19 de jan de 2009

E-mail a um jovem pregador

Somente hoje pude abrir o seu e-mail. Alegrei-me ao perceber seu interesse pela pregação. Agradeço também pela confiança em mim depositada. Espero fazer jus às suas inquietações e guiá-lo nesse importante ministério. Inicialmente, entendo que a pregação é um dos mais primorosos ministérios da igreja. Não concordo com os que argumentam que no céu haverá apenas espaço para o louvor. Essa justificativa tem dado margem para uma cantarola exagerada em muitas celebrações. A palavra sempre terá lugar, por toda eternidade, pois Cristo é o Logos e Ele subsiste para sempre. Portanto, renegar a Palavra de Deus é desconsiderar a atuação eterna do próprio Jesus.
Por isso, não se afaste desse ministério, mas, conforme Paulo instruiu o jovem Timóteo, não se distancie da leitura da Bíblia. Não se satisfaça com pouco, separe todo o momento disponível que tiver para a meditação. Faça anotações pessoais, leia os comentários bíblicos disponíveis, estude a Palavra, não apenas com a mente, exercite também o coração. Para tanto, antes de ler, devote algum tempo para a oração, peça ao Senhor para abrir o seu entendimento, demonstre humildade, e principalmente, disponibilidade para obedecer. Não busque conhecimentos apenas para os outros, aplique as verdades reveladas pelo Espírito inicialmente a você mesmo, depois poderá pensar em como levar adiante esse conteúdo à igreja.
Aconselho-o a evitar que a pregação se torne uma profissão. Não que isso seja um pecado em sua essência. Conheço excelentes pregadores que vivem do evangelho que pregam e levam a sério o chamado que receberam de Deus. Esse, porém, é um caminho difícil e nem todos conseguem trilhá-lo sem mácula. A tentação pelo dinheiro, fama e poder está à espreita de todos aqueles que militam na causa do evangelho. Por isso, recomendo que não abandone os seus estudos regulares no ensino médio, e posteriormente, na universidade, pois se o Senhor o chamou para pregar, irá fazer com que os conhecimentos adquiridos nessas instituições sejam proveitosos no ministério da pregação.
Tente conciliar as atribuições, continue estudando, e ao mesmo tempo, exercitando a pregação na igreja. Antes que eu me esqueça, permita-me definir o que entendo por pregação e fazer alguma relação com o ensino. Não costume diferenciar uma da outra, na verdade, não consigo desassociar pregação do ensino. Jesus e Paulo pregavam e ensinavam ao mesmo tempo. A diferença está apenas na audiência, isto é, a quem dirigimos a mensagem. Se falarmos para não convertidos, estaremos pregando a Palavra, estaremos ensinando os pecadores o caminho da salvação. Se nos dirigirmos aos crentes da igreja, estaremos ensinando o caminho da maturidade cristã.
Em ambas as situações não podemos desprezar a fonte primária da revelação cristã, a Bíblia. Se você quiser ser um pregador digno de crédito, não se aparte do livro sagrado. É possível que nesse aspecto esteja sendo repetitivo, o motivo dessa recorrência é devido a relevância que atribuo a esse aspecto. A pregação e o ensino não devem ser produto das experiências pessoais, de filosofias humanas e esotéricas, não devam se restringir a estórias. Esses elementos podem auxiliar como recurso ilustrativo, mas não devem ditar o roteiro da pregação. A pregação eficaz não é aquela que anima as pessoas, que atrai a atenção dos ouvintes, mas a que se coaduna com a verdade bíblica.
Por isso, seja o mais fiel possível ao texto bíblico, se assim o fizer, evitará que suas pressuposições ou interesses dos ouvintes sejam postos em primeiro plano. Esse é um desafio a ser vencido, pois haverá situações nas quais você não gozará dos aplausos da maioria. Digo isso porque começamos a testemunhar os tempos a respeito dos quais Paulo falou a Timóteo em que muitos não mais suportariam a sã doutrina, e, por isso, dariam ouvidos aos pregadores detentores de mensagens aprazíveis aos seus egos insaciáveis. Por fim, tente buscar inspiração na biografia de alguns pregadores históricos que muito contribuíram para a história da igreja. Talvez você ainda não tenha ouvido falar em homens como Charles Spurgeon, John Wesley, Jonathan Edwards e Billy Graham. O conhecimento da pregação desses homens o motivará a busca um grau maior de excelência nesse ministério.
Consoante ao exposto, como disse no início, espero que o Senhor tenha me dirigido nesse aconselhamento e saiba que estarei orando pelo desenvolvimento do seu exercício na pregação. Enquanto isso, faça a sua parte, aproxime-se cada vez mais do Espírito Santo, busque-O e se disponha a ouvir o que Ele quer dizer, primeiramente a você, depois aos outros, através à luz da Sua Palavra. Não tenha medo e muito menos vergonha do Evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus e salvação para todo aquele que crer. Seja um fiel mordomo de tudo aquilo que o Senhor tem colocado em suas mãos. Dedique-se à leitura da Bíblia e de bons livros que inspirem à sábia exposição da Escritura. Não garanto que fazendo assim você atrairá as multidões, na verdade, não creio que essa seja a motivação primordial da pregação cristã.
Contente-se em saber que está no centro da vontade de Deus