29 de jun de 2008

A morte vencida

Nos primeiros anos da juventude, debati-me frontalmente com a dura realidade da morte. Aos dezesseis anos de idade, quando ainda não era cristão, passava horas angustiado, incomodado com a incerteza a respeito daquela que costuma ser a única certeza dos seres humanos. Depois de alguns meses, passei a ler a Bíblia, e finalmente, ao me tornar cristão, a morte deixou de ser uma inimiga assustadora. Aprendi, meditando nos textos sacros, que Jesus é a ressurreição e vida, e, crendo nEle, encontraria a eternidade. A partir das epístolas de Paulo, aprendi que a morte não é o fim da existência, tendo em vista que, nas palavras desse apóstolo, ela é uma partida para estar com Cristo, e, portanto, algo incomparavelmente melhor.
Essa, no entanto, não é a visão do mundo secularizado. A morte, para a maioria das pessoas, significa o fim definitivo da vida. De vez em quando, nos noticiários da morte de alguém, observo a utilização de expressões do tipo: “... após meses de luta contra o câncer – ou outra doença qualquer – [diz-se o nome da pessoa] acabou perdendo a batalha”. Passa-se, com esses termos, a idéia de que a morte venceu, e que nada mais há que se possa esperar. Entristeço-me com as situações das pessoas que não podem ter esperança em relação à morte. Lembro-me de Jesus diante do túmulo de Lázaro. A família enlutada, aos prantos, lamentava a morte do amigo do Senhor. Jesus, naquele momento, também chorou, não por desespero, mas porque entendia a angustia pela qual passava os celebrantes daquele ato fúnebre.
Não raro encontro cristãos que foram contaminados por essa visão de mundo. Nas conversas do cotidiano, é comum ouvir pessoas que professam a fé em Cristo falarem da morte como se, por meio dela, toda esperança se findasse. Determinados diálogos em celebrações fúnebres têm a cara do desespero do mundo secularizado. A morte de um irmão, para alguns cristãos, é motivo de tristeza. Há aqueles que tratam logo de encontrar algum pecado que tenha sido o motivo do espírito de mortandade. Outros celebram a vida aqui na terra como se fosse uma riqueza e, ainda que não o digam explicitamente, deixam, nas entrelinhas, a crença de que agradecem por não ser ele que se encontra no lugar daquele que “passou” para o Senhor. As narrativas a respeito da morte dos outros, mesmo dos cristãos, acaba tendo uma conotação trágica.
Esse tipo de percepção em relação à morte, mesmo entre os cristãos, não é recente. Ao ler o capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Tessalonicesses, identifico o desespero dos membros daquela igreja quando partia um dos seus membros. O apóstolo precisou esclarecer, naquela carta, que a morte não seria um fim, conclamando-os a não serem ignorantes com respeito aos que já haviam morrido. A mensagem é consoladora à medida que admoesta, aos que ainda vivem na carne, para que continuem aguardando a volta de Cristo. Paulo diz que, por ocasião dessa, os que estiverem vivos, serão transladados para encontrar com o Senhor nos ares. Quanto aos que já passaram para o Senhor, esses serão ressuscitados em corpos glorificados. Essa é a esperança de todos aqueles que professam a fé em Jesus.
Como todo e qualquer cristão normal, não estou isento de momentos de temor diante da iminência da morte. Num mundo repleto de violência e de tantas enfermidades, sou tentado, de vez em quando, a ver a morte como algo negativo, mas estou longe de me orgulhar de tais situações. Muito pelo contrário, reconheço à propensão para a falta de fé e me volto para a palavra de Deus. Recordo-me de que Jesus trouxe à luz a imortalidade através do Seu evangelho (II Tm. 1.10). Que quando esse tabernáculo humano se desfizer, receberei, do Senhor, um corpo incorruptível, não mais sujeito às fragilidades temporais (II Co. 5.1). A meditação nessas verdades reveladas me traz de volta a confiança, e repentinamente, o medo da morte se esvai, e sobrenaturalmente, passo a vê-la a partir do prisma do Senhor (Sl. 116.15; Ap. 21.4). Percebo que nada me separará do amor de Cristo, nem mesmo a morte (Fp. 1.20; Rm. 8.38), e que, ao final, essa será definitivamente tragada pela vitória (I Co. 15.54).
O poeta inglês John Donne, após vários anos de meditação sobre a morte, chegou a uma confortadora conclusão. Em versos diz: “Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado, poderosa e terrível, porque tal não és, já que quantos tu julgas ter pisado aos pés, não morrem, nem de ti eu posso ser tocado”. Com Donne, concordamos que a morte não pode tocar aquele cuja esperança repousa no Senhor da Vida. Ao ser vencida por Cristo, no ato da ressurreição, a morte perdeu o seu poder. Resta-nos, a partir de então, a agradável surpresa e a convicção de que “as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (II Co. 2.9).