30 de nov de 2008

Sobre carros e livros

Há crônicas que pedem para ser escritas. Esta é uma delas. Relutei bastante até ter a coragem de escrever a respeito de um assunto tão melindroso. Talvez por respeito a várias pessoas que conheço, as quais, seguindo a propaganda publicitária, dizem que os “brasileiros adoram carros”. Se isso for verdade, estou começando a questionar minha brasilidade. Muito embora, tenha um carinho imenso pelo meu país, apesar de tantas coisas ruins que fazem com ele. Digo isso porque, sinceramente, os carros não me atraem muito. Para mim, não passam de objetos funcionais, isto é, que me servem para ir e voltar de um lugar para outro.
Por várias vezes, já fui perguntado porque, como a maioria das pessoas, ainda não troquei de carro? Sinto que alguns ficam incomodado quando me encontram e vêem que continuo dirigindo um veículo antigo. Outros vão mais além e cobram diretamente, como se eu tivesse a obrigação de andar em um automóvel do ano. Não reprovo aqueles que querem andar ou ter um carro novo, não estou sequer descartando a possibilidade de também o faze-lo algum dia. Defendo apenas que isso não deva ser posto como regra geral, uma espécie de “ditatura” em massa, alimentada pela propaganda que nos quer fazer acreditar que porque estamos num carro zero quilômetro somos mais másculos ou felizes.
Precisamos aprender que os objetos não têm valor por si, isto é, inerentes a eles. É a sociedade que determina qual o valor de uma determinada coisa. Quanto mais valioso for o objeto, maior será o preço por ele cobrado. Existem, inclusive, aqueles que trabalham para dizer que um determinado objeto vale certa quantia. Nos anos 90 eu possuía um fusca 77 azul que me fora bastante útil. Até o dia em que precisei de uma linha telefônica para me conectar a internet. Como naquele tempo uma linha telefônica era coisa rara, não hesitei em trocar o fusca pelo número telefônico. Ironicamente, meu irmão mais novo me disse que, com certeza, eu iria conseguir ir bem mais longe e, sinceramente, acho que ele tinha toda razão.
Não sou apaixonado por carros, mas não nego que sou aficionado por livros. Acabei de receber uma excelente coleção de comentários bíblicos do exterior. Estou sempre procurando encontrar mais espaço na estante para colocar livros. Entre abrir mão de comprar meus livros, e ter as melhores e mais recentes edições, ou trocar de carro, fico com a primeira opção. Não faço questão de andar em um carro mais antigo, mas não abro mão do que há de melhor na literatura cristã. Lembro-me de Paulo que, quando estava na prisão, pediu a Timóteo que lhe trouxesse a capa e os pergaminhos (II Tm. 4.13). O Apóstolo dos Gentios era um homem dado à leitura, não se apartava das sábias letras que nos fazem realmente sábios (II Tm. 3.15).
Se querem que eu seja mais franco, gostaria que os brasileiros, ao invés desse amor exagerado por carros, fossem mais apaixonado por livros. Se não me falha a memória, foi Rui Barbosa que disse que um país se faz “com homens e livros”, não com carros. A industria automobilística, com todo o artefato publicitáio, certamente vai discordar de mim. Mas não me importa, sei que sua motivação primordial é com a obtenção de lucros fartos. Como cristão, me causa preocupação que muitos que servem a Cristo estejam sendo levados por essa onda. Há muitos até que depositam as chaves de seus carros nos púlpitos. Alguns em gratidão, outros por ostentação, e a maioria, por falta de discernimento.
Imagino que, finalmente, o leitor entende porque hesitei tanto em escrever essa crônica. Estou consciente de que estou indo de encontro a maioria, devido a uma prática naturalizada que as pessoas, inclusive os cristãos, acatam como se fosse algo normal. Faço-o porque tenho consciência da necessidade profética. Muitos estão endividados porque querem satisfazer essa cobrança da sociedade (engraçado ela cobra, mas não patrocina). Não entendo muito de economia, mas ouvi um especialista dizer, um dia desses, que a bolha americana no Brasil poderá ser não a imobiliária, mas a automobilística. Nunca se comprou e vendeu tanto carro como nos dias atuais, da minha parte, sinceramente, já estou preparado para o dia em que todos deixaremos os carros na garagem e andaremos a pé ou de bicicleta.