6 de set de 2008

Uma verdade inconveniente

Esse é o título de um bem produzido documentário apresentado por Al Gore. Munido de uma série de recursos tecnológicos, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, se movimenta ao longo do palco de um teatro, mostrando dados alarmantes a respeito das conseqüências futuras do aquecimento global. As informações reportadas ao longo do documentário são, no mínimo, preocupantes. Elas questionam algumas das práticas consolidadas no cotidiano das pessoas e que contribuem para a destruição do planeta. Para nós, e principalmente para as empresas, as revelações daquele conferencista são perturbadoras, como o próprio título do filme o sugere, trata-se de uma verdade inconveniente que nos instiga a repensar a busca desenfreada e irresponsável por lucros imediatos em detrimento da destruição da criação de Deus.
Após assistir ao documentário, pensei em outras verdades inconvenientes, reveladas na Bíblia, das quais as pessoas costumam fugir. Uma delas, que certamente está relacionada à destruição da natureza (Rm. 8.20-22), é o pecado dos seres humanos. A maioria das pessoas prefere acreditar que o pecado é uma invenção dos religiosos. Acham que os religiosos deveriam se libertar dessa crença neurótica. Temer a Deus, buscar uma vida de santificação, é um caminho que costuma ser associado ao moralismo. Ninguém quer assumir sua condição de pecado. Esse, no entanto, não é um comportamento recente, pois de acordo com o relato bíblico do Gênesis, quando a primeira mulher e o primeiro homem pecaram, nenhum deles quis assumir sua condição de culpa, incriminaram um ao outro. Não por acaso, uma das frases menos usadas nas relações interpessoais é: “eu errei”.
Não entendo porque algumas pessoas ainda questionam a realidade do pecado. G. K. Chesterton, famoso escritor e pensador inglês cristão, admitia que, se existe uma verdade cristã que possa ser provada, essa é a do pecado. Basta abrir os jornais todos os dias, ver os noticiários da televisão para concluir que o pecado não é uma mera invenção dos religiosos. O pecado, conforme nos é revelado na Bíblia, é tanto uma condição quanto um comportamento. Isso porque ao mesmo tempo em que herdamos dos nossos pais a propensão para o pecado, também somos responsáveis por nossas atitudes pessoais. A palavra pecado, no grego bíblico, é harmartia e significa, literalmente, “errar o alvo”. O pecado, por assim dizer, nos distancia do alvo para o qual fomos originalmente criados, estar próximos de Deus. Mas o pecado não nos distancia apenas de Deus, ele também nos traz uma dura paga. De acordo com Paulo, em Rm. 3.23, o solário do pecado é a morte.
Não apenas a morte física, mas, principalmente, a espiritual, pois, ao pecarmos, escolhemos, a nossa própria vontade, ao invés da vontade de Deus. A conseqüência alarmante é, por conseguinte, o adoecimento do ser, o seu desequilíbrio físico, emocional e espiritual. Quando o ser humano se entrega ao pecado, não apenas se distancia de Deus. Ele também se distancia dos outros, daqueles que Jesus chamou de próximo, e o pior, se distancia dele mesmo. Pecamos, mas não fomos criados para tal, existe, como diz Paulo em I Co. 12.31, um caminho sobremodo excelente. Escolhemos, com Adão, pecar porque queremos viver nossas vidas sem a interferência de Deus. Achamos que nos sairemos melhor se Ele estiver morto, se não tivermos que prestar contas a Ele.
Esse é um ledo engano, pois quando queremos matar a Deus, assassinamos, na verdade, a nós mesmos. Fomos criados para viver em relacionamento contínuo com Ele. Nossas almas descansam na presença dEle, e como dizia Agostinho, não encontrará descanso senão nEle. Quando andamos na presença do Criador, dAquele que nos conhece, somos pacificados pelo seu amor. E o perfeito amor, dEle por nós e o nosso por Ele, diz João, lança fora todo o medo, por isso, quando nos entregamos a Deus, o pecado deixa de ser uma realidade para a qual vivemos (I Jo. 4.8). E ainda que venhamos a pecar, temos, a providência divina, um Perdoador Gracioso que nos ama e nos instrui a seguir em frente e a abandonar o pecado (Jo. 8.11; I Jo. 1.5-10; 2.1).
O pecado, como a destruição da Criação, é uma verdade inconveniente, da qual muita gente foge. Mas em ambos os casos, o arrependimento é uma condição necessária. Há um escape que Ele mesmo providenciou, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu filho unigênito para que todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo. 3.16). De modo que nenhuma condenação há para aqueles que se encontram em Cristo Jesus (Rm. 8.1). O risco é continuar acreditando, como aqueles que destroem a criação, que tudo está a nossa inteira disposição e que podemos fazer o que bem pretendemos. As conseqüências, em ambos os casos, serão devastadoras.