28 de fev de 2010

A palavra dos profetas

No início de 2010 comecei a seguir a trilha dos profetas do Antigo Testamento. Comecei por Isaias, alguns dias depois, fui guiado, ao longo do trajeto, por Jeremias e assim por diante. Descobri as peculiaridades de cada profeta, suas diferenças e percursos comuns, fossem eles maiores ou menores (se é que é possível fazer essa diferença). Todos eles falam daquilo que ouviram, e, em alguns casos, do que viram. O profeta não fala de si mesmo, ele é um porta-voz de Deus, a mensagem não parte dele, vem a ele. Diante do peso da mensagem, o profeta costuma ser relutante para aceitar sua missão. Ser profeta significa falar da parte de Deus para o povo, mas não declarar aquilo que o povo quer ouvir, e sim o que precisa ouvir.
Como resultado dessa comissão, o profeta de Deus está fadado à impopularidade. Mesmo assim, o profeta não se revela insensível às dores do povo. Ele sabe que a Palavra de Deus, o “assim diz o Senhor”, é o único escape para os ouvintes. A palavra profética geralmente não é acatada pelos ouvintes. Por esse motivo, o profeta, em consonância com Aquele que fala, simpatiza, isto é, sofre as dores do povo que rejeita a mensagem. O profeta de Deus tem, ao mesmo tempo, palavras na boca e lágrimas nos olhos. O mensageiro do Senhor não se alegra ao ver a destruição do povo, sua meta é conduzi-lo ao arrependimento. Somente Jonas, o profeta fujão, quis ver a destruição dos ninivitas, mas este fora duramente repreendido pelo Senhor.
Os profetas se posicionam contra alguns valores ainda hoje apreciados pela sociedade moderna: sabedoria, riqueza e poder. Para lidar com esses assuntos, Isaias andou três anos pela cidade, somente com as roupas de baixo e com os pés descalços; Jeremias andou sob uma canga de boi para chamar a atenção para a mensagem de destruição iminente; e Ezequiel ficou deitado de lado por meses, amarrado a cordas. Esses são apenas alguns exemplos das atitudes proféticas que se concretizaram, com maior evidência, em suas palavras. Denunciaram com veemência o distanciamento de Deus, a religiosidade aparente e a injustiça social. Sob a autoridade divina, confrontaram governantes poderosos, sacerdotes fingidos e profetas falsos.
Os profetas, pela sua condição enunciativa, são pessoas casmurras, e, em casos extremos, beiram a depressão. Paradoxalmente, eles têm uma mensagem de esperança. Nem tudo está perdido, pois Deus prometeu que dias melhores viriam. A aliança de Deus se concretiza por meio do Prometido, Aquele que haveria de vir: Cristo. Nele a palavra profética encontra ampla ressonância. A convergência plena da revelação profética se encontra nAquele que é, em Pessoa, a Encarnação da Esperança. Dias virão no quais todos se prostrarão perante Ele e reconhecerão nEle a manifestação divina. Quando isso acontecer, o reino de Deus será implantado, o ainda não finalmente se tornará já.
Viver em conexão com os profetas é estar atento as suas vozes, é deixar-se tocar pela realidade que transcende o perceptível. Trata-se de um chamado para a fé, uma disposição para confiar no Deus que se revela, uma alternativa de vida que vai além dos lugares comuns. Mas nem todos têm coragem suficiente para seguir a trilha dos profetas. Assumir essa posição implica em indisposição perante políticos corruptos, religiosos interesseiros e profetas falsificadores da palavra. A impopularidade profética resulta da insatisfação com o pecado, da oposição à religiosidade hipócrita e a insatisfação com a injustiça social.