22 de mar de 2009

Amizade verdadeira

Nunca foi tão difícil encontrar amigos de verdade. Não por acaso, uma das séries televisivas americanas de maior sucesso nesses últimos anos trata a respeito desse tema. Para alguns especialistas em comportamento humano, o êxito da série friends (amigos em inglês) justifica-se porque as pessoas procuram, na tela, algo que lhes falta no cotidiano. E, de fato, encontrar amigos de verdade é tarefa cada vez mais complicada. Talvez, por isso, poetas como Vinícius de Morais e Milton Nascimento cantem a amizade com tanta beleza. Nos tempos da Renascença, os relacionamentos entre amigos tinham conotações tão poéticas que costumavam ser confundidas com homossexualidade. Esses laços são facilmente encontrados nas peças do dramaturgo William Shakespeare.
A confusão entre amizade e homossexualidade é também identificada em alguns posicionamentos em relação à Bíblia. Há que defenda, por exemplo, que a amizade entre Jonatas e Davi tinha um caráter homossexual. Essa tendência, ao que tudo indica, é resultante de uma sociedade que perdeu esse vínculo e que descarta a possibilidade de que dois homens possam ser amigos de verdade. Jonatas era um amigo fiel e não media esforços para, se fosse o caso, se sacrificar por Davi, e o fez algumas vezes a fim de preservá-lo quando ameaçado pelo rei Saul, pai de Jonatas. Durante toda a sua vida, Davi esteve ao lado de Jonatas, e mesmo depois da morte do seu amigo, quando assumiu o trono de Israel, prestou-lhe homenagem através do seu filho paralítico Mefibosete.
O maior exemplo de amizade na Bíblia, porém, não é o de Davi e Jonatas. Jesus, certamente, é o grande modelo de amizade verdadeira. Entre os seus discípulos, fez questão de tratá-los não como servos, mas como amigos. Ele desejava o melhor para eles, e, por isso, investia em seu relacionamento. O fundamento da amizade de Jesus era o amor. A prova maior desse amor foi o sacrifício vicário, isto é, substitutivo pelos pecados não só daqueles, mas de todos aqueles que hoje se aproximam dele e também o chama de amigo. Há um belíssimo hino cristão, com o título de “amigo”, da autoria de Sérgio Lopes, que retrata bem essa verdade: “O amigo que eu encontrei, me surpreendeu, quando todos me deixaram ele me acolheu ... quem pode ser melhor amigo que o Senhor que pelo servo a própria vida renunciou?”.
Se Jesus é o verdadeiro modelo de amizade, nós, nesses tempos, estamos perdendo as referências de amizade genuína. Não são poucos os que se aproximam das pessoas apenas para tirar algum proveito. Temos hoje um verdadeiro mercado de influências e o valor das pessoas é contabilizado pelos “laços” que elas têm com pessoas ricas ou poderosas. Os seres humanos são objetificados, deixam de valer pelo que são, passam a valer pelo que têm. E, quando não servem mais, são descartados como um copo de plástico. Essa triste realidade, entretanto, não deve nos privar da tentativa de construir amizades verdadeiras. Ainda que corramos o risco de nos decepcionarmos com as pessoas, ou, como aconteceu com Jesus, mesmo de ser traído, ainda vale a pena investir na amizade.
O sábio Salomão, autor do livro bíblico de Provérbios, sabia muito bem disso. Nos seus escritos, destacou várias vezes o valor da amizade. Declarou não poucas vezes que há amigos que são mais chegados do que um irmão. Ele sabia da dificuldade para se encontrar amigos sinceros. Por isso, nos instrui para que estejamos atentos, pois um grande amigo pode está mais perto do que se possa imaginar. Os interesses egoístas podem nublar nossos olhos para percebê-lo. Uma amizade verdadeira não começa de um dia para o outro, é resultante de dias de alegria, mas também de imperfeições compreendidas e de ombros partilhados nas horas da adversidade.
Para buscar um amigo de verdade precisamos, a princípio, ser um amigo de verdade. Essa é uma partilha que se desenrola ao longo da existência. Um amigo de verdade não é comprado por alguns reais em numa loja de conveniência. Ele é moldado nas duras circunstâncias da vida. Está sempre disposto a ajudar, e, mesmo quando for preciso, a ser francos, mas sempre o fará com amor, sobretudo com empatia. Bem aventurado aquele que é capaz de, na vida, ter amizades sinceras. Quem encontra um amigo pode ser comparado a um navio à deriva que chegou a um porto seguro, a ser surpreendido por um manancial de águas nas horas de sede intensa ou a sossegar debaixo de uma árvore após uma longa caminhada ao sol causticante. O sábio Salomão conhecia bem o valor de uma amizade verdadeira quando destacou: “em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão” (Pv. 17.17).