27 de dez de 2010

Heróis da Solidariedade

Esta semana tive a oportunidade de assistir a um programa de tv no qual algumas pessoas eram convidadas ao palco para receber troféus. Chamou-me a atenção que os homenageados nada fizeram em prol deles próprios. Eles eram heróis, assim eram denominados, por terem tomado atitudes que favoreceram a outros. Um senhor de idade que dedicava parte do seu tempo à construção de casas para veteranos de guerra mutilados nos campos de combate, uma senhora que conscientizava sua comunidade sobre os perigos da obesidade e a necessidade de uma alimentação sadia e uma senhora indiana que construiu um lar a fim de resgatar jovens vendidas à prostituição.
Enquanto acompanhava a premiação, fiz um contraponto com os valores que a sociedade contemporânea elegeu. Não estamos acostumados a esse tipo de reconhecimento. Em uma sociedade competitiva, as pessoas são idolatradas não pelo que fazem aos outros, mas pelo que conseguem obter para elas próprias. Vivemos na cultura do sucesso, e esse não é medida pela solidariedade, mas, no contexto do capitalismo selvagem, por aqueles que conseguem acumular mais riquezas. Os jovens estão cada vez mais se distanciando de exemplos como Martin Luther King Jr., Madre Tereza, Mahatma Gandhi, entre outros.
Os heróis contemporâneos são os megaempresários, um símbolo maior deles é Donald Trump, pessoas que conseguiram ultrapassar seu primeiro milhão de dólares. Enquanto isso, aqueles que se envolvem com práticas solidárias são esquecidos. A imprensa não divulga os trabalhos daqueles que sacrificam suas vidas na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Há todo um sistema que alimenta a ganância, os realities shows, os programas de auditório, a programação televisiva costumam fomentar a competitividade. Aos ganhadores os prêmios, aos perdedores, as traças. Essa realidade é estendida à sociedade em geral, como forma de justificar a “deficiência” e “incompetência”.
Após alguns minutos diante da TV, emocionado com a história daquelas pessoas que realmente fizeram a diferença, sem qualquer interesse financeiro ou político, questionei a Deus: “Senhor, por que aqueles que se sacrificam com vistas a transformação da sociedade não são percebidos?” A resposta veio após alguns minutos, após ler a galeria dos heróis da fé, do livro bíblico de Hebreus, o capítulo 11. Essas pessoas não buscam um prêmio corrutível. Elas não vivem a partir do tangível, seus olhos estão fitos na eternidade, aguardam a recompensa do Senhor. A autor dessa epístola é categórico ao afirmar que o mundo não é digno de tais pessoais (Hb. 11.38).
Aqueles que semeiam para temporal certamente já estão colhendo seus dividendos. Uma minoria, que se sobrepõe a maioria, reafirmando-se a partir dos pobres e fracos, festeja o sucesso. Os vencedores são apresentados diante do holofotes, saem pelo mundo ministrando palestras motivacionais e instruem alienados a como ficarem tão ricas quanto elas. Faz parte do espetáculo, o objetivo é acreditar no princípio da meritocracia, isto é, que todos os que fizerem a sua parte se darão bem ao final. As exceções, ou para ser mais realista, a exceção das exceções, é celebrada como regra geral. É assim que o mundo gira, é desse modo que a engrenagem funciona.
Mas há muitos que não se dobraram diante desse sistema. Eles, contra tudo e contra todos, vivem a partir da fé, da convicção e esperança nas coisas que se não vêem (Hb. 11.1). Esses ainda não receberam a devida recompensa, são os esquecidos da sociedade, lembrados apenas uma vez ou outra em algum programa de tv – semelhante ao que vi recentemente. Esse esquecimento não será para sempre, pois o trabalho feito para Deus não é vão, assim afirma o apóstolo Paulo, que dedicou sua vida à propagação do evangelho de Cristo (I Co. 15.58). Assim também fez Hudson Taylor, missionário inglês que renunciou a tudo para viver entre os chineses. Anos depois, quando retornava à terra natal, queixou a Deus por não ser aguardado na estação férrea: “Senhor, por que ninguém veio reconhecer o meu trabalho?”. Conformou-se ao ouvir uma voz que partia do íntimo da sua alma: “aguarde, meu filho, você ainda não chegou em casa”.
Os heróis da solidariedade também estão a caminho. A esses dirá o Senhor Jesus: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt. 25.34-40).

7 de nov de 2010

Deixei de orar por uma nação evangélica

Não desejo mais um Brasil para Cristo. É triste chegar a essa constatação. Digo isso porque nos idos de 80, no início da minha fé, roguei a Deus para que esse dia chegasse. Depois de passados esses anos, cheguei à conclusão que, infelizmente, não vale a pena ter uma nação evangélica. Para evitar mal-entendidos, explico o que quero dizer por “nação evangélica”. Destaco, inicialmente, que o movimento evangélico brasileiro, ou pelo menos o que é denominado de evangélico hoje, nada tem a ver com o evangelicalismo histórico.
O genuíno movimento evangélico surgiu como uma resposta alternativa ao liberalismo e ao fundamentalismo teológico. O primeiro defendia uma leitura racionalista da Bíblia, distanciando-a do seu caráter sobrenatural, deixando de reconhecê-la como Palavra de Deus. O último pendia para o outro lado, argüia em favor de uma leitura literalista da Escritura, sem atentar para os fundamentos interpretativos, legados pela reforma protestante. Na ânsia de combater o liberalismo teológico, o fundamentalismo descambou para a ignorância, inclusive a bíblica.
O movimento evangélico emergiu no contraponto, na tentativa de propor uma percepção equilibrada, que respeitasse tanto a razão quanto o texto bíblico. No Brasil, o termo “evangélico” não é usado dentro desse paradigma. Esse termo passou a abarcar todos os segmentos que fazem parte de alguma agremiação cristã que se distinga do catolicismo romano. As denominações ditas evangélicas, sejam elas quais foram, são colocadas todas no mesmo pacote, como se fossem “farinha do mesmo saco”. Até os anos 80, quando éramos poucos, orávamos piedosamente por uma conversão nacional, desejávamos que o Brasil se rendesse aos pés de Cristo.
Mas ao perceber no que se tornaram os evangélicos no Brasil, começo a repensar esse motivo de oração. O discurso evangélico brasileiro, ao longo da sua história, fez oposição ao catolicismo. Negávamos os preceitos, principalmente os dogmas católicos, mas, paradoxalmente, desejávamos, na verdade, ser o que o catolicismo era, melhor dizendo, conquistar o que ele tinha. É isso mesmo que estamos nos tornando, ao desejar ser uma nação evangélica, temos pretensão de o mesmo poder que o catolicismo tinha antigamente. Esquecemos, porém, que muitos daqueles que se diziam católicos, eram apenas nominais, não levavam a sério os dogmas da igrejas.
Começo a testemunhar esse mesmo fenômeno no movimento evangélico brasileiro. O nominalismo evangélico parece ser uma realidade da qual não podemos mais fugir. Há pessoas que se dizem evangélicas, mas que não conhecem a Bíblia, sequer dedicam alguns momentos à oração. Em meio a esse caldo de crenças evangélicas, existem denominações que não merecem, à luz dos critérios bíblico-históricos, a serem reconhecidas como evangélicas. O legado da Reforma Protestante passa muito longe dessas igrejas. Os líderes de tais denominações têm fome e sede de poder, então não têm compromisso com a Palavra, não pastoreiam o rebanho de Deus.
Diante desse icabode evangélico – expressão hebraica que significa foi-se a glória de Israel – começo a rever minhas orações e meu desejo para que essa se transforme numa nação evangélica. Ao invés de fazer esse tipo de oração, rogo a Deus para que continue salvando pessoas que se deixem conduzir pela simplicidade e loucura do genuíno evangelho de Cristo. Ao ler os evangelhos, chego a constatação que Jesus não precisa de mais evangélicos no País, e sim de discípulos, pessoas que estejam dispostas a negarem a si mesmas, a abrirem mão da zona de conforto, a carregarem a cruz do sacrifício por Cristo, a viverem pelo próximo. Essa visão deturpada do que significa ser evangélico está fazendo muito mal à igreja.
Antigamente éramos conhecidos por ser um povo separado, distanciado dos valores do mundo. A relevância da igreja estava na fé, sua esperança maior era a vinda de Cristo, seu sustentáculo, o amor. Após anos de caminhada nessa fé, começo a questionar se vale a pena identificar-se como evangélico no Brasil. Talvez seja o caso de semelhantemente aos católicos, fazer a distinção entre os evangélicos nominais e praticantes. Nada pior para uma religião do que passar a ser oficial no Estado. É justamente isso que está acontecendo com o movimento evangélico no Brasil. Quem são os culpados? Nós somos os culpados, estamos deixando de ser igreja, desejamos ser como o mundo.
Contraditoriamente, o mundo precisa da igreja de Jesus Cristo, ainda que não saiba. Em meio à competitividade, ela pode ser a voz dos mais fracos. Diante da cultura da morte, ela pode assumir a posição pró-vida, não apenas censurando, mas, sobretudo, demonstrando graça. Em face da ganância pelo poder, levado às últimas conseqüências, maquiavelicamente, a igreja pode apontar para a direção do serviço. No contexto moldado pela ostentação de bens materiais, a igreja pode orientar para a valoração de riquezas incorruptíveis. Não precisamos de uma nação evangélica, carecemos de uma igreja forte, cujo poder esteja alicerçado na Palavra de Deus e na atuação do Espírito Santo.

27 de set de 2010

Em quem votarei em 3 de outubro

Mais uma eleição se aproxima, e, como sempre, repetem-se as mesmas ladainhas evangélicas. Um grupo de pastores, incitados por determinados políticos, tenta convencer seus fiéis a não votarem em determinados candidatos. Dizem eles: candidatos X, Y e Z apóiam o aborto, a eutanásia, casamento de pessoas do mesmo sexo, entre outros temas da agenda moral. Fazem um terrorismo extremo a fim de dissuadir os “irmãos” a não aderirem à política de certos partidos, os quais, recorrentemente, são taxados de liberais (ou de esquerda).
Decidi não mais me deixar levar por esse terrorismo. A partir de agora voto em candidatos que tenham uma política de justiça social. Não descarto a agenda moral, creio ser fundamental continuarmos defendendo uma cultura pró-vida, a família nos padrões bíblicos, entre outros valores. Mas esses são padrões cristãos, os quais, sinceramente, não acredito que todas as pessoas deverão segui-los, apenas, reforço, exclusivamente, os que decididamente são cristãs. Assumir uma agenda cristã para o país me parece hipocrisia, afinal, desde quando este país é cristão?
A corrupção deslavada que vem assolando essa nação faz tempo nada tem de cristã. Os políticos que estiveram à dianteira das decisões nada fizeram para melhorar a vida dos brasileiros. Nesses últimos anos, em decorrência do governo de um partido de tendência esquerdista, uma série de escândalos foi propagada, como se esses fossem os únicos, negando uma condição histórica de corrupção com a qual esse país conviveu. Alguns poucos tiraram vantagens lucrativas da economia brasileira, enquanto a maioria padecia de fome. Esses políticos querem retornar ao poder para fazerem aquilo que sempre fizeram: nada.
Os evangélicos estão sendo usados como massa de manobra. As opções sexuais de determinados candidatos são divulgadas. Seus “pecados” são publicados como se fossem merecedores do inferno. Os pecados de cada um devam ser julgados por Deus, Ele, e somente Ele, é o Senhor. Em relação à política, estou convicto que jamais teremos um Reino de Deus na terra pelas vias democráticas. A política de Deus, definitivamente, é diferente da dos homens. O evangelho de Jesus Cristo nos ensina a amar, a política dos homens incita ao poder. Onde há poder não existe lugar para o amor, um se opõe ao outro, não se misturam, como água e óleo.
Por essa razão, não votarei em candidatos apenas que sejam contra o aborto e contra a família, mas naqueles que estão engajados no processo de justiça social. O aborto e o divórcio continuarão a existir, seja ele legalizado ou descriminalizado. Enquanto cristão, continuarei me opondo tanto a um quanto a outro, mas, para tanto, levarei o evangelho de Cristo. Quando as pessoas o aceitarem, elas serão capazes, pelo Espírito, de viver a partir dessa dimensão, pautadas no genuíno amor, o fundamento do Reino de Deus. Se a perseguição vier por causa de tais opções, rogo a Deus para que não tenha medo e seja capaz de enfrentá-la com fé e coragem. Prefiro a perseguição ao marasmo, a cultuar na surdina do que fazer conchavos com o Império.
Enquanto membro da igreja, não oriento ninguém a votar em partido A ou B. Mas eu, particularmente, já tomei minha decisão. Votarei num projeto de política que favoreça a justiça social deste país. Não concordo com tudo que a(o) candidata(o) que escolhi apregoa, tenho algumas restrições de ordem ideológica. Mesmo assim, tomarei uma decisão pelo coletivo, não quero compromisso com a bancada “evangélica” que apenas busca interesses pessoais, fisiologismos para agradar suas denominações e envolvimento em atos de corrupção. Não quero pactuar com orações de “prosperidade” que agradecem a Deus pelos dividendos da corrupção.
No dia 3 de outubro, se o Senhor permitir, sairei de casa para votar. Não mais com o mesmo ufanismo de anos passados, mas convicto da relevância da atitude. Não me deixarei levar por atos de terrorismo “evangélico”, votarei nos candidatos que têm vocação para a vida pública, que fazem política para o bem comum da nação, que não estão aliados a grupos do capitalismo selvagem, ou que buscam enriquecimento através da vida pública. Estou ciente que esses candidatos não são perfeitos, mas prefiro votar neles (ainda que não sejam evangélicos) do que alimentar um sistema corrupto que, sem peso na consciência, continua alimentando a miséria e pobreza.

8 de ago de 2010

O cristão que quero ser

Se me permitem o destrocadilho, Agosto não é, para mim, um mês de desgosto. Isso porque nos idos de 1988, justamente nesse mês, abracei a fé cristã. Cada Agosto é uma oportunidade de refletir sobre a fé. Vinte três anos depois, se não tiver errado a conta, avalio a decisão que tomei, ainda na juventude, com apenas 16 anos de idade. Aquela foi uma opção radical, com implicações sérias na comunidade em que vivia. Os vizinhos e familiares se negavam a aceitar que eu tivesse “mudado de lei”. Isso porque eu havia deixado o catolicismo, que praticava com esmero, decorrente com o desencanto com a teologia da libertação.
Apesar de jovem, tive a percepção de que aquele não era o melhor caminho para a igreja. Não que me opussesse à opção pelos pobres, mas porque sentia um cheiro de imanentismo, uma perca gradual da transcendência naquele contexto. Tornei-me crente ou protestante, como eram denominados os evangélicos daquele tempo. Como já lia a Bíblia antes, os anos seguintes foram de aprofundamento. Deleitava-me em esmiuçar os textos. Degustava cada sentença, palavra e letra da Palavra de Deus. A leitura sempre acompanhada de oração favorecia a devoção, momentos sublimes na presença de Deus.
Ao longo desses anos de fé, tenho me esforçado para manter a disciplina espiritual, principalmente para não perder o frescor dos primeiros anos. Mas essa não é uma tarefa fácil, estamos envoltos de tantas distrações que, às vezes, perdemos o foco central da caminhada. Como Paulo, não julgo que tenha alcançado a perfeição, mas esquecendo das coisas que para traz ficam, corro em busca do prêmio da soberana vocação que se encontra em Cristo Jesus. Sou constantemente tentado a querer mudar os outros, mas esqueço que devo começar as mudanças por mim mesmo. A mudança do “eu” é o princípio da revolução espiritual, ainda que, constantemente, "eu" esteja propenso a fugir dos espelhos espirituais da Palavra.
Neste Agosto, quero refletir um pouco sobre o cristão que quero ser. É bem provável que não consiga atingir a essas metas nos próximos dias, ou quiçá, nos próximos anos, mas pretendo não desistir deles. Tenho plena consciência que somente conseguirei atingir a perfeição na dimensão escatológica, isto é, quando o que é corruptível se revestir da incorruptibilidade. Mesmo assim, cabe a mim, enquanto cristão, fazer a minha parte. Não esquecer de quais são os meus parâmetros, não me deixar distrair pelas circunstâncias, não fazer concessões com nada que me distancie do Senhor. Seguir o conselho dado pelo Senhor a Josué, não olhar nem para direita nem para a esquerda, antes seguir em frente, meditando na Sua Palavra.
Não sou ainda o cristão que quero ser, mas prossigo para o alvo. Quero estar menos centrado em mim mesmo e mais no Senhor. E na medida em que isso acontecer, quero está mais aberto para o meu próximo, disposto a amá-lo, a aceitar suas limitações, a perdoá-lo com maior facilidade. Quero ser um propagador da cultura da paz, evitar todo e qualquer tipo de violência, principalmente aquelas veladas, instrumentalizadas pela coerção. Quero ter um estilo de vida mais simples, viver com menos ostentação. Desprender-me das ambições que alimentam a inveja e a cobiça na alma humana. Quero ser mais solícito às necessidades dos pobres, investir mais naqueles que carecem de auxílio, acumular tesouros nos céus onde o ladrão não rouba e traça não corrói.
Quero viver uma espiritualidade mais sadia, que não se deixa dominar por ambições, que experiencia a comunhão fundamentada no amor. Quero ser amigo das pessoas e aprender a não julgá-las precipitadamente. Quero passar mais tempo com as pessoas que carecem de amor e que se sentem desamparadas. Quero ser um esposo melhor, aprender a cultivar cada momento da relação conjugal em sua singularidade. Quero estar mais tempo perto dos meus filhos, acompanhá-los em cada uma das etapas do crescimento. Quero sacralizar cada momento do meu trabalho, sem fazer distinção entre o que é eclesiástico ou secular. Quero ser um defensor da moralidade cristã, sem desconsiderar o compromisso ético na política e nas questões ambientais. Quero viver o cristianismo em sua dimensão integral, olhar não apenas às necessidades do espírito, mas também para as carências do corpo.
Reconheço que há um longo caminho a ser percorrido e que ainda estou distante do cristão que quero ser, alegra-me saber que, apesar de tudo, estou dando os primeiros passos.

21 de jun de 2010

Um mundo sem Deus

Não é preciso ir muito longe para pensar em como seria um mundo sem Deus. A secularização moderna nos legou traços marcantes dessa realidade. Ao contrário do que afirmam certos teóricos, Deus não morreu, ainda que, na consciência humana, Ele tenha deixado de existir. Mesmo entre aqueles que crêem, há os que vivem como se Ele não existisse. Um mundo sem Deus não é outro mundo, mas o mundo no qual estamos inseridos. Sem Deus, diz João em uma das suas Epístolas, o kosmos (mundo em grego) está morto no Maligno. Mas nem todos se apercebem dessa realidade, há, inclusive, aqueles que defendem a necessidade de um mundo totalmente sem Deus.
As conseqüências de viver em um mundo sem Deus são nefastas. Ao declarar a morte de Deus, o ser humano optou pelo caminho da autonomia irrestrita. As implicações éticas de tal decisão resultaram num relativismo extremo. Cada um pode muito bem fazer o que bem entende, já que não há a quem prestar contas. Somos todos senhores de nós mesmos. Em um mundo sem Deus, é cada um por si e o diabo contra todos. A existência humana acaba sendo bestializada de tal modo que todas as pessoas passam a serem vistas como animais, espécies numa luta natural pela sobrevivência. Não conseguimos fazer coisa alguma sem tirar alguma vantagem do outro. Essa prática está de tal modo naturalizada que muitos têm vergonha de perder. Ganhar sempre, perder jamais, se tornou a motivação principal das práticas sociais.
Um mundo sem Deus é desgraçado, no sentido primário da etimologia bíblica, totalmente sem graça, não existe possibilidade de favor imerecido, misericórdia, nem pensar. A palavra perdão está totalmente fora do vocabulário do mundo sem Deus. A cultura da vingança gera um ciclo apavorante de violência, ninguém está disposto a oferecer a outra face, ou a andar outra milha. Revidar é a palavra-chave, dar o troco é o que se espera, pagar na mesma moeda é o mote. Em um mundo sem Deus, a natureza acaba sendo objetificada, o ser humano animalizado, e, às vezes, tratado como coisa. A imagem de Deus no homem não existe, pois este não passa de um conjunto de células, de um amontoado de órgãos.
Sem Deus, as ciências humanas perdem sua dimensão ética. Em nome de ideologias secularistas, o ser humano não passa de uma cobaia de laboratório. Sob a justificativa do progresso, o corpo, ao ser dessacralizado, perde toda a dignidade. Um mundo sem Deus não precisa, necessariamente, ser um mundo sem investigação científica. Mas a ciência precisa reconhecer seus limites, saber que não pode brincar de ser Deus, a não fazer ciência pela mera ciência, ou pior, fazer ciência apenas em nome do Mercado. Isso porque em um mundo sem Deus, o outro é sempre algo, nunca um alguém, um consumidor, não um sujeito, mas apenas um indivíduo sem sentimentos, história ou dignidade.
Mas um mundo sem Deus não quer dizer um mundo sem religião. Existem muitas religiões no mundo, muitas delas nada têm a ver com Deus. As religiões meramente humanas foram cooptadas pelos padrões seculares. Deus (talvez fosse melhor escrever com letra minúscula) se tornou uma espécie de sadista cósmico que se alegra ao ver o sofrimento das pessoas. Em um mundo mercatilizado, o relacionamento com esse deus não passa de um toma-la-da-cá. O conceito de espiritualidade é mensurado não pela piedade ou pela disposição para amar e se sacrificar pelos outros, mas pela possibilidade de acúmulo de riquezas e de bênçãos materiais. Em um mundo sem Deus, a religião não produz relacionamentos, apenas desconhecidos distantes, com os quais evitamos nos envolver.
Este mundo seria mais interessante se Deus estivesse nEle. Haveria menos pessoas padecendo necessidade, a criação, ao invés de ser destruída, seria preservada, o espírito de coletividade, ao invés do individualismo, prevaleceria. O envolvimento com as pessoas não teria como objetivo primordial a obtenção de alguma vantagem. O dinheiro não ocuparia lugar central nas decisões do dia-a-dia. Se olharmos para este mundo a partir do prisma bíblico, constataremos que este, definitivamente, não é o mundo de Deus. Mas ainda é possível a concretização de um outro mundo. As Escrituras estão repletas de promessas a esse respeito. Como cristãos, somos chamados a antecipar essa realidade, a participar de uma conspiração divina, subvertendo, a partir dos ensinamentos do evangelho de Cristo, os valores exarados por este mundo sem Deus.

1 de jun de 2010

Encontrando Deus em Lost

Acabei de ver o último episódio de Lost, a série televisiva que prendeu vários telespectadores, ao longo desses seis anos. Quando comecei a acompanhar a série, percebi, imediatamente, que havia uma tonalidade religiosa em suas tramas. As narrativas giravam sempre em torno de redenção. Os personagens, em cada episódio, tinham suas histórias mudadas devido ao contado com a ilha. O enredo, como tudo o mais na vida, remete a outros textos, prioritariamente literários, mas, também, religiosos, especialmente os bíblicos.
Os nomes dos personagens são escolhidos intencionalmente a fim de revelar não apenas suas personalidades individuais, mas a dos pensadores que marcaram a história, tais como Rousseau, Locke, Hume, entre outros. Livros da literatura universal aparecem ao longo da obra, e, propositadamente, contextualizam a construção da narrativa. Obras como: O mágico de Oz, Os irmãos Karamazov, Ratos e Homens, O Escolhido, dentre outras, remetem, dialogicamente, aos autores com os quais os roteiristas tiveram contato.
Mas a série é prioritariamente teológica, isto é, reflete a respeito do homem e sua relação com Deus. Como aconteceu com o Benjamin da Bíblia, sua mãe morre ao dar a luz. Ele é controlado por certo Jacob (Jacó), que também é o pai de Benjamin no Gênesis. Esse mesmo Jacob tem um irmão com o qual contenda, Esaú, que deseja matá-lo, por considerar-se traído pelo irmão. Os dois disputam o controle da Ilha, o último tenta destruí-la enquanto o primeiro quer preservá-la. Para tanto, precisa encontrar um candidato para protegê-la.
O nome da série, Lost (Perdidos), já antecipava a situação da humanidade. Lembro-me, imediatamente, da declaração de Cristo no evangelho de Lucas, quando na casa de Zaqueu: o filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. Lost nos lembra que estamos todos perdidos e que precisamos ser encontrados. Jesus, nos evangelhos, é apresentado como Aquele que nos aponta o norte. A perdição da humanidade se alastra em todos os sentidos, abrangendo a esfera ecológica.
A ilha é uma grande metáfora do planeta, que geme por que estamos tirando-a do lugar. O ser humano não tem feito outra coisa, ao longo desses últimos anos, a não ser investir na destruição do planeta. Em nome do progresso, estamos perdendo o equilíbrio com o ambiente. A racionalização e objetificação da natureza nos fez auto-suficientes, achamos, como Jack no início da série, que seríamos capazes de resolver tudo por meio da lógica. Resultando desse modelo, naufragamos no mar da angústia, nos estraçalhamos em decorrência da Queda.
O último episódio da série nos revela verdades teológicas profundas. Através das lentes do evangelho, podemos ver, em Jack, a figura do homem moderno que precisou sacrificar-se para que pudesse perceber o alcance de seu poder destruidor. C. S. Lewis, apelidado de Jack, encarna a figura desse homem. Após vários anos defendendo o ateísmo, Jack assumiu que Deus existia, e mais que isso, que Ele havia se revelado em Jesus Cristo. Após essa decisão a vida de Jack fora transformada. Ele passou a ver o mundo, e tudo mais, pelos olhos do cristianismo.
A série não é eminentemente cristã, isso porque está impregnada de crenças das mais diversas religiões. A figura de Christian Sheperd (Cristão Pastor), no último episódio, conversando com Jack, mostra, ao fundo, no vitral da janela, os símbolos das principais religiões do mundo. As palavras do Pai, para Jack, são contundentes e confortadoras. Todos iremos morrer, mas ninguém morre sozinho. Precisamos aprender a viver, mas, sobretudo, a morrer, a encontrar a Paz, e principalmente, a ser encontrado pelo Pai. O Filho Pródigo se distanciou da casa paterna, gastou tudo o que podia, mas, felizmente, retornou.
Lost termina como transcorreu ao longo da série, cheia de enigmas e mistérios. Dentro desse espírito pós-moderno, não seria possível encontrar respostas para todas as perguntas. Aqueles que assim desejavam, trazem ainda os resquícios da modernidade. Mas Lost não é apenas uma série, é uma metáfora da existência humana, uma obra que continuará arrastando admiradores mesmo depois de concluída. Isso porque o fim ainda não chegou, há sempre algo mais a esperar. O mistério, que sempre foi uma temática recorrente na série, também o é nas nossas vidas. Não é fácil conviver com a finitude e incompletude, mas é o primeiro passo para ser encontrado.

24 de mai de 2010

Meu amigo descrente

Tenho um amigo descrente, na verdade, vários, mas nesta crônica, quero destacar um em especial. Não pretendo revelar seu nome, por isso, vou denominá-lo, ao longo destas linhas, de Carlos. Ele não consegue acreditar em Deus, ainda que, de vez em quando, faça algum esforço. Apesar da diferença, conseguimos conviver com respeito, e sempre que possível, dialogarmos a respeito de fé e descrença. Carlos é um daqueles jovens de alma angustiada e revoltado com as condições sociais, e que tenta, pelas vias racionais, encontrar respostas para suas perguntas existenciais.
De vez em quando sou abordado por Carlos. Ele, com franqueza, costuma pedir justificativas em relação à fé que defendo. Detalho, na medida do possível, os fundamentos da minha crença. Ainda que, reconheço, nem sempre satisfaço suas indagações. Carlos tem uma propensão à racionalização de todo conhecimento, e, em se tratando de fé, não admite uma crença que não esteja respalda na lógica. Tentei dissuadi-lo várias vezes, explicando que a fé, pela sua própria natureza, não depende da razão. Mesmo assim, Carlos persiste em sua empreitada racionalizante.
Em nossa última conversa, justamente depois de uma das suas crises existenciais, Carlos me inquiriu a respeito da existência de Deus. Respondi-lhe que acreditava em Deus por vários motivos, citei os argumentos lógicos de Causa e Efeito de Aristóteles, cristianizados por Tomas de Aquino, a Prova Ontológica de Anselmo, entre outros. Justifiquei, no entanto, que, como Blaise Pascal, creio muito mais porque decidi abraçar uma verdade, a qual, não necessariamente seja passível de racionalização. Acrescentei que, de certo modo, tais prerrogativas, do ponto de vista da lógica, beiram ao absurdo.
Carlos ficou aturdido com essa resposta. Contrariado, disse-me que se negava a abraçar uma fé cega. Mas antes que ele se despedisse, expliquei-lhe que não se tratava de uma fé cega, mas de uma crença pautada na revelação. Nós, os cristãos, respondemos à mensagem do Evangelho, manifestada em Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne. Cremos não porque vemos, ou porque possamos atestar a partir de um axioma, antes porque Deus resolveu se manifestar, encarnar-se, dizer quem Ele é o seu propósito. Disse a Carlos que apenas posso me propor a fazer alguma racionalização a posteriori da própria fé. Citei novamente Anselmo, em seu Próslogio, afirmando ser necessário primeiramente acreditar, para depois explicar no que se acredita.
Carlos se diz incomodado com o sofrimento humano. Ele não entende porque um Deus justo e amoroso permite tanta atrocidade no planeta. Respondi-lhe, com base na revelação evangélica, que Deus também não está satisfeito. Na verdade, o próprio Deus sabe o que é sofrer, pois, em Cristo, padeceu, na cruz, toda miséria humana. Jesus, como muitas pessoas que nos cercam, foi injustiçado, caluniado e menosprezado. Carlos ficou estupefato quando lhe disse que a resposta de Deus ao sofrimento não parte de uma lógica, mas da disposição de colocar-se no lugar dos homens, de experimentar o extremo da ignomínia.
Ele também me ouviu com atenção enquanto discorria entusiasmado a respeito da promessa esperançosa da fé cristã. Disse-lhe que a natureza, inclusive a humana, está em desequilíbrio, e aguarda, ansiosamente, o momento da redenção. Expus, com base na revelação bíblica, os fundamentos para acreditar num futuro promissor. Carlos admirou minha disposição para crer, mas questionou se isso não seria uma espécie de fuga. Respondi-lhe que não necessariamente e que, como cristão, estava engajado contra práticas injustas e que, já no tempo presente, lutava pela transformação da realidade atual, ainda que estivesse convicto da sua plena redenção no plano escatológico.
Reafirmei minha fé no Deus que está no comando da história. E mais que isso, na responsabilidade que nós, os seres humanos, também temos nesse processo. Reconheci que alguns cristãos, de fato, tendem ao escapismo, mas defendi a necessidade dos cristãos estarem envolvidos não apenas na salvação da alma, mas na integralidade do ser, considerando problemas de ordem social, econômico e ecológico. Carlos se despediu com um sorriso no rosto. Depois de um forte abraço, seguiu seu caminho. Disse-me que ainda não conseguia acreditar, mas que admirava a minha fé e que iria refletir a respeito do que eu lhe havia falado.
Continuarei orando por Carlos. Sei que ele é apenas mais uma entre tantas outras almas angustiadas que tenta, como reflexo da modernidade, encontrar respostas a partir da razão pura. Tranquiliza-me saber que Carlos, mesmo se dizendo descrente, não desistiu de Deus. Talvez, pelo muito tatear, ele possa, um dia, encontrar o que tanto procura. Ele precisará fazer algumas concessões até perceber que Deus não pode ser encontrado meramente em compêndios racionalistas. Felizmente sei, pela Bíblia, que Deus também não desistiu de Carlos. Desde a eternidade, quando enviou o Seu Filho Jesus Cristo, está atuando a fim de que possamos reconhecer, no mistério da Sua encarnação, a manifestação graciosa de Deus. Ele não é um algo, mas um Alguém, uma Pessoa simpática, que, no sentido etimológico do termo, sofre conosco.

25 de abr de 2010

No caminho com o Peregrno

O livro O peregrino, de John Bunyon (1628-1688), é um clássico cristão da literatura universal. Após a sua publicação, em 1666, tornou-se logo um best-seller. Ainda hoje, esse livro somente perde em vendas para a Bíblia. Bunyon esteve preso várias vezes em Bedford, Inglaterra, por opor-se à Igreja Oficial. Numa dessas prisões, escreveu O peregrino, no formato de um sonho. Tive a oportunidade de lê-lo, pela primeira vez, no início dos anos 90, mas, recentemente, resolvi voltar a caminhar ao lado de Cristão, o personagem principal da obra.
Sai da Cidade da Destruição, solitário pelos campos, às vezes lendo, às vezes orando, refletindo a respeito do julgamento iminente. Logo cheguei ao Pântano da Desconfiança no qual fui advertido por Auxílio que à medida que o pecador desperta para a sua perdição, surgem na alma muitos medos, dúvidas e desanimadoras preocupações, e todas se reúnem e se acomodam naquele lugar. Mas essa não foi a única armadilha que encontrei ao longo do percurso, pois Sábio-Segundo-o-Mundo quis me fazer acreditar nos valores deste mundo, tentando me conduzir para a igreja na cidade da Moralidade, por pouco não me desviei do caminho.
Após atravessar a Porta Estreita, Boa Vontade me ensinou a seguir por essa trilha, destacando que ela havia sido aberta pelos patriarcas, profetas e por Cristo e seus apóstolos e que aquele era o único caminho reto e estreito. Obediente à sua voz, prossegui o percurso até chegar à Cruz, onde fui liberto do Fardo Pesado que carregava nas costas. Mas isso foi apenas o começo, pois, mais adiante, fez-se necessário escalar o Desfiladeiro da Dificuldade. Naquele mesmo lugar encontrei Formalista e Hipocrisia, os quais haviam pulado o muro, e diziam também estar no Caminho, e como se isso não fosse o bastante, se vangloriavam por não precisarem sofrer para chegar até ali. Respondi que o Senhor havia me dado sua capa gratuitamente no dia em que me despi dos meus trapos, e, por essa razão, e não por outra, eu seria reconhecido quando chegasse ao final da jornada.
Quanto mais eu andava, mas difícil se tornava o caminho, principalmente quando me deparei com Apoliom, o príncipe da Cidade da Destruição. Ele quis dissuadir-me a desistir do trajeto, respondi-lhe que o Príncipe a quem sirvo e honro é misericordioso e justo. E depois de uma árdua batalha, na qual fiz uso da Armadura de Deus, sentei-me para comer e revigorado, retornei. Nesse momento lembrei-me das palavras de Paulo: “em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”. Mas esse, no entanto, ainda não foi o fim das aflições, pois logo em seguida passei pelo Vale da Sombra da Morte.
À esquerda havia um pântano extremamente perigoso, no qual, mesmo se um bom homem caísse, não acharia apoio para se pôr de pé. O caminho naquele trecho estava cheio de ciladas, armadilhas, laços e redes de um lado e repleto de abismos profundos e íngremes desfiladeiros, especialmente para ser trilhado à noite. Após deixar aquele Vale, encontrei-me com Fiel, um bom vizinho da Cidade da Destruição. Esse passou a ser um companheiro agradável com o qual enfrentamos outros desafios. Mais adiante, encontramos um tal Tagarela, que adorava conversar sobre coisas boas, mas que nada tinha de piedade, falava de muitas coisas, arrependimento, fé e novo nascimento, sem, contudo, as conhecer. Desmascarei Tagarela, mostrando a Fiel que esse homem, apesar de suas palavras eloqüentes, não passava de um tolo, cuja religião era só da boca para fora, uma pessoa debochada e da vã conduta, que faz o mundo tropeçar, e mancha o cristianismo e entristece os sinceros.
Quando chegamos à Feira da Vaidade, enfrentamos forte oposição. Lembrei-me que Evangelista havia me advertido a respeito dos grilhões e aflições que encontraríamos na peregrinação. Aquela Feira era antiga e de longa data, extremamente ampla e variada. Mal chegamos ao local queriam nos vender suas mercadorias, mas nós preferimos olhar para o alto e desviar os olhos para não ver a vaidade. Certo homem, observando nosso comportamento, perguntou o que desejaríamos comprar, respondemos resolutamente: a verdade. O juiz da Feira da Vaidade não gostou da conduta que adotamos, por isso, nos encarcerou e por causa das declarações de Fiel, condenou-o à morte.
Mas não fiquei sozinho na caminhada, pois o Senhor providenciou um outro companheiro, esse denominado Esperançoso. Mas antes de encontra-lo precisei encarar frontalmente pessoas como Apego-ao-Mundo, Amor-ao-Dinheiro e Avareza. Esses foram antigos colegas de Escola, alunos dos professores Agarrado, Amor ao Lucro, situada no Centro Comercial do País da Cobiça, ao norte. Eles argumentavam em favor de uma religião na qual pudessem tirar vantagem de tudo a fim de garantir a vida e os bens. Diziam que é preferível adequar-se aos interesses dos tempos e da segurança, sem deixar passar as oportunidades. Respondi-lhe que era abominável fazer de Cristo e da religião um pretexto para abraçar e desfrutar o mundo e que somente pagãos, hipócritas e feiticeiros aceitam tal opinião.
Quando procuramos uma senda menos dificultosa, acabamos por nos perder, e adentramos ao terreno do Gigante Desespero. Fomos por ele aprisionados no Castelo da Dúvida e perseguidos por sua esposa Desconfiança. Eles nos trataram muito mal, repreendendo-nos colericamente, como se fôssemos cães, ainda que permanecêssemos calados. Aqueles foram momentos angustiantes, de fortes lamentações, por pouco não perdemos a esperança. Felizmente me lembrei da chave da Promessa que havia recebido. Com ela destrancamos o ferrolho terrivelmente enferrujado e fugimos para as Montanhas Aprazíveis.
Ao prosseguirmos, encontramos Ateu que perguntou para onde íamos e gargalhou quando respondemos que seguíamos para a Cidade Celestial. Disse-nos que aquele lugar não existia, mas nós não lhe demos atenção. Depois, conversamos com Ignorante, um cristão nominal repleto de boas intenções, mas sem o conhecimento da verdade do evangelho. Ele queria ser cristão sem admitir que Jesus Cristo é a revelação do Pai. Diante do seu embaraço, o deixamos para trás e prosseguimos. Ao final da jornada, atravessamos o Rio da Morte entramos na Cidade Celestial. Daquele lugar não mais se avistava o Castelo da Dúvida. Quanto mais nos aproximávamos, mais adentrávamos aos pomares, vinhedos e jardins.
Não foi fácil atravessar o Rio da Morte, mas ao chegar do outro lado, recebemos o consolo por todos os esforços. Desfrutamos de alegria que compensou todos os pesares, colhemos o que plantamos, o fruto das orações, lágrimas e sofrimentos pelo Rei ao longo do Caminho. Foram nos dadas coroas de ouro, e o mais importante, passamos a ver o Rei como Ele é. Os trombeteiros nos saudaram com dez mil boas-vindas e com grande júbilo. Ouvi o repicar de todos os sinos da Cidade e uma voz suave que dizia: “entra no gozo do teu Senhor”. Enquanto isso, Ignorância tentava entrar, sem a devida documentação, por isso, fora atado e lançado fora.

28 de mar de 2010

Ele está vivo

Nos dias que antecedem a Páscoa, as lojas ficam repletas de figuras de coelhinhos e de ovos de chocolate. Essas praticas acabam fazendo com que as pessoas esqueçam o verdadeiro sentido dessa celebração. Em sua Primeira Carta aos Coríntios, Paulo lembra-lhes que “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (I Co. 5.7). Atentos a isso, os evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João - narram com detalhes os momentos que antecederam a crucificação de Cristo. Isso demonstra a relevância que esse fato histórico-salvífico deva ter para a igreja. No alto da cruz romana, antes de entregar o espírito ao Pai, Jesus bradou: “está consumado”.
A partir de então, o sacrifício que nos traz a paz estava sobre Ele e pelas suas pisaduras fomos sarados, como profetizou Isaias 700 anos antes do ocorrido. O sofrimento de Cristo na cruz é objeto de estudo de vários estudiosos. Os cientistas assumem que as dores foram intensas. Os cineastas também exploraram as agruras que o Senhor passou no calvário. Mas todo esse sofrimento não teria sentido se Ele tivesse ficado na tumba. Talvez não passasse de mais um iniciador religioso ou pensador oriental, como tantos outros, cujos ensinamentos podem ser encontrados nos compêndios espirituais.
De acordo com o relato dos Evangelhos, ao terceiro dia, Cristo ressuscitou de entre os mortos. A partir desses registros, é possível destacar algumas evidências que comprovam a veracidade desse fato. Por ocasião da Festa da Páscoa, Jesus foi exposto publicamente à execução. A multidão clamou que Ele fosse crucificado, e que um outro prisioneiro fosse libertado em seu lugar. Ele fora crucificado entre dois malfeitores, e, por se aproximar o Sabath, dia sagrado para os judeus, os soldados romanos averiguaram se seria necessário antecipar a morte, mas isso não aconteceu com Jesus, pois os soldados constataram que Ele já havia morrido.
Como Jesus havia dito que ressuscitaria ao terceiro dia, uma Guarda Romana vigiou o sepulcro a fim de certificar-se que seus discípulos nas roubariam o corpo. Mesmo com essa vigilância, o túmulo foi encontrado vazio. Os oficiais pagaram aos guardas uma grande quantia em dinheiro a fim de que esses mentissem e dissessem que os discípulos haviam roubado o corpo de Jesus. Os guardas submeteram-se a esse risco por causa do dinheiro, pois poderiam pagar com a própria vida o descaso. Para os romanos essa justificativa seria mais preferível a assumirem que os guardas desmaiaram diante da presença do sobrenatural.
Uma das evidências cabíveis da ressurreição de Cristo é o testemunho de Paulo, que, em I Co 15.5-8, diz que Jesus, após ter ressuscitado, apareceu a Pedro, aos dozes apóstolos, e a mais de 500 irmãos, a Tiago e ao próprio Paulo. É digno de destaque que a maioria dessas pessoas, principalmente entre os 500 anos, naquele tempo, por volta do ano 55 d. C., ainda vivia. Por isso, Lucas, na abertura do seu livro de Atos, testemunha que Jesus, “depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” (At. 1.3).
A mensagem do Cristo ressuscitado mudou drasticamente a vida dos seus seguidores. Quando Jesus fora preso, aqueles que O seguiam, até mesmo os do ciclo mais íntimo, se dispersaram. Pedro O traiu perante as autoridades religiosas e romanas da sua época. Mas após terem visto Jesus ressurgido de entre os mortos, suas vidas foram transformadas. Eles se tornaram destemidos, e se necessário fosse, sacrificariam suas próprias vidas pela verdade a respeito da qual testemunhavam (At. 5.29,42). De fato, muitos cristãos se tornaram mártires, entregaram suas vidas, foram devorados por leões no Coliseu, alvejados por flechas e até mesmo crucificados. Eles não temiam a morte porque sabiam que Jesus, o Senhor da Vida, havia ressuscitado. Essa verdade os instigava à esperança, pois, conforme instruiu Paulo, “o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” (Rm. 8.11).
Ele está vivo, e porque Ele vive, como diz a letra de um clássico hino, “podemos crer no amanhã, porque Ele vive, temor não há”. Destarte todas as evidências, essa verdade precisa ser assumida por fé. O evangelista João narra que em uma das ocasiões em que Jesus apareceu aos seus discípulos, um deles, Tomé, não estava entre eles. Quando o reportaram a respeito do ocorrido, este disse não acreditar que aquilo fosse verdade. E acrescentou: “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (Jo. 20.25). Oito dias depois Jesus apareceu novamente aos discípulos, dessa feita Tomé estava entre eles.
Jesus trouxe uma palavra compreensiva e, ao mesmo tempo, repreensiva a Tome: “Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente” (Jo. 20.27). Diante da revelação do Senhor, Tomé prostrou-se e O adorou: “Senhor meu, Deus meu!”. Jesus disse: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo. 20.29). Existem provas históricas suficientes para acreditar que Jesus ressuscitou, que Ele está vivo, mas esse fato, conforme aconteceu com Tomé, pode ser desacreditado, por isso, somos instruídos, pela Palavra e pelo Espírito, a crer, ainda que não tenhamos visto. No futuro, como parcialmente no presente, seremos contados entre os bem-aventurados do Senhor.

28 de fev de 2010

A palavra dos profetas

No início de 2010 comecei a seguir a trilha dos profetas do Antigo Testamento. Comecei por Isaias, alguns dias depois, fui guiado, ao longo do trajeto, por Jeremias e assim por diante. Descobri as peculiaridades de cada profeta, suas diferenças e percursos comuns, fossem eles maiores ou menores (se é que é possível fazer essa diferença). Todos eles falam daquilo que ouviram, e, em alguns casos, do que viram. O profeta não fala de si mesmo, ele é um porta-voz de Deus, a mensagem não parte dele, vem a ele. Diante do peso da mensagem, o profeta costuma ser relutante para aceitar sua missão. Ser profeta significa falar da parte de Deus para o povo, mas não declarar aquilo que o povo quer ouvir, e sim o que precisa ouvir.
Como resultado dessa comissão, o profeta de Deus está fadado à impopularidade. Mesmo assim, o profeta não se revela insensível às dores do povo. Ele sabe que a Palavra de Deus, o “assim diz o Senhor”, é o único escape para os ouvintes. A palavra profética geralmente não é acatada pelos ouvintes. Por esse motivo, o profeta, em consonância com Aquele que fala, simpatiza, isto é, sofre as dores do povo que rejeita a mensagem. O profeta de Deus tem, ao mesmo tempo, palavras na boca e lágrimas nos olhos. O mensageiro do Senhor não se alegra ao ver a destruição do povo, sua meta é conduzi-lo ao arrependimento. Somente Jonas, o profeta fujão, quis ver a destruição dos ninivitas, mas este fora duramente repreendido pelo Senhor.
Os profetas se posicionam contra alguns valores ainda hoje apreciados pela sociedade moderna: sabedoria, riqueza e poder. Para lidar com esses assuntos, Isaias andou três anos pela cidade, somente com as roupas de baixo e com os pés descalços; Jeremias andou sob uma canga de boi para chamar a atenção para a mensagem de destruição iminente; e Ezequiel ficou deitado de lado por meses, amarrado a cordas. Esses são apenas alguns exemplos das atitudes proféticas que se concretizaram, com maior evidência, em suas palavras. Denunciaram com veemência o distanciamento de Deus, a religiosidade aparente e a injustiça social. Sob a autoridade divina, confrontaram governantes poderosos, sacerdotes fingidos e profetas falsos.
Os profetas, pela sua condição enunciativa, são pessoas casmurras, e, em casos extremos, beiram a depressão. Paradoxalmente, eles têm uma mensagem de esperança. Nem tudo está perdido, pois Deus prometeu que dias melhores viriam. A aliança de Deus se concretiza por meio do Prometido, Aquele que haveria de vir: Cristo. Nele a palavra profética encontra ampla ressonância. A convergência plena da revelação profética se encontra nAquele que é, em Pessoa, a Encarnação da Esperança. Dias virão no quais todos se prostrarão perante Ele e reconhecerão nEle a manifestação divina. Quando isso acontecer, o reino de Deus será implantado, o ainda não finalmente se tornará já.
Viver em conexão com os profetas é estar atento as suas vozes, é deixar-se tocar pela realidade que transcende o perceptível. Trata-se de um chamado para a fé, uma disposição para confiar no Deus que se revela, uma alternativa de vida que vai além dos lugares comuns. Mas nem todos têm coragem suficiente para seguir a trilha dos profetas. Assumir essa posição implica em indisposição perante políticos corruptos, religiosos interesseiros e profetas falsificadores da palavra. A impopularidade profética resulta da insatisfação com o pecado, da oposição à religiosidade hipócrita e a insatisfação com a injustiça social.

24 de jan de 2010

Cristianismo, self-services e doces

Existe uma gama variada de cristianismos nos dias atuais. O número de agremiações que se dizem cristãs talvez ultrapasse o de self-services. Na verdade, há uma analogia apropriada entre certos cristianismos e os restaurantes nos quais as pessoas se servem. Há quem prefira os carboidratos, os salgados, e de preferência, os doces. Tais pessoas estão pouco preocupadas com os danos que os excessos possam trazer ao organismo. O prazer imediato sobrepuja as recomendações dos nutricionistas, e o descontrole resulta em problemas de saúde que podem ser evitados.
A esse respeito, o apóstolo Paulo, ainda no primeiro século, advertiu ao jovem pastor Timóteo a respeito dos dias difíceis que sobreviriam à igreja nos quais as pessoas não suportariam a sã doutrina e amontoariam para si mestres, conforme seus próprios desejos. Diante da quantidade de self-services eclesiásticos, muitos não mais suportam a costumeira genuína comida cristã. Ao invés de dobrarem-se perante a Palavra de Deus, buscam movimentos que façam com que se sintam bem. E certas igrejas tornaram-se especialistas nesse tipo de cardápio. Os famintos saem de casa não para se alimentar da Palavra de Deus, mas para comer os doces que estimulam positivamente as papilas gustativas.
Dependendo da recomendação dos especialistas, há lugar para os doces, mas esses devam ser usufruídos apenas como sobremesas, na medida certa, não como refeição principal. Os pratos principais, principalmente os mais saudáveis, tem gosto amargo. Alguns profetas bíblicos chegaram à essa dura constatação após provarem a comida de Deus. Mesmo assim, como sinal de amadurecimento espiritual, aceitaram a receita divina e recomendaram ao povo de Deus que seguissem a dieta. Essa mudança alimentar resultou em saúde espiritual para o povo. Evidentemente as crianças, que costumam gostar mais de doces, não simpatizaram com a idéia, mas acabaram por aceitar o processo de reeducação nutricional.
O problema é que determinados cristianismos modernos estão repletos de doces, estes com os mais variados tipos e cores de coberturas. As opções são tantas que, em especial as crianças, não sabem por onde começar, nem como terminar. Paradoxalmente, os ingredientes do cristianismo bíblico não se reduzem à satisfação pessoal. Quando alguém se decide por Cristo, uma série de práticas precisam ser desfeitas. O amor a Deus e ao próximo passa a ser o ingrediente principal de toda e qualquer refeição. Para tanto, é preciso abrir mão das receitas prontas e consagradas por alguns conceituados chefs de cozinha.
A humanidade decaída, bastante propensa ao hedonismo, tem dificuldade para digerir essa proposta. Certa feita, após Jesus ter multiplicado pães e peixes e alimentado uma multidão de famintos, fora criticado pelos religiosos. Eles fizeram pouco caso do milagre, acharam-no irrelevante em comparação ao maná provido por Deus. A mensagem provocativa do Mestre, ao se opor ao egoísmo pautado na tradição, fez com que muitos saíssem da Sua presença e optassem por um alimento menos sólido. Diante deles sobraram apenas os Seus discípulos, aos quais perguntou: Não querem também vocês ir após esses? Eles responderam: para quem iremos nós, Senhor, somente Tu tens palavras de vida eterna.
Nesses dias de fastio da palavra de Deus e de muitas ofertas de doces, convem, à igreja cristã, cumprir a sua dieta. Evitar os alimentos que apenas incham o corpo, mas que não nutrem o organismo. Ser criteriosa na procedência das comidas, a fim de não consumir substancias danosas à saúde. Voltar ao tradicional feijão com arroz, alimento outrora consumido pelos nossos pais. Ser parcimoniosa com os fast-foods para evitar os perigos das gorduras trans. Diante das mesas que nos são preparadas, é valiosa a recomendação do Senhor, a qual parafraseamos: Nem só de guloseimas viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.