27 de abr de 2008

O exercício espiritual

A vida sedentária, para a maioria das pessoas, provoca forte sentimento de culpa. Não por acaso, as academias de ginástica estão tão lotadas nos dias atuais. À noite, ou cedo pela manhã, quando vou ou retorno do trabalho, vejo várias pessoas caminhando pelas calçadas. Fico imaginando como a cultura da saúde é capaz de tirar pessoas tão cedo de suas camas e abrirem mão do sono matutino.
Reflito, também, a respeito da recomendação de Paulo ao jovem pastor Timóteo: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir” (I Tm. 4.8). O apóstolo não está se opondo à ginástica física, mas coloca, em superioridade, um outro tipo de atividade: a espiritual, comumente traduzida por piedade.
Sobre esse tipo de exercício, recomenda ainda: “rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade” (I Tm. 4.7). Esse é um cuidado recorrente de Paulo, principalmente, em relação àqueles que estão imbuídos de responsabilidade ministerial, orientado-os a seguir “a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão” (I Tm. 6.11).
A palavra piedade, no grego, é eusebeia, e dá idéia de espiritualidade, reverência, respeito e fidelidade a Deus. O sentido mais próprio da palavra, associada ao termo exercício, diz respeito à prática devocional na vida cristã, por isso, algumas traduções bíblicas denominam-na de “disciplina”. Assim, do mesmo modo que o atleta se exercita para obter êxito em suas competições, o cristão precisa, continuamente, devotar tempo à espiritualidade.
Um certo jovem queixou-se ao seu pastor das suas lutas interiores entre a carne e o espírito, e perguntou-lhe qual dessas duas forças que militavam dentro dele venceria. O pastor, fazendo alusão às obras da carne e ao fruto do Espírito, de Gl. 5.19-23, respondeu que o vencedor seria aquele que estivesse mais bem nutrido. A esse respeito, vale lembrar a recomendação de Paulo: “andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gl. 5. 16).
As inúmeras atribuições da vida podem fazer com que sejamos distanciados de uma prática cristã espiritual. Spurgeon, o príncipe dos pregadores, costumava dizer que não passava mais do que quinze minutos sem pensar em Deus. O motivo para essa disciplina, talvez se explique por meio da declaração de D. L. Moody, o pregador de Chicago, ao ser perguntado se era cheio do Espírito Santo. Ele respondeu que sim, mas precisava estar sempre buscando mais, pois tinha um vazamento.
De fato, o esgotamento espiritual do dia-a-dia faz com que precisemos, continuamente, procurar por mais de Deus, e isso se dá através do exercício espiritual, que nos possibilita desfrutarmos, cada vez mais, de plena comunhão com o Senhor. A oração é o princípio da piedade, sem ela o cotidiano se torna mais árido e distante da presença de Deus. Em consonância à essa prática está a leitura devocional da Bíblia, a fim de sermos, por ela, alimentados.
Os grandes músicos são aqueles que se exercitam constantemente. Se um grande pianista desprezar as horas de ensaio, em pouco tempo, seus admiradores e críticos passarão a observar que ele já não é mais o mesmo. Da mesma forma, quanto menos deixarmos de lado o exercício espiritual, constataremos que estamos diferentes, por fim, as outras pessoas que nos cercam também notarão o mesmo.Nessa época de tantos exercícios físicos, os quais não devam ser desprezados, já que o corpo o santuário do Espírito Santo, e, portanto, deva ser bem cuidado, não podemos, no entanto, descuidar dos exercícios espirituais. Caso contrário, muito em breve estaremos espiritualmente fora de forma, e já nos faltará o mesmo pique que tínhamos antigamente. Abandonar a dieta espiritual recomendada pelo Médico dos médicos é algo que não devemos fazer. Tenhamos cuidado com o sedentarismo espiritual!