24 de mai de 2009

A desbabelização pelo agape

O autor do Gênesis, no capítulo 11, narra como aconteceu o processo da diversidade lingüística. É claro que não há, nesse relato, uma preocupação com a cientificidade do fenômeno, do modo como o fazem os lingüistas. Temos, nessa passagem bíblica, uma revelação espiritual do intento humano de obter êxito distante de Deus. Para contextualizar, é preciso entender que no capítulo anterior Deus havia livrado Noé e sua família do dilúvio. A humanidade, por não acreditar nas palavras de advertência do velho profeta, pereceu nas águas.
Diante disso, a geração que sucedeu ao dilúvio, resolveu encontrar uma forma de ludibriar Deus. Construiu uma torre que fosse capaz de alcançar as alturas. E caso as águas das chuvas descessem em abundância, como havia acontecido anteriormente, estariam todos protegidos, poderiam até caçoar do Criador. O trabalho que envolveu a construção daquele monumento não deva ter sido fácil. Para cumprir os objetivos propostos, todas as etapas foram friamente calculadas. Os planos humanos, ao que tudo indica, seguiam a contento. Até que, repentinamente, ninguém mais se compreendia. Um pedia pedra, o outro, em resposta, trazia barro.
Essa torre é biblicamente nomeada de Babel, termo cujo sentido etimológico é o de confusão. Essa narrativa figura bem com a situação atual em que a sociedade moderna se encontra. Parece até que estamos todos envolvidos na construção de uma nova torre de Babel. Os homens, em seus interesses, não medem esforços para chegar ao ápice. Para alguns, o “céu é o limite” e, se for o caso, “viver sem fronteiras”. Paradoxalmente, mesmo com toda tecnologia disponível, não conseguimos nos entender melhor. Compramos aparelhos celulares, temos internet de alta velocidade, informações instantâneas na televisão e mesmo assim não “falamos a mesma língua”.
Diferentemente dos construtores da Torre de Babel de Gênesis 11, precisamos ouvir a Voz de Deus. Enquanto as palavras humanas são polifônicas - e que assim o seja para que não incorramos o risco da arrogância – a de Deus é definitiva, na verdade, Ele é a própria Palavra. João, no prólogo do evangelho que traz o seu nome, diz que a Palavra se fez Carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. O contrário da Torre da Babel é a descida de Deus à terra. Cristo é a Palavra que se fez carne, no Seu Espírito repousa a possibilidade da compreensão humana. Basta ver a narrativa lucana de Atos 2. O Espírito Santo desce e línguas repartidas como de fogo são distribuídas sobre as cabeças dos presentes. Mais assombroso ainda é a glossolalia, isto é, a diversidade lingüística não impede a compreensibilidade da mensagem do evangelho de Cristo.
Em Atos aconteceu o contrário do fenômeno de Babel. Poderíamos dizer que houve uma desbabelização, uma espécie de desconfusão. É na Palavra de Cristo que toda incompreensão é desfeita. Nele podemos encontrar a plenitude da comunicação. E essa, ainda que se dê pelas palavras, é conduzida pela ética do Cristo. Essa ética está reduzida numa palavra pouco compreendida e traduzida com dificuldade para a língua portuguesa, devido ao valor específico que tem no sistema lingüístico grego, trata-se da palavra “ágape”. Nas Bíblias ela costuma ser traduzida como amor, algumas vezes por caridade. O problema é que, em português, amor pode ser uma imensidão de coisas.
No grego do Novo Testamento, “ágape” é a dimensão do amor maior, é por sua peculiaridade divina, desinteressado, eminentemente voltado para o outro. Só há uma forma de desfazer a maldição de Babel, é investirmos no “ágape”. Em I Co. 13.4-7, Paulo diz que esse agape “é sofredor, é benigno; não é invejoso; não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A idéia central desse texto, e do processo de desbabelização, não é subir, mas descer, está voltado na direção do outro, tem a coragem de sacrificar-se, de abrir mãos dos interesses particulares para que o outro se dê bem. Alguém pode até dizer que isso é mera utopia, talvez dissessem o mesmo de Noé nos dias que antecipavam o dilúvio.