25 de fev de 2008

O Jesus dos Evangelhos

Existem muitos retratos de Jesus, cada um deles O mostra com uma aparência distinta. O mais comum deles é o que O emoldura dentro do perfil europeu. Um homem alto, de cabelos longos e louros, olhos azulados e rosto esguio. Cresci vendo esse rosto, e, não poucas vezes, sou tentado a visualizar o Senhor com aquele semblante. Esse, porém, não é o único padrão físico que nos é apresentado de Cristo. O Jesus de Nazaré, do filme de Franco Zefirelli, é um dos mais conhecidos do cinema. Há quem imagine que o rosto de Cristo é o do ator Robert Powel, protagonista da película de Zefirelli.
Mas, definitivamente, o rosto de Cristo não se coaduna com nenhum desses que até hoje nos foram apresentados. Nem mesmo a imagem do Sudário de Turim, o lençol que, supostamente, teria enrolado o corpo de Cristo, nos revela, com exatidão - se é que esse material é autêntico - como seria, de fato, a face de Jesus. Isso angustia, inclusive, alguns evangélicos, que se queixam, por meio da letra de um antigo hino, de não ter o “privilégio que muitos tiveram de ver o Seu rosto, sentir sua mão”. Na melodia, o compositor diz que “também queria, a mesma alegria, de vê-lo bem perto, bem juntinho a mim”. Há um condicionamento em relação à felicidade, já que, somente se tivesse visto a Cristo, diz a música: “ó como eu seria, tão feliz assim”.
Do ponto de vista experiencial, é compreensível o anelo do hinógrafo, seu desejo de ter estado entre os apóstolos e discípulos para também ter visto o rosto de Cristo. Mas da perspectiva bíblica, essa vontade não pode ser alimentada, a não ser na dimensão da esperança escatológica. Somente no futuro, quando veremos a glória de Deus, poderemos, então, vê-LO como Ele é. Enquanto esse momento não chega, somos desafiados a crer. Por isso, Jesus disse a Tomé quanto este desejou vê-LO: “Bem-aventurado os que não viram e mesmo assim creram”. A felicidade do cristão, em todos os tempos, deve estar firmada no ouvir à Palavra de Deus, no Cristo anunciado e proclamado nos evangelhos.
Muitas foram as tentativas de se encontrar um Jesus histórico. Os pesquisadores quiseram identificar, nos registros extrabíblicos, a figura de um outro Jesus, diferente daquele dos evangelistas. Acabaram por desistir dessa empreitada, pois, depois de muitos ensaios, percebeu-se que todos as descrições de Jesus não passam de projeções dos seus pesquisadores, percepções de acordo com a abordagem de cada um deles. Para uns, ele fora um grande líder religioso, para outros um revolucionário político. Mas, afinal de contas, seria mesmo possível dizer quem é Jesus? Acredito que sim, caso contrário, Ele mesmo não teria perguntado a seus discípulos: “Que dizem os homens a meu respeito?”
Mas se quisermos tem um vislumbre de quem realmente fora essa figura tão significativa na história da humanidade, precisamos nos voltar para aqueles que, verdadeiramente, podem nos dizer algo a respeito. Jesus somente pode ser conhecido através do testemunho daqueles que com Ele andaram e caminharam pelas terras poeirentas da Palestina. O testemunho polifônico dos evangelhos é a alternativa que nos resta para nos aproximar de Cristo. Mas esses evangelhos não se preocupam em apresentar a Sua biografia. O Jesus dos evangelhos não é, definitivamente, o Jesus da história, mas o Jesus da fé. Sua história tem como objetivo, nas palavras de um dos evangelistas, de nos levar a crer nEle, e por meio dEle, ter vida eterna.
O Jesus dos evangelhos, desde o nascimento até a Sua morte no calvário, é alguém que vive para os outros. Ele se identificou com as ralés do seu tempo, com os mais simples, os mais necessitados. O dinheiro, a fama e o poder não O seduziram, já que Sua principal missão era fazer a vontade do Pai. A mensagem desse Jesus não se coadunava, como nos dias atuais, com os paradigmas escolhidos pela sociedade. Para Ele, os mais felizes são os que choram, os limpos de coração, os pacificadores, os que têm fome e sede de justiçam, os que são perseguidos por causa do nome dEle. A opção de Jesus fora pelos pecadores, por aqueles que se sentiam necessitados da graça divina. Por outro lado, os religiosos de sua época, travestidos em suas capas de hipocrisia, foram, acintosamente, criticados em Suas pregações. O Jesus dos evangelhos é, para algumas pessoas, uma figura incômoda. Sua abordagem em relação aos valores defendidos no seu tempo, ainda cultivados no mundo moderno, faz com que queiramos fugir dEle. Por temer a impopularidade, os pregadores preferem pregar temas suaves ao invés de pautar o conteúdo de suas mensagens nas Palavras de Cristo. Essa, no entanto, não é uma atitude recente, pois, certa feita, após um dos seus sermões, os ouvintes começaram a se ausentar. Somente os discípulos permaneceram no recinto. Jesus, então, lhes perguntou: “vocês também não querem ir após eles?”. Pedro exclamou: “para quem iremos nós, Senhor, somente tu tens palavra de vida eterna!”. As palavras do Jesus dos evangelhos são, paradoxalmente, tanto provocação quanto conforto.