21 de dez de 2008

O retorno dos pródigos

Estive meditando nesses últimos dias a respeito de uma das mais belas parábolas de Jesus, a do filho pródigo. Lucas, em sua narrativa evangélica, nos repassa o alcance da graça e do amor de Deus na visão do Mestre. Segundo o relato, o filho mais jovem pede a herança do pai ainda em vida e parte em busca de aventuras. O mais velho, ao contrário do que pediu seu irmão, fica em casa, trabalhando para o seu pai. Mesmo com o coração partido, o velho cede aos caprichos do seu filho mais novo, lhe dá a parte da herança, e este, gasta todo o seu dinheiro dissolutamente. Quando as riquezas se acabam, vão com elas também os amigos, e o pobre rapaz, outrora acompanhado, finda solitário, sem mesmo ter o que comer. Consegue um emprego de criador de porcos, mas nem mesmo os restos de comida desses animais lhe é permitido comer.
Enquanto isso, o pai, em casa, aguarda ansiosamente a volta do filho que o abandonara. O mais velho trabalha resignadamente, na tentativa de suplantar a ausência do irmão desnaturado. Distante de casa, o jovem, com fome e sem amigos, toma a decisão de retornar à casa de seu pai. Sabe que gastou todos os recursos advindos da sua herança, nada mais há para pedir, senão que o seu velho e bondoso pai o aceite pelo menos como um dos seus vários empregados. Após dias de peregrinação pelo deserto causticante, o pai observa e, de longe, vê um homem com as vestes rotas, os pés já descalços, a pele queimada pelo sol. Mesmo assim ele reconhece, à distância, o filho que partira em busca dos prazeres efêmeros. Aos prantos, o jovem, conforme havia premeditado, pede ao pai que o receba, não como filho, mas como um dos seus servos.
O pai, com sua graça e amor escandalizantes, abraça seu filho sujo e maltrapilho, chama os empregados, ordena que lhe dê uma roupa nova e que coloquem o anel como símbolo da herança, que façam uma grande festa, matem o melhor bezerro da fazenda. Todos, então, começam a se alegrar, o pai a cantar, salta entre os seus servos gritando, meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. A alegria foi interrompida com a chegada do filho mais velho que se encontrava no campo. Não conseguia acreditar no que via, o irmão aventureiro voltara para casa, e o pior, depois de ter desperdiçado o dinheiro da família. Casmurro, olha para o pai e se queixa daquela atitude irracional. Como podia o pai aceitar de volta um filho que o deixara para trás? Seria justo o tratamento que estaria lhe dando? O pai, contudo, mostrou que amava os dois filhos e que, ao contrário de incriminá-lo, teria motivos para celebrar.
A meditação nesse texto nos revela uma série de verdades a respeito de Deus e do seu amor aos seres humanos. A primeira delas é que todos nós, indistintamente, somos pródigos, isto é, filhos que se distanciaram do Pai. Com Adão, pecamos todos, não há quem faça o bem, aquele que diz que não comete pecado está enganando a si mesmo. A diferença é que alguns, como o filho que se foi, reconhece a gravidade e sente, na pele, as conseqüências dos seus pecados. Outros, como o filho que ficou, se escondem debaixo das folhas de figueira da religiosidade. Aos nossos próprios olhos, achamos que somos santos demais em relação aos outros. Encontramos pecado nas ações de todos os outros, menos em nós mesmos. Quando Deus revela o seu amor e graça, e perdoa a alguém que achamos que não merece, ficamos, como o profeta Jonas, revoltados.
Talvez seja essa a hora de voltamos todos para casa do Pai. Há filhos que se entregaram à devassidão, estão desperdiçando suas vidas em vícios e aventuras, buscando no prazer imediato a felicidade que somente pode ser preenchida pela presença do Pai. Há outros que estão na igreja, que cumprem suas obrigações, assumem com responsabilidade seus compromissos, mas seu coração está distante. Ainda que estejam “em casa”, desejariam estar no mundo, juntamente com o filho que se foi, entregando-se aos “prazeres” que tanto criticam. Não conseguem desfrutar da verdadeira alegria do evangelho, a boa nova de Deus. Não admitem que o Pai demonstre Sua graça para os filhos rebeldes que estão voltando para o lar.
De certo modo, todos nós somos pródigos, estamos todos distantes de casa. De longe, o olhar bondoso do Pai nos acompanha. Ele nos aguarda ansiosamente, até que desistamos de nós mesmos, dos nossos projetos egocêntricos e voltemos para casa. O mundo parece ser um lugar divertido, cheio de cores, mas cedo ou tarde ficará preto e branco. A religiosidade, com seus formalismos e aparências de santidade, também corrói o relacionamento com o Pai. Não conseguimos nos surpreender com o amor de Deus, não percebemos a beleza da criação, o esplendor de um sorriso de criança. Ao invés de olharmos para o céu estrelado ou o brilho da lua, preferimos as trevas que permeiam o espaço vazio. Como os dois filhos pródigos, precisamos voltar, não apenas para casa, mas para o coração do Pai. Ele nos aguarda de braços abertos.

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