23 de ago de 2009

O Cristão e a Palavra

Na sua I Epístola a Timóteo, Paulo admoesta, várias vezes, ao jovem pastor a pregar a Palavra. O fundamento para essa recomendação está na utilidade da Escritura. A esse respeito diz o Apóstolo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (II Tm. 3.16,17). Paulo sabia que os seus dias na terra estavam se findando. Estava ciente que havia combatido o bom combate. Sua carreira estava praticamente na reta final. Preocupava-lhe somente com a conservação da sã doutrina, que a Palavra continuasse sendo pregada.
A preocupação de Paulo continua aplicável à realidade de muitas igrejas. Nos arraiais evangélicos brasileiros, a Bíblia começa a ser um artefato de segunda categoria. Certos templos ainda a mantêm apenas como um adorno em cima dos púlpitos. As experiências pessoais, principalmente os “tristemunhos” estão dando lugar a salutar exposição da Sagrada Escritura. O resultado é um círculo vicioso: os líderes não ensinam a Palavra, os crentes se tornam meninos, embriagam-se facilmente pelo emocionalismo, e exigem cada vez mais pastores que parecem apresentadores de programa de auditório. Os “artistas”, aqueles que agora se dizem evangélicos, que cobram valores vultosos para “pregar” nas igrejas, nos teatros e nos ginásios estão se aproveitando dessa situação.
Antes que seja tarde demais, é preciso retornar à Palavra de Deus. Jesus ensinou aos discípulos que é a Palavra que liberta o ser humano da condição pecaminosa. Ele mesmo instruiu quanto a necessidade do exame das Escrituras. Quando tentado por Satanás, apelou para a palavra. Respondeu ao diabo que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Após sua ressurreição, quando encontrou dois discípulos no caminho de Emaús, o Senhor expôs para eles as Escrituras, mostrando-lhes que Sua morte e ressurreição era cumprimento profético dos escritos bíblicos. Lucas diz que o coração deles ardia na medida em que explicava os textos sagrados. O coração deles foi reanimado pelas revelações de Deus trazidas pela Palavra.
Os cristãos dos dias atuais, como aqueles de Beréia, precisam valorizar o exame do texto bíblico. Mais que isso, seus corações precisam arder com a chama do Espírito quando estão diante da Palavra. Jesus disse que onde estivessem dois ou três reunidos em Seu nome ali Ele estaria. A presença de Cristo em nós se dá pela manifestação do Espírito, mas esse atua pela Palavra. Os adoradores que Deus busca, disse o Senhor, estão não apenas no espírito, mas também na verdade. Precisamos quebrar o círculo vicioso que se instaurou em muitas igrejas evangélicas. Para tanto, os crentes devem voltar a ler a Bíblia. Alguns dizem que sentem sono quando se aproximam desse Livro. Isso não deve ser justificativa para não ler. Talvez a saída seja lê-lo nas primeiras horas da manhã, quando o sono já se foi e não antes de dormir.
Há quem justifique, como fez o eunico no caminho de Candace, que não entende o que ler. Nesse caso, apelemos para os “felipes” da igreja, isto é, para aqueles mais experientes que possam nos auxiliar na compreensão do texto. Uma saída inicial, principalmente para aqueles que têm maior dificuldade, é adquirir uma tradução na linguagem de hoje, não para a leitura no culto eclesiástico, mas para os momentos de devoção em casa, ou mesmo para comparar com as traduções clássicas. Outros “felipes” que podem nos ajudar são os dicionários e comentários bíblicos. Os ensinamentos desse material podem ser de bastante utilidade à compreensão e interpretação do texto. É necessário, porém, ressaltar que esses não são inspirados, portanto, devem ser avaliados a partir do crivo geral da Escritura.
Mas qual o real propósito do estudo bíblico para o cristão? Definitivamente, Deus não quer que sejamos apenas enciclopédias ambulantes. Conforme instruiu Paulo a Timóteo, o que serve também para nós hoje, toda Escritura, soprada pelo Espírito, é útil. Essa utilidade não acontece quando ela está na estante ou mesmo aberta para espantar os poderes malignos, mas na vida daqueles que a lêem. Quando meditamos na Escritura, ela passa a ser genuíno leite para o espírito raquítico, lâmpada para os pés daqueles que estão trilhando caminhos de densas trevas, remédio para as almas adoecidas pelos males angustiantes deste século, vida eterna para aquele que já perdeu a esperança.
O propósito primordial da Escritura é que sejamos santificados e aptos para desenvolver a obra de Deus. Como bem disse D. L. Moody: “A Bíblia não nos foi dada apenas para aumentar nosso conhecimento, mas para mudar nossa vida”.