15 de fev de 2009

A atualidade do Eclesiastes

O livro de Eclesiastes está quase no meio da Bíblia. Tem pouco mais de dez capítulos, foi escrito há aproximadamente três mil anos. Escrito pelo velho Salomão, o mesmo que, na meia-idade, compôs os Provérbios, e, na juventude, o livro poético de Cantares. No alto de sua idoneidade e experiência de vida, o conceituado rei de Israel faz um balanço da existência humana a partir de tudo aquilo que viveu. O tom do texto está repleto de marcas de pessimismo, de modo que, algumas vezes, quando nos deparamos com as declarações do sábio, perguntamo-nos se ele, de algum modo, tinha esperança em Deus. Há ocasiões nas quais poderíamos nos atrever a questionar, como o fizeram alguns teólogos do passado, a razão pela qual esse livro adentrou ao cânon sagrado.
Ao reler esse livro nesses últimos dias, comecei a entender melhor o motivo para tal inclusão na composição da Bíblia. Mais que isso, apercebi-me de quão atual é sua mensagem, bem como seu real valor para a sociedade moderna. No início, o autor apresenta-se não apenas como rei, mas como um homem da assembléia, um pregador. Em seguida, lança suas palavras como flechas, propaga seus sermões como se esses fossem os últimos momentos de vida. Deixa claro, logo no preâmbulo, que tudo não passa de vaidade, ou conforme traduzido em certa versão para o português, que tudo não passa de uma corrida atrás do vento. Para esse pregoeiro, como no Estrangeiro de Albert Camus, ou em A Náusea de Jean Paul Sartre, é um tremendo absurdo.
A palavra vaidade, no livro de Eclesiastes, significa etmilogicamente “coisa vazia”, ou, numa acepção mais filosófica, algo desprovido de sentido. Paradoxalmente, aqueles dias de Salomão, semelhante aos que presenciamos atualmente, foram marcados pelos excessos e exuberâncias. Os judeus sempre aludiram àqueles tempos com saudade de sua extrema abundância material. Mesmo assim, o autor de Eclesiastes não parece satisfeito com todas as regalias que a prosperidade lhe oportunizava. Os prazeres resultantes da muita prata e ouro, as experiências sexuais com as muitas mulheres, o acúmulo de conhecimentos enciclopédicos e o poder que exercia diante dos seus súditos não preenchiam o vazio de sua alma. Remetendo à letra de uma antiga canção do Rolling Stones, o rei de Israel não encontrou, em todos esses prazeres, qualquer Satisfaction [Satisfação].
O livro de Eclesiastes é contemporâneo justamente por esse motivo. Ele confronta a sociedade moderna que pauta seus valores no hedonismo. Elegemos o prazer como a única razão de ser da existência humana. Em alguns casos, na tentativa de satisfazer nossos instintos egoístas, levamos nossas ações às últimas conseqüências, causando sofrimento e dor àqueles que nos cercam. O espírito de competitividade do homem moderno, sua ânsia exacerbada pelo sucesso, seu desejo irrealizável por prosperidade só provoca frustração e desânimo. Como no mito de Sísifo, temos a impressão, em certos momentos, que não estamos acrescentando coisa alguma à existência.
Enquanto lia o Eclesiastes, lembrei-me de um curto, e ao mesmo tempo, de grande provocação do poeta americano Robert Frost. Diz ele: “Dançamos em círculo, e supomos, mas o Segredo está sentado no meio e ele o sabe”. Essa poderia muito bem ser a conclusão para a qual o autor desse livro tão provocante nos conduz ainda que esse seja o argumento utilizando ao longo da composição. Pelo contrário, nas linhas finais do seu escrito ele deixa clara a sua intenção e nelas deparo-me com o motivo pelo qual o Eclesiastes pode hoje fazer parte da Bíblia. O homem da assembléia reconhece que fomos criados, por Deus, para o prazer, mas não devemos viver exclusivamente para ele. É preciso que haja uma dimensão ética para a existência humana, por isso, é preciosa a declaração do homem da assembléia: “Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Ec. 12.13). Essa afirmação ressoa na voz de um dos personagens dos Irmãos Karamazov de Dostoievsky: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. O temor a Deus, em amor, é o princípio da sabedoria. Não podemos desprezar, para nosso bem próprio e do próximo, a instrução do Senhor. Nessa premissa encontramos o verdadeiro sentido da existência humana.