforço. Apesar da diferença, conseguimos conviver com respeito, e sempre que possível, dialogarmos a respeito de fé e descrença. Carlos é um daqueles jovens de alma angustiada e revoltado com as condições sociais, e que tenta, pelas vias racionais, encontrar respostas para suas perguntas existenciais.
De vez em quando sou abordado por Carlos. Ele, com franqueza, costuma pedir justificativas em relação à fé que defendo. Detalho, na medida do possível, os fundamentos da minha crença. Ainda que, reconheço, nem sempre satisfaço suas indagações. Carlos tem uma propensão à racionalização de todo conhecimento, e, em se tratando de fé, não admite uma crença que não esteja respalda na lógica. Tentei dissuadi-lo várias vezes, explicando que a fé, pela sua própria natureza, não depende da razão. Mesmo assim, Carlos persiste em sua empreitada racionalizante.
Em nossa última conversa, justamente depois de uma das suas crises existenciais, Carlos me inquiriu a respeito da existência de Deus. Respondi-lhe que acreditava em Deus por vários motivos, citei os argumentos lógicos de Causa e Efeito de Aristóteles, cristianizados por Tomas de Aquino, a Prova Ontológica de Anselmo, entre outros. Justifiquei, no entanto, que, como Blaise Pascal, creio muito mais porque decidi abraçar uma verdade, a qual, não necessariamente seja passível de racionalização. Acrescentei que, de certo modo, tais prerrogativas, do ponto de vista da lógica, beiram ao absurdo.
Carlos ficou aturdido com essa resposta. Contrariado, disse-me que se negava a abraçar uma fé cega. Mas antes que ele se despedisse, expliquei-lhe que não se tratava de uma fé cega, mas de uma crença pautada na revelação. Nós, os cristãos, respondemos à mensagem do Evangelho, manifestada em Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne. Cremos não porque vemos, ou porque possamos atestar a partir de um axioma, antes porque Deus resolveu se manifestar, encarnar-se, dizer quem Ele é o seu propósito. Disse a Carlos que apenas posso me propor a fazer alguma racionalização a posteriori da própria fé. Citei novamente Anselmo, em seu Próslogio, afirmando ser necessário primeiramente acreditar, para depois explicar no que se acredita.
Carlos se diz incomodado com o sofrimento humano. Ele não entende porque um Deus justo e amoroso permite tanta atrocidade no planeta. Respondi-lhe, com base na revelação evangélica, que Deus também não está satisfeito. Na verdade, o próprio Deus sabe o que é sofrer, pois, em Cristo, padeceu, na cruz, toda miséria humana. Jesus, como muitas pessoas que nos cercam, foi injustiçado, caluniado e menosprezado. Carlos ficou estupefato quando lhe disse que a resposta de Deus ao sofrimento não parte de uma lógica, mas da disposição de colocar-se no lugar dos homens, de experimentar o extremo da ignomínia.
Ele também me ouviu com atenção enquanto discorria entusiasmado a respeito da promessa esperançosa da fé cristã. Disse-lhe que a natureza, inclusive a humana, está em desequilíbrio, e aguarda, ansiosamente, o momento da redenção. Expus, com base na revelação bíblica, os fundamentos para acreditar num futuro promissor. Carlos admirou minha disposição para crer, mas questionou se isso não seria uma espécie de fuga. Respondi-lhe que não necessariamente e que, como cristão, estava engajado contra práticas injustas e que, já no tempo presente, lutava pela transformação da realidade atual, ainda que estivesse convicto da sua plena redenção no plano escatológico.
Reafirmei minha fé no Deus que está no comando da história. E mais que isso, na responsabilidade que nós, os seres humanos, também temos nesse processo. Reconheci que alguns cristãos, de fato, tendem ao escapismo, mas defendi a necessidade dos cristãos estarem envolvidos não apenas na salvação da alma, mas na integralidade do ser, considerando problemas de ordem social, econômico e ecológico. Carlos se despediu com um sorriso no rosto. Depois de um forte abraço, seguiu seu caminho. Disse-me que ainda não conseguia acreditar, mas que admirava a minha fé e que iria refletir a respeito do que eu lhe havia falado.
Continuarei orando por Carlos. Sei que ele é apenas mais uma entre tantas outras almas angustiadas que tenta, como reflexo da modernidade, encontrar respostas a partir da razão pura. Tranquiliza-me saber que Carlos, mesmo se dizendo descrente, não desistiu de Deus. Talvez, pelo muito tatear, ele possa, um dia, encontrar o que tanto procura. Ele precisará fazer algumas concessões até perceber que Deus não pode ser encontrado meramente em compêndios racionalistas. Felizmente sei, pela Bíblia, que Deus também não desistiu de Carlos. Desde a eternidade, quando enviou o Seu Filho Jesus Cristo, está atuando a fim de que possamos reconhecer, no mistério da Sua encarnação, a manifestação graciosa de Deus. Ele não é um algo, mas um Alguém, uma Pessoa simpática, que, no sentido etimológico do termo, sofre conosco.