27 de jul de 2008

Fé, razão e discipulado

Um dia desses, em meio a uma discussão acadêmica, fui indagado a respeito da relação entre fé e razão. De pronto, respondi que não me posicionaria como filósofo, ainda que, por necessidade, tenha algumas leituras na área. Nessa relação entre fé e razão, coloco-me como teólogo, e isso, na verdade, faz muita diferença. Digo isso porque, geralmente, os filósofos costumam pôr a razão diante da fé. Observem que não estou generalizando ou mesmo os incriminado por essa opção. Isso acontece porque percebo, pelo menos na filosofia moderna, uma tendência à racionalidade pura. Nas linhas, a seguir, tentarei explicar o que entendo por essa relação, e, na tentativa de construir um tripé, incluo um fator que julgo fundamental à fé cristã, o discipulado.
A ênfase na razão pura, ainda que seja possível remete-las aos filósofos gregos, ganhou maior notoriedade, nesses últimos anos, com o advento do Iluminismo. No Século XVII, os pensadores defendiam que o conhecimento deveria ser alcançado simplesmente por meio da razão. Antes disso, encontramos esse pressuposto no pensamento de René Descartes, percebido em sua famosa proposição: “penso, logo existo”. Por meio de tal assertiva, e de todas as outras dela provenientes, o homem moderno passou a defender que não haveria verdade fora da razão. Tudo, até mesmo as manifestações religiosas, deveriam ser tratadas, ou melhor, julgadas pelo crivo da lógica. Para entender as implicações dessa abordagem, basta citar a publicação da Bíblia de Thomas Jefferson, ex-presidente americano, que retirou da Escritura todas as passagens que julgava ofenderem a razão, a começar pela ressurreição de Cristo.
Por se fiarem na razão pura, muitos dizem que não acreditam na existência de Deus. Alguns, como Jefferson, referem-se a Deus como um Motor Imóvel, nos moldes aristotélicos, difundido por Thomas de Aquino. Deus, nessa perspectiva, não passaria de um relojoeiro que se distanciou de sua criação. Essa opção é, no mínimo, assustadora e nos conduz à sensação de abandono. O Deus da Bíblia, como bem ressaltou Blaise Pascal, é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, ou melhor, é Aquele que nos ama e o provou quando se manifestou em Cristo. O cristão, em conseqüência dessa realidade, não fundamenta sua fé na razão pura. Ele confia no ato gracioso da revelação em Cristo. Motivo pelo qual nos remetemos, com freqüência, à abertura do Evangelho Segundo João. Para esse discípulo, o Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Diante dessa manifestação, só nos resta duas alternativas. A primeira, acreditar que Deus nos falou através de Seu Filho, e a segunda, continuar tentando encontrar Deus por meio da reflexão humana.
Sempre que reflito a respeito desse assunto, lembro-me de um exemplo dado por Calvino em suas Institutas. O reformador diz que certo homem aproximou-se de um pensador, rogando-o que lhe dissesse quem era Deus. Ao invés de responde-lo, aquele sábio sempre pedia um número maior de dias para pensar. Na primeira vez pediu dois dias, depois, aumentou para quatro e assim sucessivamente. Por fim, reconheceu que seria impossível dizer quem seria Deus por meio de suas investigações racionais. A partir dessa narrativa, Calvino introduz a sua discussão a respeito da revelação divina na Sagrada Escritura. Como Agostinho, Calvino e Blaise Pascal, sigo o mesmo encaminhamento.
Defendo que crer pode implicar em também pensar. Para ser um pouco mais preciso, levo em conta, no que tange à fé, o célebre postulado de Anselmo de Aorta. Para ele, é necessário primeiro crer, para depois, compreender. Assim, ao pôr a revelação como ponto arquimediano, posso usar a mente como culto razoável a Deus, levando cativo meu pensamento a Cristo. A razão, nesse contexto bíblico-teológico, tem o seu devido lugar, mas estará sempre sujeita à revelação. O primeiro passo para entender essa revelação, propõe Paul Ricoeur, é acreditar no Deus que nos deixou sinais. Mas para tanto, precisamos reconhecer nossas limitações para encontrá-lo de outro modo que não por iniciativa dEle. Ademais, a opção de crer nos traz sérias conseqüências, que nos devam direcionar para a obediência à voz de Cristo. De modo que, ao nos dispormos a ouvi-Lo, não podemos fugir ao Seu discipulado. Como Ele, também teremos uma cruz para carregar, e esse, certamente, é um preço que nem todos estão dispostos a pagar.