1 de jun de 2010

Encontrando Deus em Lost

Acabei de ver o último episódio de Lost, a série televisiva que prendeu vários telespectadores, ao longo desses seis anos. Quando comecei a acompanhar a série, percebi, imediatamente, que havia uma tonalidade religiosa em suas tramas. As narrativas giravam sempre em torno de redenção. Os personagens, em cada episódio, tinham suas histórias mudadas devido ao contado com a ilha. O enredo, como tudo o mais na vida, remete a outros textos, prioritariamente literários, mas, também, religiosos, especialmente os bíblicos.
Os nomes dos personagens são escolhidos intencionalmente a fim de revelar não apenas suas personalidades individuais, mas a dos pensadores que marcaram a história, tais como Rousseau, Locke, Hume, entre outros. Livros da literatura universal aparecem ao longo da obra, e, propositadamente, contextualizam a construção da narrativa. Obras como: O mágico de Oz, Os irmãos Karamazov, Ratos e Homens, O Escolhido, dentre outras, remetem, dialogicamente, aos autores com os quais os roteiristas tiveram contato.
Mas a série é prioritariamente teológica, isto é, reflete a respeito do homem e sua relação com Deus. Como aconteceu com o Benjamin da Bíblia, sua mãe morre ao dar a luz. Ele é controlado por certo Jacob (Jacó), que também é o pai de Benjamin no Gênesis. Esse mesmo Jacob tem um irmão com o qual contenda, Esaú, que deseja matá-lo, por considerar-se traído pelo irmão. Os dois disputam o controle da Ilha, o último tenta destruí-la enquanto o primeiro quer preservá-la. Para tanto, precisa encontrar um candidato para protegê-la.
O nome da série, Lost (Perdidos), já antecipava a situação da humanidade. Lembro-me, imediatamente, da declaração de Cristo no evangelho de Lucas, quando na casa de Zaqueu: o filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. Lost nos lembra que estamos todos perdidos e que precisamos ser encontrados. Jesus, nos evangelhos, é apresentado como Aquele que nos aponta o norte. A perdição da humanidade se alastra em todos os sentidos, abrangendo a esfera ecológica.
A ilha é uma grande metáfora do planeta, que geme por que estamos tirando-a do lugar. O ser humano não tem feito outra coisa, ao longo desses últimos anos, a não ser investir na destruição do planeta. Em nome do progresso, estamos perdendo o equilíbrio com o ambiente. A racionalização e objetificação da natureza nos fez auto-suficientes, achamos, como Jack no início da série, que seríamos capazes de resolver tudo por meio da lógica. Resultando desse modelo, naufragamos no mar da angústia, nos estraçalhamos em decorrência da Queda.
O último episódio da série nos revela verdades teológicas profundas. Através das lentes do evangelho, podemos ver, em Jack, a figura do homem moderno que precisou sacrificar-se para que pudesse perceber o alcance de seu poder destruidor. C. S. Lewis, apelidado de Jack, encarna a figura desse homem. Após vários anos defendendo o ateísmo, Jack assumiu que Deus existia, e mais que isso, que Ele havia se revelado em Jesus Cristo. Após essa decisão a vida de Jack fora transformada. Ele passou a ver o mundo, e tudo mais, pelos olhos do cristianismo.
A série não é eminentemente cristã, isso porque está impregnada de crenças das mais diversas religiões. A figura de Christian Sheperd (Cristão Pastor), no último episódio, conversando com Jack, mostra, ao fundo, no vitral da janela, os símbolos das principais religiões do mundo. As palavras do Pai, para Jack, são contundentes e confortadoras. Todos iremos morrer, mas ninguém morre sozinho. Precisamos aprender a viver, mas, sobretudo, a morrer, a encontrar a Paz, e principalmente, a ser encontrado pelo Pai. O Filho Pródigo se distanciou da casa paterna, gastou tudo o que podia, mas, felizmente, retornou.
Lost termina como transcorreu ao longo da série, cheia de enigmas e mistérios. Dentro desse espírito pós-moderno, não seria possível encontrar respostas para todas as perguntas. Aqueles que assim desejavam, trazem ainda os resquícios da modernidade. Mas Lost não é apenas uma série, é uma metáfora da existência humana, uma obra que continuará arrastando admiradores mesmo depois de concluída. Isso porque o fim ainda não chegou, há sempre algo mais a esperar. O mistério, que sempre foi uma temática recorrente na série, também o é nas nossas vidas. Não é fácil conviver com a finitude e incompletude, mas é o primeiro passo para ser encontrado.