23 de nov de 2009

Calvino: 500 anos de nascimento

Não sou calvinista, pelo menos de acordo com a utilização comum do termo. Explico: costuma-se reconhecer uma pessoa como calvinista quando essa defende uma visão determinista da salvação. No palavreado recorrente são calvinistas todos os adeptos da doutrina que Deus elegeu, alguns antecipadamente para a salvação e outros para a condenação. Se essa for a definição de calvinista, eu, sinceramente, não posso ser contado entre eles. Aprendi lendo a Bíblia, bem como alguns mentores espirituais, dentre eles John Wesley e Charles Finney, que a salvação ainda que seja uma iniciativa divina, considera a possibilidade responsiva do ser humano por meio da fé.
Aprofundar o tema, ou mesmo torná-lo objeto de polêmica não é intenção dessas parcas linhas. Ademais, acredito que tal discussão não merece a atenção demasiada que se costuma dar. Partamos, então, para o que nos interessa: inicialmente considero reducionista defender que alguém seja calvinista somente pelo critério predestinacionista – rótulo dado aos cristãos que defendem a eleição incondicional de Deus. Os escritos de João Calvino excedem essa doutrina teológica. Penso que devido a tal redução, deixamos de dar ao célebre reformador o mérito devido que faça jus à sua vasta contribuição enquanto pensador cristão.
Neste ano de 2009 os evangélicos celebram os 500 anos de nascimento de Calvino. Esse teólogo protestante francês nasceu em 1509 na Picardia e estudou filosofia na Universidade de Paris, entre 1523 e 1527. Terminou o mestrado em teologia, mas por influência do pai, acabou se distanciado da teologia para cursar Direito. Quando seu pai faleceu, em 1531, Calvino se sentiu livre para dedicar-se exclusivamente à teologia. Em 1557, após tentativas de reforma na igreja em Paris, rompeu definitivamente com o papado. Resultante dessa ruptura, decidiu se mudar para Basel, na Suíça em 1536, onde iniciou a escrita e a publicação das Institutas. Em 1941 segue para Genebra, onde é encarregado de comandar um governo teocrático. Durante o período em que permaneceu em Genebra até sua morte em 1564, terminou as Institutas e comentou vários livros da Bíblia.
Considero Calvino uma entre as mentes brilhantes com as quais Deus presenteou a humanidade. Anos atrás tive a oportunidade de ler integralmente as Institutas. Ao concluir a leitura e compará-las com alguns célebres manuais de teologia da atualidade, percebi que esses têm pouco a acrescentar. Mas Calvino não foi apenas um teólogo sistemático, comentou expositivamente vários livros da Bíblia. Tive a experiência de ler alguns deles, dentre eles Romanos, I e II Corintios e I João, o suficiente para perceber a profundidade exegética do teólogo de Genebra. Evidentemente seus escritos não são inerrantes, por esse motivo, os cristãos precisam avaliá-los à luz da Escritura, a Palavra de Deus.
O próprio Calvino estava ciente dessa verdade, por isso, em seus embates contra o Romanismo, sempre apelava para a Escritura – Sola Scriptura. Na celebração dos seus quinhentos anos de nascimento, temos a oportunidade de repensar determinadas práticas eclesiásticas deste início de milênio. A voz de Calvino, sob o crivo da Palavra, ainda tem muito a ensinar. Seus princípios nos chamam, a partir do Evangelho, para uma vida de equilíbrio entre a fé e a razão, a lei e a graça, o conhecimento e a piedade. Em seu empreendimento na exposição da Escritura, conclama a igreja para que se entregue ao ministério da Palavra de Deus a fim de que possamos, a partir dela, ouvir o que o Espírito diz às igrejas.
Essas são apenas algumas dentre as várias contribuições de Calvino ao pensamento bíblico-teológico que fazem com que os evangélicos, na celebração dos seus 500 anos de nascimento, reconheçam sua relevância, mesmo aqueles, entre os quais me incluo, não são calvinistas.

1 de nov de 2009

Vivamos, MAS para Deus

Viver para sempre, eis um dos maiores anseios da humanidade. Houve um tempo em que a morte não assustava tanto as pessoas. Mas a influência do cientificismo redundou em angústia já que, para alguns, a vida não passa dessa existência finita. Diante dessa limitação existencial, resta perguntar: a vida tem algum sentido? Essa indagação pode facilmente ser encontrada nos ensaios filosóficos. A resposta, porém, está muito longe das especulações humanas. Os pensadores de todos os tempos tentaram, ainda que sem sucesso, esboçar uma saída para esse problema. Para os materialistas, viver é estar consciente da unicidade da realidade tangível. Para os poetas, é uma metáfora em constante construção. Para os místicos, um mistério ainda a ser desvendado.
Os cristãos, na sociedade na qual estão inseridos, também são desafiados a dar uma resposta a essa questão. Qual o significado do viver? A fonte de explanação cristã, a esse respeito, não está na especulação humana. Os manuais científicos pouco nos auxiliam nessa empreitada. Se dependermos deles, talvez concluiremos que não passamos de um aglomerado de células, ou quando muito, de um conjunto de órgãos. O fundamento cristão para o significado da vida está na Bíblia, a Palavra de Deus. Ela nos revela, logo nas primeiras páginas, que Deus é o doador da vida. Ele soprou em nós e nos deu o fôlego de vida. Não existe vida humana que não tenha partido dEle. O ensinamento bíblico revela que Deus não apenas nos deu a vida, mas que também nos sustem providencialmente em todos os momentos.
Para melhor entendermos essa verdade, façamos uma distinção necessária quanto ao significado do termo “vida” no cristianismo. No Novo Testamento grego existem duas palavras que distinguem bem esses significados. Uma delas é bios – que diz respeito à vida física – e a outra é zoe – associada à vida espiritual. De acordo com o texto bíblico, por causa da Queda humana no Éden, restou à humanidade apenas a consciência da vida física – a bios. Por essa razão, as pessoas distantes de Deus vivem como se tudo não passasse dessa esfera. As ações estão restritas ao nascer, viver e morrer, nada mais que isso. Essa dura realidade resulta em angústia, tristeza, depressão e desespero. Acabamos reduzidos a simples animais racionais, meros seres coisificados ou, nas palavras de certo filósofo, “seres-para-a-morte”.
Diante desse cenário pessimista, a revelação cristã nos traz um vislumbre de esperança. A morte – denominada biblicamente de inimiga – não mais assombra. O motivo é que essa foi tragada na vitória quando a Vida se manifestou. E a Vida, assim mesmo com V maiúsculo, não é apenas um conjunto de dogmas ou uma sistematização lógica. Trata-se de uma Pessoa, que João, em sua primeira Epístola, denomina de Palavra da Vida: Jesus. Ele é o caminho, a verdade e a Vida. Aquele que é, mesmo diante da tumba fria, a Ressurreição e a Vida. Qualquer pessoa que nEle crê, ainda que esteja morto, viverá. A vida humana, nesse contexto, não está restrita a bios – a vida física - ela transcende para o zoe, a vida espiritual.
É no encontro com Cristo, a própria Vida, que nós, anteriormente mortos, passamos a viver. Como disse Paulo aos crentes da Galácia, nós não mais vivemos, é o próprio Cristo que vive em nós. O apóstolo dos gentios revela que o Evangelho de Cristo é uma mensagem de liberdade, que nos livra dos jugos humanos, que nos coloca em contato direto com Deus através de Jesus Cristo. Essa liberdade, por sua vez, não admite a permissividade, a libertinagem e a falta de compromisso ético. Por isso, uma vez vivificados, precisamos, também, encarnar a figura desse mesmo Cristo. Não podemos mais viver para nós mesmos, fomos comprados por alto preço, não pertencemos a nós mesmos, portanto, devemos glorificar a Deus em nosso corpo.
Viver para Deus é viver no Espírito, é andar com Ele, não cumprindo os desejos desenfreados da natureza carnal. Ainda que esse proceder não resulte do esforço meramente humano, ou, como diz o profeta, não é por força nem por violência, mas pelo Espírito de Deus. Esse viver decorre de uma caminhada diária e contínua com o Espírito Santo, aprendendo com Ele e sendo por Ele guiado. Assim, na medida em que o tempo passa, parecemos menos conosco e nos assemelhamos mais ao caráter de Cristo. De modo que, como diz o Apóstolo, “o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, MAS para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (II Co. 5.14,15).

23 de ago de 2009

O Cristão e a Palavra

Na sua I Epístola a Timóteo, Paulo admoesta, várias vezes, ao jovem pastor a pregar a Palavra. O fundamento para essa recomendação está na utilidade da Escritura. A esse respeito diz o Apóstolo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (II Tm. 3.16,17). Paulo sabia que os seus dias na terra estavam se findando. Estava ciente que havia combatido o bom combate. Sua carreira estava praticamente na reta final. Preocupava-lhe somente com a conservação da sã doutrina, que a Palavra continuasse sendo pregada.
A preocupação de Paulo continua aplicável à realidade de muitas igrejas. Nos arraiais evangélicos brasileiros, a Bíblia começa a ser um artefato de segunda categoria. Certos templos ainda a mantêm apenas como um adorno em cima dos púlpitos. As experiências pessoais, principalmente os “tristemunhos” estão dando lugar a salutar exposição da Sagrada Escritura. O resultado é um círculo vicioso: os líderes não ensinam a Palavra, os crentes se tornam meninos, embriagam-se facilmente pelo emocionalismo, e exigem cada vez mais pastores que parecem apresentadores de programa de auditório. Os “artistas”, aqueles que agora se dizem evangélicos, que cobram valores vultosos para “pregar” nas igrejas, nos teatros e nos ginásios estão se aproveitando dessa situação.
Antes que seja tarde demais, é preciso retornar à Palavra de Deus. Jesus ensinou aos discípulos que é a Palavra que liberta o ser humano da condição pecaminosa. Ele mesmo instruiu quanto a necessidade do exame das Escrituras. Quando tentado por Satanás, apelou para a palavra. Respondeu ao diabo que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Após sua ressurreição, quando encontrou dois discípulos no caminho de Emaús, o Senhor expôs para eles as Escrituras, mostrando-lhes que Sua morte e ressurreição era cumprimento profético dos escritos bíblicos. Lucas diz que o coração deles ardia na medida em que explicava os textos sagrados. O coração deles foi reanimado pelas revelações de Deus trazidas pela Palavra.
Os cristãos dos dias atuais, como aqueles de Beréia, precisam valorizar o exame do texto bíblico. Mais que isso, seus corações precisam arder com a chama do Espírito quando estão diante da Palavra. Jesus disse que onde estivessem dois ou três reunidos em Seu nome ali Ele estaria. A presença de Cristo em nós se dá pela manifestação do Espírito, mas esse atua pela Palavra. Os adoradores que Deus busca, disse o Senhor, estão não apenas no espírito, mas também na verdade. Precisamos quebrar o círculo vicioso que se instaurou em muitas igrejas evangélicas. Para tanto, os crentes devem voltar a ler a Bíblia. Alguns dizem que sentem sono quando se aproximam desse Livro. Isso não deve ser justificativa para não ler. Talvez a saída seja lê-lo nas primeiras horas da manhã, quando o sono já se foi e não antes de dormir.
Há quem justifique, como fez o eunico no caminho de Candace, que não entende o que ler. Nesse caso, apelemos para os “felipes” da igreja, isto é, para aqueles mais experientes que possam nos auxiliar na compreensão do texto. Uma saída inicial, principalmente para aqueles que têm maior dificuldade, é adquirir uma tradução na linguagem de hoje, não para a leitura no culto eclesiástico, mas para os momentos de devoção em casa, ou mesmo para comparar com as traduções clássicas. Outros “felipes” que podem nos ajudar são os dicionários e comentários bíblicos. Os ensinamentos desse material podem ser de bastante utilidade à compreensão e interpretação do texto. É necessário, porém, ressaltar que esses não são inspirados, portanto, devem ser avaliados a partir do crivo geral da Escritura.
Mas qual o real propósito do estudo bíblico para o cristão? Definitivamente, Deus não quer que sejamos apenas enciclopédias ambulantes. Conforme instruiu Paulo a Timóteo, o que serve também para nós hoje, toda Escritura, soprada pelo Espírito, é útil. Essa utilidade não acontece quando ela está na estante ou mesmo aberta para espantar os poderes malignos, mas na vida daqueles que a lêem. Quando meditamos na Escritura, ela passa a ser genuíno leite para o espírito raquítico, lâmpada para os pés daqueles que estão trilhando caminhos de densas trevas, remédio para as almas adoecidas pelos males angustiantes deste século, vida eterna para aquele que já perdeu a esperança.
O propósito primordial da Escritura é que sejamos santificados e aptos para desenvolver a obra de Deus. Como bem disse D. L. Moody: “A Bíblia não nos foi dada apenas para aumentar nosso conhecimento, mas para mudar nossa vida”.

26 de jul de 2009

Na companhia dos livros

Eles me acompanham aonde vou. Aguardando a vez no banco. Na fila do supermercado. Os livros estão sempre à mão. Fico angustiado quando estou em algum lugar sem um livro para ler. Esse fascínio teve início ainda na infância quando descobri os livros de Monteiro Lobato. Antes do Sítio do Pica Pau Amarelo ir para a tela da televisão, eu já conhecia as reinações de Narizinho e já admirava a sabedoria do Visconde de Sabugosa. No início da adolescência me presentearam com livro de Pedro Bloch, intitulado “Pai, me compra um amigo”. Identifiquei-me imediatamente com a estória de um menino solitário chamado Roberto que recebe um cachorro de presente do Pai.
Na medida em que o tempo passava, os interesses pelos temas variaram. As biografias passaram a fazer parte da lista de leituras. A maioria deles era obtida na pequena biblioteca municipal. Uns poucos eram comprados por minha mãe que abria mão da parca economia para retirá-los do correio. Nesse mesmo período descobri a poesia vibrante de Castro Alves a quem aprendi a admirar. Nos tempos de fé católica, devorei quase todos os livros do Pe. Zezinho. Devido aos seus aconselhamentos psicológicos, os anos difíceis da adolescência foram menos conturbados. Quando me tornei evangélico, nos idos de 1987, adquiri três livros fundamentais: Teologia Sistemática - de Raimundo de Oliveira, Geografia Bíblica – de Claudionor de Andrade, e Heróis da Fé – de Orlando Boyer.
Esse último teve um impacto marcante naqueles dias iniciais de fé evangélica. Acompanhava com lágrimas a biografia de cada um daqueles cristãos fervorosos: Martinho Lutero, Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, John Wesley, entre outros. O Pr. Deusdete e o irmão Natan – meus discipuladores na fé – também me emprestavam livros. Desse ultimo usufrui de sua vasta biblioteca, principalmente dos livros de aconselhamento para juventude. Relembrando aqueles tempos, comparo com o momento atual. Estamos em plena efervescência da tecnologia. Dizem até que os livros sairão de circulação. Serão substituídos por mídias eletrônicas. Para alguns especuladores, investir em livros não passa de desperdício. Ainda que tenham certa razão, prefiro acreditar na sobrevida dos livros. Mesmo que seja “perda de dinheiro” para alguns, cada exemplar dos meus livros é um tesouro, o valor deles é pessoal, transcende as avaliações do mercado.
Tempos atrás, por falta de espaço, tive que me desfazer de alguns deles. Presenteei amigos e familiares e fiz algumas doações a bibliotecas. Os mais queridos continuam no seu devido lugar. Os clássicos da lingüística, literatura ou teologia têm espaço garantido na estante. Na área teológica, prefiro os comentários bíblicos: R. N. Champlin, Matthew Henry, Weirsbe e John Sttot, entre os devocionais destaco: Richard Foster, Eugene Peterson, Phillip Yancey e Brennan Menning. O conhecimento de outras línguas contribuiu bastante para a constituição do acervo em várias línguas, principalmente inglês, espanhol, francês e grego. Nos dias atuais, devido às facilidades da internet, e a queda do dólar, ficou mais fácil adquirir livros importados. Recebi recentemente, e já comecei a ler, todos os sermões de Charles Spurgeon em inglês.
Não consigo imaginar como teria sido minha vida sem os livros. Entristeço-me ao constatar que cada vez menos os jovens se dedicam à leitura de bons livros. Desperdiçam horas diante da televisão ou do computador. A realidade seria outra e o país seria diferente se as pessoas lessem mais. A reforma protestante aconteceu justamente ao redor de um livro e da máxima: sola scriptura. A Escritura, na verdade, não é qualquer livro, mas O LIVRO e esse ocupa lugar elevado na biblioteca. Tenho versões da Bíblia em vários idiomas, também nas línguas originais: hebraico e grego. Leio-a diariamente e tenho a profunda convicção de que ela não é apenas um best-seller. Inspirada pelo Espírito Santo, é útil e proveitosa para instruir a todos que querem crescer no conhecimento e na graça de Deus. Não é apenas um livro entre outros, é a revelação escrita de Deus, o testemunho profético e apostólico da encarnação do Verbo: a Palavra.

29 de jun de 2009

Graça no casamento

Qual o segredo de um casamento bem sucedido? Essa é a pergunta que alimenta uma série de palestras e publicações. A resposta para essa pergunta depende das cosmovisões daqueles que pretendem respondê-la. Na sociedade moderna, podemos destacar quatro componentes usados como critérios para avaliar os casamentos. O primeiro deles é o sexo, o segundo é a beleza física, o terceiro é a condição financeira, o quarto e último o romantismo. A princípio, destacamos que esses fatores podem ter alguma importância, mas, por outro lado, veremos que não são imprescindíveis ao relacionamento conjugal. Especialmente se ponderarmos a respeito deles a partir de uma abordagem cristã.
O sexo tem o seu devido lugar no casamento. Ao contrário do que defendem certos puristas, Deus criou o homem e a mulher não apenas para a procriação. O prazer sexual no casamento é digno de honra e para a satisfação mutua. Mas como o homem tem uma tendência a deturpar tudo que Deus criou de bom, o sexo acabou sendo endeusado, acarretando conseqüências drásticas à sociedade. A banalização do sexo objetificou os seres humanos, que acabam sendo usados e descartados de acordo com as conveniências e necessidades. Entre os cristãos, alguns jovens, apelando para Paulo, dizem que precisam se casar imediatamente a fim de não se abrasarem. Suas atitudes precipitadas poderão se transformar em problemas quando descobrirem que o relacionamento conjugal não se restringe ao sexo.
A beleza física também é outro engano que a mídia tenta impor como padrão. Os atores de cinema, da televisão e das revistas são esguios, têm corpos simétricos e rostos definidos. Muito diferente do que vemos no dia-a-dia, basta olhar ao redor para ver que os padrões de beleza estipulados pelos meios de comunicação estão muito longe da maioria. Muitos jovens se iludem com esses modelos que nos são repassados diariamente. O resultado é um processo de idealização que leva à frustração, bem como à inversão de valores. O cônjuge ideal, ao invés de ser avaliado pelo caráter, é buscado a partir dos atributos externos, e esses, justamente, são os que costumam definhar ao longo da existência. Não por acaso, muitos deixam seus cônjuges assim que começam a perceber as primeiras rugas.
A condição financeira, desde anos remotos, assume condição fundamental no enlace matrimonial. Basta lembrar que antigamente os pais escolhiam uma esposa para os filhos de acordo com o dote a ser recebido. Essa prática ainda persiste em alguns países, em outros, acontece, mas de forma velada. Encontrar um “bom partido” continua sendo um sonho para alguns pais. Não descartamos a necessidade de uma avaliação financeira responsável antes de adentrar a um relacionamento conjugal. Por outro lado, sonhar com uma situação socioeconômica abastarda como fator decisivo para o casamento é uma atitude de egoísmo. Diferenças significativas nesse particular podem muito bem gerar um quadro de jugo desigual. Cônjuges cristãos devem considerar que uma conta bancária vultosa não garante felicidade conjugal.
O fundamento para um casamento feliz, há quem defenda, está no romantismo. Algumas práticas românticas sugeridas seriam: fazer declarações contínuas de amor ao cônjuge, abrir a porta do carro para a mulher entrar, lembrar das datas importantes e mandar flores, declamar poesias e espalhar bilhetes por toda casa. Atitudes como essas são louváveis e devem ser estimuladas. Porém, a vida conjugal não é feita apenas de momentos românticos. Os casais, mesmo os cristãos, não estão imunes às crises. Nessas horas, as declarações de amor ficam embargadas, a gentileza dá lugar às murmurações, as flores, as poesias e os bilhetes perdem o sentido. Quando isso acontece, a menos que os cônjuges tenham maturidade para superar as adversidades, o casamento pode se tornar um conto de fadas às avessas.
Um casamento bem sucedido, dentro de uma cosmovisão cristã, se fundamenta na graça. Não por acaso essa palavra – charis em grego – tenha uma conotação tão importante no cristianismo, cujo significado é “favor imerecido”. Ter graça significa ver o outro não pelo que ele é ou pelo que tem. No relacionamento conjugal cristão, a graça, por sua própria natureza, é um princípio basilar. É por graça que o cônjuge aceita o outro quando o interesse sexual não mais existe ou que por alguma condição física não mais pode ser concretizado.
É pela graça que o cônjuge, ainda que tenha respaldo bíblico para se divorciar, prefere acatar o arrependimento e liberar o perdão ao outro. É pela graça que o jovem que não tem os traços de beleza impostos pela mídia é aceito pela mulher amada. É pela graça que os cônjuges, mesmo sem uma condição financeira favorável, desfrutam de momentos agradáveis e aprendem a transformar as privações em bênçãos. É pela graça que casais, mesmo quando as atitudes românticas se tornam escassas, buscam maneiras para compensá-las e encontrar motivos para continuarem juntos. Essa é a graça do casamento.

24 de mai de 2009

A desbabelização pelo agape

O autor do Gênesis, no capítulo 11, narra como aconteceu o processo da diversidade lingüística. É claro que não há, nesse relato, uma preocupação com a cientificidade do fenômeno, do modo como o fazem os lingüistas. Temos, nessa passagem bíblica, uma revelação espiritual do intento humano de obter êxito distante de Deus. Para contextualizar, é preciso entender que no capítulo anterior Deus havia livrado Noé e sua família do dilúvio. A humanidade, por não acreditar nas palavras de advertência do velho profeta, pereceu nas águas.
Diante disso, a geração que sucedeu ao dilúvio, resolveu encontrar uma forma de ludibriar Deus. Construiu uma torre que fosse capaz de alcançar as alturas. E caso as águas das chuvas descessem em abundância, como havia acontecido anteriormente, estariam todos protegidos, poderiam até caçoar do Criador. O trabalho que envolveu a construção daquele monumento não deva ter sido fácil. Para cumprir os objetivos propostos, todas as etapas foram friamente calculadas. Os planos humanos, ao que tudo indica, seguiam a contento. Até que, repentinamente, ninguém mais se compreendia. Um pedia pedra, o outro, em resposta, trazia barro.
Essa torre é biblicamente nomeada de Babel, termo cujo sentido etimológico é o de confusão. Essa narrativa figura bem com a situação atual em que a sociedade moderna se encontra. Parece até que estamos todos envolvidos na construção de uma nova torre de Babel. Os homens, em seus interesses, não medem esforços para chegar ao ápice. Para alguns, o “céu é o limite” e, se for o caso, “viver sem fronteiras”. Paradoxalmente, mesmo com toda tecnologia disponível, não conseguimos nos entender melhor. Compramos aparelhos celulares, temos internet de alta velocidade, informações instantâneas na televisão e mesmo assim não “falamos a mesma língua”.
Diferentemente dos construtores da Torre de Babel de Gênesis 11, precisamos ouvir a Voz de Deus. Enquanto as palavras humanas são polifônicas - e que assim o seja para que não incorramos o risco da arrogância – a de Deus é definitiva, na verdade, Ele é a própria Palavra. João, no prólogo do evangelho que traz o seu nome, diz que a Palavra se fez Carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. O contrário da Torre da Babel é a descida de Deus à terra. Cristo é a Palavra que se fez carne, no Seu Espírito repousa a possibilidade da compreensão humana. Basta ver a narrativa lucana de Atos 2. O Espírito Santo desce e línguas repartidas como de fogo são distribuídas sobre as cabeças dos presentes. Mais assombroso ainda é a glossolalia, isto é, a diversidade lingüística não impede a compreensibilidade da mensagem do evangelho de Cristo.
Em Atos aconteceu o contrário do fenômeno de Babel. Poderíamos dizer que houve uma desbabelização, uma espécie de desconfusão. É na Palavra de Cristo que toda incompreensão é desfeita. Nele podemos encontrar a plenitude da comunicação. E essa, ainda que se dê pelas palavras, é conduzida pela ética do Cristo. Essa ética está reduzida numa palavra pouco compreendida e traduzida com dificuldade para a língua portuguesa, devido ao valor específico que tem no sistema lingüístico grego, trata-se da palavra “ágape”. Nas Bíblias ela costuma ser traduzida como amor, algumas vezes por caridade. O problema é que, em português, amor pode ser uma imensidão de coisas.
No grego do Novo Testamento, “ágape” é a dimensão do amor maior, é por sua peculiaridade divina, desinteressado, eminentemente voltado para o outro. Só há uma forma de desfazer a maldição de Babel, é investirmos no “ágape”. Em I Co. 13.4-7, Paulo diz que esse agape “é sofredor, é benigno; não é invejoso; não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A idéia central desse texto, e do processo de desbabelização, não é subir, mas descer, está voltado na direção do outro, tem a coragem de sacrificar-se, de abrir mãos dos interesses particulares para que o outro se dê bem. Alguém pode até dizer que isso é mera utopia, talvez dissessem o mesmo de Noé nos dias que antecipavam o dilúvio.

22 de mar de 2009

Amizade verdadeira

Nunca foi tão difícil encontrar amigos de verdade. Não por acaso, uma das séries televisivas americanas de maior sucesso nesses últimos anos trata a respeito desse tema. Para alguns especialistas em comportamento humano, o êxito da série friends (amigos em inglês) justifica-se porque as pessoas procuram, na tela, algo que lhes falta no cotidiano. E, de fato, encontrar amigos de verdade é tarefa cada vez mais complicada. Talvez, por isso, poetas como Vinícius de Morais e Milton Nascimento cantem a amizade com tanta beleza. Nos tempos da Renascença, os relacionamentos entre amigos tinham conotações tão poéticas que costumavam ser confundidas com homossexualidade. Esses laços são facilmente encontrados nas peças do dramaturgo William Shakespeare.
A confusão entre amizade e homossexualidade é também identificada em alguns posicionamentos em relação à Bíblia. Há que defenda, por exemplo, que a amizade entre Jonatas e Davi tinha um caráter homossexual. Essa tendência, ao que tudo indica, é resultante de uma sociedade que perdeu esse vínculo e que descarta a possibilidade de que dois homens possam ser amigos de verdade. Jonatas era um amigo fiel e não media esforços para, se fosse o caso, se sacrificar por Davi, e o fez algumas vezes a fim de preservá-lo quando ameaçado pelo rei Saul, pai de Jonatas. Durante toda a sua vida, Davi esteve ao lado de Jonatas, e mesmo depois da morte do seu amigo, quando assumiu o trono de Israel, prestou-lhe homenagem através do seu filho paralítico Mefibosete.
O maior exemplo de amizade na Bíblia, porém, não é o de Davi e Jonatas. Jesus, certamente, é o grande modelo de amizade verdadeira. Entre os seus discípulos, fez questão de tratá-los não como servos, mas como amigos. Ele desejava o melhor para eles, e, por isso, investia em seu relacionamento. O fundamento da amizade de Jesus era o amor. A prova maior desse amor foi o sacrifício vicário, isto é, substitutivo pelos pecados não só daqueles, mas de todos aqueles que hoje se aproximam dele e também o chama de amigo. Há um belíssimo hino cristão, com o título de “amigo”, da autoria de Sérgio Lopes, que retrata bem essa verdade: “O amigo que eu encontrei, me surpreendeu, quando todos me deixaram ele me acolheu ... quem pode ser melhor amigo que o Senhor que pelo servo a própria vida renunciou?”.
Se Jesus é o verdadeiro modelo de amizade, nós, nesses tempos, estamos perdendo as referências de amizade genuína. Não são poucos os que se aproximam das pessoas apenas para tirar algum proveito. Temos hoje um verdadeiro mercado de influências e o valor das pessoas é contabilizado pelos “laços” que elas têm com pessoas ricas ou poderosas. Os seres humanos são objetificados, deixam de valer pelo que são, passam a valer pelo que têm. E, quando não servem mais, são descartados como um copo de plástico. Essa triste realidade, entretanto, não deve nos privar da tentativa de construir amizades verdadeiras. Ainda que corramos o risco de nos decepcionarmos com as pessoas, ou, como aconteceu com Jesus, mesmo de ser traído, ainda vale a pena investir na amizade.
O sábio Salomão, autor do livro bíblico de Provérbios, sabia muito bem disso. Nos seus escritos, destacou várias vezes o valor da amizade. Declarou não poucas vezes que há amigos que são mais chegados do que um irmão. Ele sabia da dificuldade para se encontrar amigos sinceros. Por isso, nos instrui para que estejamos atentos, pois um grande amigo pode está mais perto do que se possa imaginar. Os interesses egoístas podem nublar nossos olhos para percebê-lo. Uma amizade verdadeira não começa de um dia para o outro, é resultante de dias de alegria, mas também de imperfeições compreendidas e de ombros partilhados nas horas da adversidade.
Para buscar um amigo de verdade precisamos, a princípio, ser um amigo de verdade. Essa é uma partilha que se desenrola ao longo da existência. Um amigo de verdade não é comprado por alguns reais em numa loja de conveniência. Ele é moldado nas duras circunstâncias da vida. Está sempre disposto a ajudar, e, mesmo quando for preciso, a ser francos, mas sempre o fará com amor, sobretudo com empatia. Bem aventurado aquele que é capaz de, na vida, ter amizades sinceras. Quem encontra um amigo pode ser comparado a um navio à deriva que chegou a um porto seguro, a ser surpreendido por um manancial de águas nas horas de sede intensa ou a sossegar debaixo de uma árvore após uma longa caminhada ao sol causticante. O sábio Salomão conhecia bem o valor de uma amizade verdadeira quando destacou: “em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão” (Pv. 17.17).

15 de fev de 2009

A atualidade do Eclesiastes

O livro de Eclesiastes está quase no meio da Bíblia. Tem pouco mais de dez capítulos, foi escrito há aproximadamente três mil anos. Escrito pelo velho Salomão, o mesmo que, na meia-idade, compôs os Provérbios, e, na juventude, o livro poético de Cantares. No alto de sua idoneidade e experiência de vida, o conceituado rei de Israel faz um balanço da existência humana a partir de tudo aquilo que viveu. O tom do texto está repleto de marcas de pessimismo, de modo que, algumas vezes, quando nos deparamos com as declarações do sábio, perguntamo-nos se ele, de algum modo, tinha esperança em Deus. Há ocasiões nas quais poderíamos nos atrever a questionar, como o fizeram alguns teólogos do passado, a razão pela qual esse livro adentrou ao cânon sagrado.
Ao reler esse livro nesses últimos dias, comecei a entender melhor o motivo para tal inclusão na composição da Bíblia. Mais que isso, apercebi-me de quão atual é sua mensagem, bem como seu real valor para a sociedade moderna. No início, o autor apresenta-se não apenas como rei, mas como um homem da assembléia, um pregador. Em seguida, lança suas palavras como flechas, propaga seus sermões como se esses fossem os últimos momentos de vida. Deixa claro, logo no preâmbulo, que tudo não passa de vaidade, ou conforme traduzido em certa versão para o português, que tudo não passa de uma corrida atrás do vento. Para esse pregoeiro, como no Estrangeiro de Albert Camus, ou em A Náusea de Jean Paul Sartre, é um tremendo absurdo.
A palavra vaidade, no livro de Eclesiastes, significa etmilogicamente “coisa vazia”, ou, numa acepção mais filosófica, algo desprovido de sentido. Paradoxalmente, aqueles dias de Salomão, semelhante aos que presenciamos atualmente, foram marcados pelos excessos e exuberâncias. Os judeus sempre aludiram àqueles tempos com saudade de sua extrema abundância material. Mesmo assim, o autor de Eclesiastes não parece satisfeito com todas as regalias que a prosperidade lhe oportunizava. Os prazeres resultantes da muita prata e ouro, as experiências sexuais com as muitas mulheres, o acúmulo de conhecimentos enciclopédicos e o poder que exercia diante dos seus súditos não preenchiam o vazio de sua alma. Remetendo à letra de uma antiga canção do Rolling Stones, o rei de Israel não encontrou, em todos esses prazeres, qualquer Satisfaction [Satisfação].
O livro de Eclesiastes é contemporâneo justamente por esse motivo. Ele confronta a sociedade moderna que pauta seus valores no hedonismo. Elegemos o prazer como a única razão de ser da existência humana. Em alguns casos, na tentativa de satisfazer nossos instintos egoístas, levamos nossas ações às últimas conseqüências, causando sofrimento e dor àqueles que nos cercam. O espírito de competitividade do homem moderno, sua ânsia exacerbada pelo sucesso, seu desejo irrealizável por prosperidade só provoca frustração e desânimo. Como no mito de Sísifo, temos a impressão, em certos momentos, que não estamos acrescentando coisa alguma à existência.
Enquanto lia o Eclesiastes, lembrei-me de um curto, e ao mesmo tempo, de grande provocação do poeta americano Robert Frost. Diz ele: “Dançamos em círculo, e supomos, mas o Segredo está sentado no meio e ele o sabe”. Essa poderia muito bem ser a conclusão para a qual o autor desse livro tão provocante nos conduz ainda que esse seja o argumento utilizando ao longo da composição. Pelo contrário, nas linhas finais do seu escrito ele deixa clara a sua intenção e nelas deparo-me com o motivo pelo qual o Eclesiastes pode hoje fazer parte da Bíblia. O homem da assembléia reconhece que fomos criados, por Deus, para o prazer, mas não devemos viver exclusivamente para ele. É preciso que haja uma dimensão ética para a existência humana, por isso, é preciosa a declaração do homem da assembléia: “Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Ec. 12.13). Essa afirmação ressoa na voz de um dos personagens dos Irmãos Karamazov de Dostoievsky: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. O temor a Deus, em amor, é o princípio da sabedoria. Não podemos desprezar, para nosso bem próprio e do próximo, a instrução do Senhor. Nessa premissa encontramos o verdadeiro sentido da existência humana.

19 de jan de 2009

E-mail a um jovem pregador

Somente hoje pude abrir o seu e-mail. Alegrei-me ao perceber seu interesse pela pregação. Agradeço também pela confiança em mim depositada. Espero fazer jus às suas inquietações e guiá-lo nesse importante ministério. Inicialmente, entendo que a pregação é um dos mais primorosos ministérios da igreja. Não concordo com os que argumentam que no céu haverá apenas espaço para o louvor. Essa justificativa tem dado margem para uma cantarola exagerada em muitas celebrações. A palavra sempre terá lugar, por toda eternidade, pois Cristo é o Logos e Ele subsiste para sempre. Portanto, renegar a Palavra de Deus é desconsiderar a atuação eterna do próprio Jesus.
Por isso, não se afaste desse ministério, mas, conforme Paulo instruiu o jovem Timóteo, não se distancie da leitura da Bíblia. Não se satisfaça com pouco, separe todo o momento disponível que tiver para a meditação. Faça anotações pessoais, leia os comentários bíblicos disponíveis, estude a Palavra, não apenas com a mente, exercite também o coração. Para tanto, antes de ler, devote algum tempo para a oração, peça ao Senhor para abrir o seu entendimento, demonstre humildade, e principalmente, disponibilidade para obedecer. Não busque conhecimentos apenas para os outros, aplique as verdades reveladas pelo Espírito inicialmente a você mesmo, depois poderá pensar em como levar adiante esse conteúdo à igreja.
Aconselho-o a evitar que a pregação se torne uma profissão. Não que isso seja um pecado em sua essência. Conheço excelentes pregadores que vivem do evangelho que pregam e levam a sério o chamado que receberam de Deus. Esse, porém, é um caminho difícil e nem todos conseguem trilhá-lo sem mácula. A tentação pelo dinheiro, fama e poder está à espreita de todos aqueles que militam na causa do evangelho. Por isso, recomendo que não abandone os seus estudos regulares no ensino médio, e posteriormente, na universidade, pois se o Senhor o chamou para pregar, irá fazer com que os conhecimentos adquiridos nessas instituições sejam proveitosos no ministério da pregação.
Tente conciliar as atribuições, continue estudando, e ao mesmo tempo, exercitando a pregação na igreja. Antes que eu me esqueça, permita-me definir o que entendo por pregação e fazer alguma relação com o ensino. Não costume diferenciar uma da outra, na verdade, não consigo desassociar pregação do ensino. Jesus e Paulo pregavam e ensinavam ao mesmo tempo. A diferença está apenas na audiência, isto é, a quem dirigimos a mensagem. Se falarmos para não convertidos, estaremos pregando a Palavra, estaremos ensinando os pecadores o caminho da salvação. Se nos dirigirmos aos crentes da igreja, estaremos ensinando o caminho da maturidade cristã.
Em ambas as situações não podemos desprezar a fonte primária da revelação cristã, a Bíblia. Se você quiser ser um pregador digno de crédito, não se aparte do livro sagrado. É possível que nesse aspecto esteja sendo repetitivo, o motivo dessa recorrência é devido a relevância que atribuo a esse aspecto. A pregação e o ensino não devem ser produto das experiências pessoais, de filosofias humanas e esotéricas, não devam se restringir a estórias. Esses elementos podem auxiliar como recurso ilustrativo, mas não devem ditar o roteiro da pregação. A pregação eficaz não é aquela que anima as pessoas, que atrai a atenção dos ouvintes, mas a que se coaduna com a verdade bíblica.
Por isso, seja o mais fiel possível ao texto bíblico, se assim o fizer, evitará que suas pressuposições ou interesses dos ouvintes sejam postos em primeiro plano. Esse é um desafio a ser vencido, pois haverá situações nas quais você não gozará dos aplausos da maioria. Digo isso porque começamos a testemunhar os tempos a respeito dos quais Paulo falou a Timóteo em que muitos não mais suportariam a sã doutrina, e, por isso, dariam ouvidos aos pregadores detentores de mensagens aprazíveis aos seus egos insaciáveis. Por fim, tente buscar inspiração na biografia de alguns pregadores históricos que muito contribuíram para a história da igreja. Talvez você ainda não tenha ouvido falar em homens como Charles Spurgeon, John Wesley, Jonathan Edwards e Billy Graham. O conhecimento da pregação desses homens o motivará a busca um grau maior de excelência nesse ministério.
Consoante ao exposto, como disse no início, espero que o Senhor tenha me dirigido nesse aconselhamento e saiba que estarei orando pelo desenvolvimento do seu exercício na pregação. Enquanto isso, faça a sua parte, aproxime-se cada vez mais do Espírito Santo, busque-O e se disponha a ouvir o que Ele quer dizer, primeiramente a você, depois aos outros, através à luz da Sua Palavra. Não tenha medo e muito menos vergonha do Evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus e salvação para todo aquele que crer. Seja um fiel mordomo de tudo aquilo que o Senhor tem colocado em suas mãos. Dedique-se à leitura da Bíblia e de bons livros que inspirem à sábia exposição da Escritura. Não garanto que fazendo assim você atrairá as multidões, na verdade, não creio que essa seja a motivação primordial da pregação cristã.
Contente-se em saber que está no centro da vontade de Deus