25 de abr de 2010

No caminho com o Peregrno

O livro O peregrino, de John Bunyon (1628-1688), é um clássico cristão da literatura universal. Após a sua publicação, em 1666, tornou-se logo um best-seller. Ainda hoje, esse livro somente perde em vendas para a Bíblia. Bunyon esteve preso várias vezes em Bedford, Inglaterra, por opor-se à Igreja Oficial. Numa dessas prisões, escreveu O peregrino, no formato de um sonho. Tive a oportunidade de lê-lo, pela primeira vez, no início dos anos 90, mas, recentemente, resolvi voltar a caminhar ao lado de Cristão, o personagem principal da obra.
Sai da Cidade da Destruição, solitário pelos campos, às vezes lendo, às vezes orando, refletindo a respeito do julgamento iminente. Logo cheguei ao Pântano da Desconfiança no qual fui advertido por Auxílio que à medida que o pecador desperta para a sua perdição, surgem na alma muitos medos, dúvidas e desanimadoras preocupações, e todas se reúnem e se acomodam naquele lugar. Mas essa não foi a única armadilha que encontrei ao longo do percurso, pois Sábio-Segundo-o-Mundo quis me fazer acreditar nos valores deste mundo, tentando me conduzir para a igreja na cidade da Moralidade, por pouco não me desviei do caminho.
Após atravessar a Porta Estreita, Boa Vontade me ensinou a seguir por essa trilha, destacando que ela havia sido aberta pelos patriarcas, profetas e por Cristo e seus apóstolos e que aquele era o único caminho reto e estreito. Obediente à sua voz, prossegui o percurso até chegar à Cruz, onde fui liberto do Fardo Pesado que carregava nas costas. Mas isso foi apenas o começo, pois, mais adiante, fez-se necessário escalar o Desfiladeiro da Dificuldade. Naquele mesmo lugar encontrei Formalista e Hipocrisia, os quais haviam pulado o muro, e diziam também estar no Caminho, e como se isso não fosse o bastante, se vangloriavam por não precisarem sofrer para chegar até ali. Respondi que o Senhor havia me dado sua capa gratuitamente no dia em que me despi dos meus trapos, e, por essa razão, e não por outra, eu seria reconhecido quando chegasse ao final da jornada.
Quanto mais eu andava, mas difícil se tornava o caminho, principalmente quando me deparei com Apoliom, o príncipe da Cidade da Destruição. Ele quis dissuadir-me a desistir do trajeto, respondi-lhe que o Príncipe a quem sirvo e honro é misericordioso e justo. E depois de uma árdua batalha, na qual fiz uso da Armadura de Deus, sentei-me para comer e revigorado, retornei. Nesse momento lembrei-me das palavras de Paulo: “em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”. Mas esse, no entanto, ainda não foi o fim das aflições, pois logo em seguida passei pelo Vale da Sombra da Morte.
À esquerda havia um pântano extremamente perigoso, no qual, mesmo se um bom homem caísse, não acharia apoio para se pôr de pé. O caminho naquele trecho estava cheio de ciladas, armadilhas, laços e redes de um lado e repleto de abismos profundos e íngremes desfiladeiros, especialmente para ser trilhado à noite. Após deixar aquele Vale, encontrei-me com Fiel, um bom vizinho da Cidade da Destruição. Esse passou a ser um companheiro agradável com o qual enfrentamos outros desafios. Mais adiante, encontramos um tal Tagarela, que adorava conversar sobre coisas boas, mas que nada tinha de piedade, falava de muitas coisas, arrependimento, fé e novo nascimento, sem, contudo, as conhecer. Desmascarei Tagarela, mostrando a Fiel que esse homem, apesar de suas palavras eloqüentes, não passava de um tolo, cuja religião era só da boca para fora, uma pessoa debochada e da vã conduta, que faz o mundo tropeçar, e mancha o cristianismo e entristece os sinceros.
Quando chegamos à Feira da Vaidade, enfrentamos forte oposição. Lembrei-me que Evangelista havia me advertido a respeito dos grilhões e aflições que encontraríamos na peregrinação. Aquela Feira era antiga e de longa data, extremamente ampla e variada. Mal chegamos ao local queriam nos vender suas mercadorias, mas nós preferimos olhar para o alto e desviar os olhos para não ver a vaidade. Certo homem, observando nosso comportamento, perguntou o que desejaríamos comprar, respondemos resolutamente: a verdade. O juiz da Feira da Vaidade não gostou da conduta que adotamos, por isso, nos encarcerou e por causa das declarações de Fiel, condenou-o à morte.
Mas não fiquei sozinho na caminhada, pois o Senhor providenciou um outro companheiro, esse denominado Esperançoso. Mas antes de encontra-lo precisei encarar frontalmente pessoas como Apego-ao-Mundo, Amor-ao-Dinheiro e Avareza. Esses foram antigos colegas de Escola, alunos dos professores Agarrado, Amor ao Lucro, situada no Centro Comercial do País da Cobiça, ao norte. Eles argumentavam em favor de uma religião na qual pudessem tirar vantagem de tudo a fim de garantir a vida e os bens. Diziam que é preferível adequar-se aos interesses dos tempos e da segurança, sem deixar passar as oportunidades. Respondi-lhe que era abominável fazer de Cristo e da religião um pretexto para abraçar e desfrutar o mundo e que somente pagãos, hipócritas e feiticeiros aceitam tal opinião.
Quando procuramos uma senda menos dificultosa, acabamos por nos perder, e adentramos ao terreno do Gigante Desespero. Fomos por ele aprisionados no Castelo da Dúvida e perseguidos por sua esposa Desconfiança. Eles nos trataram muito mal, repreendendo-nos colericamente, como se fôssemos cães, ainda que permanecêssemos calados. Aqueles foram momentos angustiantes, de fortes lamentações, por pouco não perdemos a esperança. Felizmente me lembrei da chave da Promessa que havia recebido. Com ela destrancamos o ferrolho terrivelmente enferrujado e fugimos para as Montanhas Aprazíveis.
Ao prosseguirmos, encontramos Ateu que perguntou para onde íamos e gargalhou quando respondemos que seguíamos para a Cidade Celestial. Disse-nos que aquele lugar não existia, mas nós não lhe demos atenção. Depois, conversamos com Ignorante, um cristão nominal repleto de boas intenções, mas sem o conhecimento da verdade do evangelho. Ele queria ser cristão sem admitir que Jesus Cristo é a revelação do Pai. Diante do seu embaraço, o deixamos para trás e prosseguimos. Ao final da jornada, atravessamos o Rio da Morte entramos na Cidade Celestial. Daquele lugar não mais se avistava o Castelo da Dúvida. Quanto mais nos aproximávamos, mais adentrávamos aos pomares, vinhedos e jardins.
Não foi fácil atravessar o Rio da Morte, mas ao chegar do outro lado, recebemos o consolo por todos os esforços. Desfrutamos de alegria que compensou todos os pesares, colhemos o que plantamos, o fruto das orações, lágrimas e sofrimentos pelo Rei ao longo do Caminho. Foram nos dadas coroas de ouro, e o mais importante, passamos a ver o Rei como Ele é. Os trombeteiros nos saudaram com dez mil boas-vindas e com grande júbilo. Ouvi o repicar de todos os sinos da Cidade e uma voz suave que dizia: “entra no gozo do teu Senhor”. Enquanto isso, Ignorância tentava entrar, sem a devida documentação, por isso, fora atado e lançado fora.