23 de nov de 2009

Calvino: 500 anos de nascimento

Não sou calvinista, pelo menos de acordo com a utilização comum do termo. Explico: costuma-se reconhecer uma pessoa como calvinista quando essa defende uma visão determinista da salvação. No palavreado recorrente são calvinistas todos os adeptos da doutrina que Deus elegeu, alguns antecipadamente para a salvação e outros para a condenação. Se essa for a definição de calvinista, eu, sinceramente, não posso ser contado entre eles. Aprendi lendo a Bíblia, bem como alguns mentores espirituais, dentre eles John Wesley e Charles Finney, que a salvação ainda que seja uma iniciativa divina, considera a possibilidade responsiva do ser humano por meio da fé.
Aprofundar o tema, ou mesmo torná-lo objeto de polêmica não é intenção dessas parcas linhas. Ademais, acredito que tal discussão não merece a atenção demasiada que se costuma dar. Partamos, então, para o que nos interessa: inicialmente considero reducionista defender que alguém seja calvinista somente pelo critério predestinacionista – rótulo dado aos cristãos que defendem a eleição incondicional de Deus. Os escritos de João Calvino excedem essa doutrina teológica. Penso que devido a tal redução, deixamos de dar ao célebre reformador o mérito devido que faça jus à sua vasta contribuição enquanto pensador cristão.
Neste ano de 2009 os evangélicos celebram os 500 anos de nascimento de Calvino. Esse teólogo protestante francês nasceu em 1509 na Picardia e estudou filosofia na Universidade de Paris, entre 1523 e 1527. Terminou o mestrado em teologia, mas por influência do pai, acabou se distanciado da teologia para cursar Direito. Quando seu pai faleceu, em 1531, Calvino se sentiu livre para dedicar-se exclusivamente à teologia. Em 1557, após tentativas de reforma na igreja em Paris, rompeu definitivamente com o papado. Resultante dessa ruptura, decidiu se mudar para Basel, na Suíça em 1536, onde iniciou a escrita e a publicação das Institutas. Em 1941 segue para Genebra, onde é encarregado de comandar um governo teocrático. Durante o período em que permaneceu em Genebra até sua morte em 1564, terminou as Institutas e comentou vários livros da Bíblia.
Considero Calvino uma entre as mentes brilhantes com as quais Deus presenteou a humanidade. Anos atrás tive a oportunidade de ler integralmente as Institutas. Ao concluir a leitura e compará-las com alguns célebres manuais de teologia da atualidade, percebi que esses têm pouco a acrescentar. Mas Calvino não foi apenas um teólogo sistemático, comentou expositivamente vários livros da Bíblia. Tive a experiência de ler alguns deles, dentre eles Romanos, I e II Corintios e I João, o suficiente para perceber a profundidade exegética do teólogo de Genebra. Evidentemente seus escritos não são inerrantes, por esse motivo, os cristãos precisam avaliá-los à luz da Escritura, a Palavra de Deus.
O próprio Calvino estava ciente dessa verdade, por isso, em seus embates contra o Romanismo, sempre apelava para a Escritura – Sola Scriptura. Na celebração dos seus quinhentos anos de nascimento, temos a oportunidade de repensar determinadas práticas eclesiásticas deste início de milênio. A voz de Calvino, sob o crivo da Palavra, ainda tem muito a ensinar. Seus princípios nos chamam, a partir do Evangelho, para uma vida de equilíbrio entre a fé e a razão, a lei e a graça, o conhecimento e a piedade. Em seu empreendimento na exposição da Escritura, conclama a igreja para que se entregue ao ministério da Palavra de Deus a fim de que possamos, a partir dela, ouvir o que o Espírito diz às igrejas.
Essas são apenas algumas dentre as várias contribuições de Calvino ao pensamento bíblico-teológico que fazem com que os evangélicos, na celebração dos seus 500 anos de nascimento, reconheçam sua relevância, mesmo aqueles, entre os quais me incluo, não são calvinistas.

1 de nov de 2009

Vivamos, MAS para Deus

Viver para sempre, eis um dos maiores anseios da humanidade. Houve um tempo em que a morte não assustava tanto as pessoas. Mas a influência do cientificismo redundou em angústia já que, para alguns, a vida não passa dessa existência finita. Diante dessa limitação existencial, resta perguntar: a vida tem algum sentido? Essa indagação pode facilmente ser encontrada nos ensaios filosóficos. A resposta, porém, está muito longe das especulações humanas. Os pensadores de todos os tempos tentaram, ainda que sem sucesso, esboçar uma saída para esse problema. Para os materialistas, viver é estar consciente da unicidade da realidade tangível. Para os poetas, é uma metáfora em constante construção. Para os místicos, um mistério ainda a ser desvendado.
Os cristãos, na sociedade na qual estão inseridos, também são desafiados a dar uma resposta a essa questão. Qual o significado do viver? A fonte de explanação cristã, a esse respeito, não está na especulação humana. Os manuais científicos pouco nos auxiliam nessa empreitada. Se dependermos deles, talvez concluiremos que não passamos de um aglomerado de células, ou quando muito, de um conjunto de órgãos. O fundamento cristão para o significado da vida está na Bíblia, a Palavra de Deus. Ela nos revela, logo nas primeiras páginas, que Deus é o doador da vida. Ele soprou em nós e nos deu o fôlego de vida. Não existe vida humana que não tenha partido dEle. O ensinamento bíblico revela que Deus não apenas nos deu a vida, mas que também nos sustem providencialmente em todos os momentos.
Para melhor entendermos essa verdade, façamos uma distinção necessária quanto ao significado do termo “vida” no cristianismo. No Novo Testamento grego existem duas palavras que distinguem bem esses significados. Uma delas é bios – que diz respeito à vida física – e a outra é zoe – associada à vida espiritual. De acordo com o texto bíblico, por causa da Queda humana no Éden, restou à humanidade apenas a consciência da vida física – a bios. Por essa razão, as pessoas distantes de Deus vivem como se tudo não passasse dessa esfera. As ações estão restritas ao nascer, viver e morrer, nada mais que isso. Essa dura realidade resulta em angústia, tristeza, depressão e desespero. Acabamos reduzidos a simples animais racionais, meros seres coisificados ou, nas palavras de certo filósofo, “seres-para-a-morte”.
Diante desse cenário pessimista, a revelação cristã nos traz um vislumbre de esperança. A morte – denominada biblicamente de inimiga – não mais assombra. O motivo é que essa foi tragada na vitória quando a Vida se manifestou. E a Vida, assim mesmo com V maiúsculo, não é apenas um conjunto de dogmas ou uma sistematização lógica. Trata-se de uma Pessoa, que João, em sua primeira Epístola, denomina de Palavra da Vida: Jesus. Ele é o caminho, a verdade e a Vida. Aquele que é, mesmo diante da tumba fria, a Ressurreição e a Vida. Qualquer pessoa que nEle crê, ainda que esteja morto, viverá. A vida humana, nesse contexto, não está restrita a bios – a vida física - ela transcende para o zoe, a vida espiritual.
É no encontro com Cristo, a própria Vida, que nós, anteriormente mortos, passamos a viver. Como disse Paulo aos crentes da Galácia, nós não mais vivemos, é o próprio Cristo que vive em nós. O apóstolo dos gentios revela que o Evangelho de Cristo é uma mensagem de liberdade, que nos livra dos jugos humanos, que nos coloca em contato direto com Deus através de Jesus Cristo. Essa liberdade, por sua vez, não admite a permissividade, a libertinagem e a falta de compromisso ético. Por isso, uma vez vivificados, precisamos, também, encarnar a figura desse mesmo Cristo. Não podemos mais viver para nós mesmos, fomos comprados por alto preço, não pertencemos a nós mesmos, portanto, devemos glorificar a Deus em nosso corpo.
Viver para Deus é viver no Espírito, é andar com Ele, não cumprindo os desejos desenfreados da natureza carnal. Ainda que esse proceder não resulte do esforço meramente humano, ou, como diz o profeta, não é por força nem por violência, mas pelo Espírito de Deus. Esse viver decorre de uma caminhada diária e contínua com o Espírito Santo, aprendendo com Ele e sendo por Ele guiado. Assim, na medida em que o tempo passa, parecemos menos conosco e nos assemelhamos mais ao caráter de Cristo. De modo que, como diz o Apóstolo, “o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, MAS para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (II Co. 5.14,15).