29 de jun de 2009

Graça no casamento

Qual o segredo de um casamento bem sucedido? Essa é a pergunta que alimenta uma série de palestras e publicações. A resposta para essa pergunta depende das cosmovisões daqueles que pretendem respondê-la. Na sociedade moderna, podemos destacar quatro componentes usados como critérios para avaliar os casamentos. O primeiro deles é o sexo, o segundo é a beleza física, o terceiro é a condição financeira, o quarto e último o romantismo. A princípio, destacamos que esses fatores podem ter alguma importância, mas, por outro lado, veremos que não são imprescindíveis ao relacionamento conjugal. Especialmente se ponderarmos a respeito deles a partir de uma abordagem cristã.
O sexo tem o seu devido lugar no casamento. Ao contrário do que defendem certos puristas, Deus criou o homem e a mulher não apenas para a procriação. O prazer sexual no casamento é digno de honra e para a satisfação mutua. Mas como o homem tem uma tendência a deturpar tudo que Deus criou de bom, o sexo acabou sendo endeusado, acarretando conseqüências drásticas à sociedade. A banalização do sexo objetificou os seres humanos, que acabam sendo usados e descartados de acordo com as conveniências e necessidades. Entre os cristãos, alguns jovens, apelando para Paulo, dizem que precisam se casar imediatamente a fim de não se abrasarem. Suas atitudes precipitadas poderão se transformar em problemas quando descobrirem que o relacionamento conjugal não se restringe ao sexo.
A beleza física também é outro engano que a mídia tenta impor como padrão. Os atores de cinema, da televisão e das revistas são esguios, têm corpos simétricos e rostos definidos. Muito diferente do que vemos no dia-a-dia, basta olhar ao redor para ver que os padrões de beleza estipulados pelos meios de comunicação estão muito longe da maioria. Muitos jovens se iludem com esses modelos que nos são repassados diariamente. O resultado é um processo de idealização que leva à frustração, bem como à inversão de valores. O cônjuge ideal, ao invés de ser avaliado pelo caráter, é buscado a partir dos atributos externos, e esses, justamente, são os que costumam definhar ao longo da existência. Não por acaso, muitos deixam seus cônjuges assim que começam a perceber as primeiras rugas.
A condição financeira, desde anos remotos, assume condição fundamental no enlace matrimonial. Basta lembrar que antigamente os pais escolhiam uma esposa para os filhos de acordo com o dote a ser recebido. Essa prática ainda persiste em alguns países, em outros, acontece, mas de forma velada. Encontrar um “bom partido” continua sendo um sonho para alguns pais. Não descartamos a necessidade de uma avaliação financeira responsável antes de adentrar a um relacionamento conjugal. Por outro lado, sonhar com uma situação socioeconômica abastarda como fator decisivo para o casamento é uma atitude de egoísmo. Diferenças significativas nesse particular podem muito bem gerar um quadro de jugo desigual. Cônjuges cristãos devem considerar que uma conta bancária vultosa não garante felicidade conjugal.
O fundamento para um casamento feliz, há quem defenda, está no romantismo. Algumas práticas românticas sugeridas seriam: fazer declarações contínuas de amor ao cônjuge, abrir a porta do carro para a mulher entrar, lembrar das datas importantes e mandar flores, declamar poesias e espalhar bilhetes por toda casa. Atitudes como essas são louváveis e devem ser estimuladas. Porém, a vida conjugal não é feita apenas de momentos românticos. Os casais, mesmo os cristãos, não estão imunes às crises. Nessas horas, as declarações de amor ficam embargadas, a gentileza dá lugar às murmurações, as flores, as poesias e os bilhetes perdem o sentido. Quando isso acontece, a menos que os cônjuges tenham maturidade para superar as adversidades, o casamento pode se tornar um conto de fadas às avessas.
Um casamento bem sucedido, dentro de uma cosmovisão cristã, se fundamenta na graça. Não por acaso essa palavra – charis em grego – tenha uma conotação tão importante no cristianismo, cujo significado é “favor imerecido”. Ter graça significa ver o outro não pelo que ele é ou pelo que tem. No relacionamento conjugal cristão, a graça, por sua própria natureza, é um princípio basilar. É por graça que o cônjuge aceita o outro quando o interesse sexual não mais existe ou que por alguma condição física não mais pode ser concretizado.
É pela graça que o cônjuge, ainda que tenha respaldo bíblico para se divorciar, prefere acatar o arrependimento e liberar o perdão ao outro. É pela graça que o jovem que não tem os traços de beleza impostos pela mídia é aceito pela mulher amada. É pela graça que os cônjuges, mesmo sem uma condição financeira favorável, desfrutam de momentos agradáveis e aprendem a transformar as privações em bênçãos. É pela graça que casais, mesmo quando as atitudes românticas se tornam escassas, buscam maneiras para compensá-las e encontrar motivos para continuarem juntos. Essa é a graça do casamento.