24 de jan de 2008

Auto-ajuda ou ajuda do Senhor

O mercado livresco está dominado pelos livros de auto-ajuda. Eles estão por toda parte, hoje em dia é possível encontrá-los até mesmo em farmácias e supermercados. A inclusão da categoria “auto-ajuda”, na classificação das vendagens de livros, em algumas das principais revistas e jornais brasileiros, nada há de casual. Algumas editoras justificam a publicação desses livros porque eles capitalizariam a publicação de obras de maior relevância. Outros defendem que a leitura desse tipo de livro, de qualquer forma, introduz as pessoas ao interesse por outros. O perigo, no entanto, é o de criar uma dependência, e tais leitores, sejam incapazes de ler algo mais que exija alguma reflexão.
Do ponto de vista bíblico-teológico, a abordagem propagada pela maioria desses livros não se coaduna com o ensinamento cristão. O problema é que esse material suporta a noção de que nós estamos sempre no controle de tudo e que somos capazes de resolver os problemas por conta própria. Como o rótulo já denuncia, promove a idéia de que podemos encontrar a ajuda dentro de nós mesmos. Remetendo a um célebre poema, denominado “Invictus”, os livros de auto-ajuda propõem que: “Eu sou o mestre do meu destino; Eu sou o capitão da minha alma”. A realidade cristã e as intempéries do cotidiano, no entanto, têm nos mostrado que nem sempre a vida depende do comando humano. Muitas vezes, somos tomados por situações que fogem ao nosso controle.
Esse é o principal motivo pelo qual os cristãos não depositam sua fé, ou pelo menos não deveriam, nesse tipo de perspectiva. O Senhor Jesus, em uma de suas exposições aos seus discípulos, disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo. 15.5). O Senhor deixa claro que a ajuda que precisamos jamais poderá vir exclusivamente de nós mesmos. Há muito tempo, o salmista já havia dito: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl. 46.1). É um equívoco pensar que o ser humano, dependendo apenas de seu potencial, será capaz de encontrar a saída para as vicissitudes da vida. O povo de Israel, nos tempos antigos, colheu frutos amargos dessa opção. Ciente do risco, o profeta Jeremias o advertiu acintosamente: “Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! (Jr. 17.5).
A repreensão de Deus, para o povo de Israel e que também se aplica a nós nos dias atuais, revela a fragilidade de acreditar na suficiência humana. Não podemos esquecer que, distante de Cristo, o ser humano está decaído, carente da graça de Deus (Jo. 3.16; Ef. 2.8,9). E que, mesmo depois de um encontro pessoal com Ele, dependemos da atuação do Espírito Santo, que produz, no cristão, o Seu fruto, com vistas ao crescimento espiritual (Rm. 8; Gl. 5). Depositar toda a confiança em si mesmo, por conseguinte, é um atestado de independência em relação Aquele que nos criou e que nos chamou para que nEle vivêssemos (Jo. 8.12; 11.25). A história tem demonstrado que a confiança exclusiva nos méritos humanos está levando a humanidade à ruína. Como os atenienses do tempo de Paulo, esquecemos que “nEle vivemos, e nos movemos, e existimos” (At. 17.28).Passados esses últimos anos de guerra, fomes e tragédias, esse, certamente, é o momento para que venhamos a refletir e aprender a buscar a ajuda que vem do alto. Antigamente, os salmistas preferiram colocar a confiança não nos deuses egoístas que exigiam sacrifícios humanos. Os altares dedicados a esses deuses eram edificados nas montanhas. Por isso, o autor do salmo 121 alude a esse fato perguntando, ainda que retoricamente: “Elevo os olhos para os montes, de onde vem o socorro?”. E responde logo em seguida: “O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”. Como fizeram esses e tantos outros que andaram no caminho da fé cristã, busquemos a ajuda não dentro de nós mesmos, mas aquela que vem do alto. Ouçamos, portanto, a voz profética de Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor” (Jr. 17.7).