31 de mai de 2008

O caminho da simplicidade

“Simplicidade”, eis aqui uma palavra fora de moda. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define-a como “ausência de pompa, luxo ou sofisticação”. Numa sociedade pautada justamente por valores contrários a isso, como esperar que alguém queira ter um estilo de vida simples? O que se quer mesmo é exibir a casa luxuosa ou o automóvel recém lançado, ainda que, a novidade se reduza apenas a um botão posto em algum lugar, mostrado num comercial de televisão, sem qualquer utilidade. Vivemos em uma sociedade de consumo, que, com certeza, irá muito mais adiante, já que, infelizmente, nossos filhos também estão sendo formados, e porque não dizer, “bombardeados” para se tornarem consumidores compulsivos e em potencial.
O mais incrível de tudo isso é que os alguns evangélicos, embora sejam terminantemente contrários ao mundanismo, abraçam um estilo de vida de ostentação, sem sequer darem-se conta de que estão alimentando um sistema secular que se opõe paradoxalmente à verdade do evangelho de Cristo. Testemunhamos, nos dias atuais, uma verdadeira destruição da natureza, e isto, com base numa pífia exegese de Gn. 1.26-28, onde Deus nos instrui a dominar sobre a terra e não a terra. Com isso, o Senhor está nos orientando não a destruí-la, mas a cuidar dela para nós mesmos, para os nossos filhos, e principalmente, para a glória dEle mesmo que a criou. Somos mordomos e não proprietários, e isso não pode ser esquecido, caso contrário, em nome da ganância, findaremos por destruir o planeta, nossa morada e criação de Deus.
O evangelho de Cristo, na verdade, não se coaduna com o famigerado desejo consumista desse capitalismo selvagem. Em Lc. 12.25, o Senhor nos alerta contra tal comportamento com as seguintes palavras: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”. Esse cuidado não tem sido observado por muitos cristãos, os quais, seguindo os parâmetros do mundo, julgam as pessoas pelo que pertencem. Nos trilhos da teologia da prosperidade, aquele que detêm um maior poder aquisitivo é louvado como sendo “abençoado”, sendo assim, por exclusão, aquele que não pode ter mais do que uma bicicleta ou um carro usado, é tido como “amaldiçoado”. São poucos que, como Paulo, valorizam a riqueza das boas obras, daqueles que são generosos em dar e prontos para repartir (I Tm. 6.18).
Precisamos recuperar um estilo de vida simples que vá de encontro à sociedade materialista e consumista que deteriora o espírito humano. Não estamos propondo uma teologia da miséria, mas da simplicidade, para isso, devemos nos opor à cultura do desperdício e da ostentação em todos os aspectos do viver diário. Sabemos que essa não é uma tarefa fácil, mas roguemos ao Senhor que nos ensine a fazer a diferença entre o que é necessidade e o que é luxo, sem desprezar os dons de Deus a nós concedidos (I Tm. 4.4,5) e muito menos nossa responsabilidade para com os membros da família (I Tm. 5.8). Tenhamos o devido cuidado para que, a fim de angariarmos louvores dos homens, venhamos a pecar, deixando de buscar o valoroso louvor que vem de Deus (Jo. 12.43). A ostentação é filha do consumismo e se por ela nos deixarmos controlar, acabaremos eternamente frustrados, seguindo o percurso insaciável do descontentamento.
Nada há de errado em buscar melhores condições de vida, reconhecendo, como cristãos, que tudo procede de Deus, e por isso, sendo a Ele gratos (I Tm. 4.4; 6.17). Mas a meta do cristão não pode ser o acúmulo descontrolado de riquezas, antes ter, com critério, o suprimento das necessidades familiares, e também, para ajudar os mais necessitados (I Ts. 1.11; Ef. 4.28). Para não entrarmos nessa onda, o segredo é trilhar o caminho da simplicidade experimentado por Paulo: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” (Fp. 4.11-13). E mais: “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (I Tm. 1.8). Essa é a proposta desafiante para uma vida simples, que Deus nos ajude a cultivá-la.