21 de dez de 2008

O retorno dos pródigos

Estive meditando nesses últimos dias a respeito de uma das mais belas parábolas de Jesus, a do filho pródigo. Lucas, em sua narrativa evangélica, nos repassa o alcance da graça e do amor de Deus na visão do Mestre. Segundo o relato, o filho mais jovem pede a herança do pai ainda em vida e parte em busca de aventuras. O mais velho, ao contrário do que pediu seu irmão, fica em casa, trabalhando para o seu pai. Mesmo com o coração partido, o velho cede aos caprichos do seu filho mais novo, lhe dá a parte da herança, e este, gasta todo o seu dinheiro dissolutamente. Quando as riquezas se acabam, vão com elas também os amigos, e o pobre rapaz, outrora acompanhado, finda solitário, sem mesmo ter o que comer. Consegue um emprego de criador de porcos, mas nem mesmo os restos de comida desses animais lhe é permitido comer.
Enquanto isso, o pai, em casa, aguarda ansiosamente a volta do filho que o abandonara. O mais velho trabalha resignadamente, na tentativa de suplantar a ausência do irmão desnaturado. Distante de casa, o jovem, com fome e sem amigos, toma a decisão de retornar à casa de seu pai. Sabe que gastou todos os recursos advindos da sua herança, nada mais há para pedir, senão que o seu velho e bondoso pai o aceite pelo menos como um dos seus vários empregados. Após dias de peregrinação pelo deserto causticante, o pai observa e, de longe, vê um homem com as vestes rotas, os pés já descalços, a pele queimada pelo sol. Mesmo assim ele reconhece, à distância, o filho que partira em busca dos prazeres efêmeros. Aos prantos, o jovem, conforme havia premeditado, pede ao pai que o receba, não como filho, mas como um dos seus servos.
O pai, com sua graça e amor escandalizantes, abraça seu filho sujo e maltrapilho, chama os empregados, ordena que lhe dê uma roupa nova e que coloquem o anel como símbolo da herança, que façam uma grande festa, matem o melhor bezerro da fazenda. Todos, então, começam a se alegrar, o pai a cantar, salta entre os seus servos gritando, meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. A alegria foi interrompida com a chegada do filho mais velho que se encontrava no campo. Não conseguia acreditar no que via, o irmão aventureiro voltara para casa, e o pior, depois de ter desperdiçado o dinheiro da família. Casmurro, olha para o pai e se queixa daquela atitude irracional. Como podia o pai aceitar de volta um filho que o deixara para trás? Seria justo o tratamento que estaria lhe dando? O pai, contudo, mostrou que amava os dois filhos e que, ao contrário de incriminá-lo, teria motivos para celebrar.
A meditação nesse texto nos revela uma série de verdades a respeito de Deus e do seu amor aos seres humanos. A primeira delas é que todos nós, indistintamente, somos pródigos, isto é, filhos que se distanciaram do Pai. Com Adão, pecamos todos, não há quem faça o bem, aquele que diz que não comete pecado está enganando a si mesmo. A diferença é que alguns, como o filho que se foi, reconhece a gravidade e sente, na pele, as conseqüências dos seus pecados. Outros, como o filho que ficou, se escondem debaixo das folhas de figueira da religiosidade. Aos nossos próprios olhos, achamos que somos santos demais em relação aos outros. Encontramos pecado nas ações de todos os outros, menos em nós mesmos. Quando Deus revela o seu amor e graça, e perdoa a alguém que achamos que não merece, ficamos, como o profeta Jonas, revoltados.
Talvez seja essa a hora de voltamos todos para casa do Pai. Há filhos que se entregaram à devassidão, estão desperdiçando suas vidas em vícios e aventuras, buscando no prazer imediato a felicidade que somente pode ser preenchida pela presença do Pai. Há outros que estão na igreja, que cumprem suas obrigações, assumem com responsabilidade seus compromissos, mas seu coração está distante. Ainda que estejam “em casa”, desejariam estar no mundo, juntamente com o filho que se foi, entregando-se aos “prazeres” que tanto criticam. Não conseguem desfrutar da verdadeira alegria do evangelho, a boa nova de Deus. Não admitem que o Pai demonstre Sua graça para os filhos rebeldes que estão voltando para o lar.
De certo modo, todos nós somos pródigos, estamos todos distantes de casa. De longe, o olhar bondoso do Pai nos acompanha. Ele nos aguarda ansiosamente, até que desistamos de nós mesmos, dos nossos projetos egocêntricos e voltemos para casa. O mundo parece ser um lugar divertido, cheio de cores, mas cedo ou tarde ficará preto e branco. A religiosidade, com seus formalismos e aparências de santidade, também corrói o relacionamento com o Pai. Não conseguimos nos surpreender com o amor de Deus, não percebemos a beleza da criação, o esplendor de um sorriso de criança. Ao invés de olharmos para o céu estrelado ou o brilho da lua, preferimos as trevas que permeiam o espaço vazio. Como os dois filhos pródigos, precisamos voltar, não apenas para casa, mas para o coração do Pai. Ele nos aguarda de braços abertos.

30 de nov de 2008

Sobre carros e livros

Há crônicas que pedem para ser escritas. Esta é uma delas. Relutei bastante até ter a coragem de escrever a respeito de um assunto tão melindroso. Talvez por respeito a várias pessoas que conheço, as quais, seguindo a propaganda publicitária, dizem que os “brasileiros adoram carros”. Se isso for verdade, estou começando a questionar minha brasilidade. Muito embora, tenha um carinho imenso pelo meu país, apesar de tantas coisas ruins que fazem com ele. Digo isso porque, sinceramente, os carros não me atraem muito. Para mim, não passam de objetos funcionais, isto é, que me servem para ir e voltar de um lugar para outro.
Por várias vezes, já fui perguntado porque, como a maioria das pessoas, ainda não troquei de carro? Sinto que alguns ficam incomodado quando me encontram e vêem que continuo dirigindo um veículo antigo. Outros vão mais além e cobram diretamente, como se eu tivesse a obrigação de andar em um automóvel do ano. Não reprovo aqueles que querem andar ou ter um carro novo, não estou sequer descartando a possibilidade de também o faze-lo algum dia. Defendo apenas que isso não deva ser posto como regra geral, uma espécie de “ditatura” em massa, alimentada pela propaganda que nos quer fazer acreditar que porque estamos num carro zero quilômetro somos mais másculos ou felizes.
Precisamos aprender que os objetos não têm valor por si, isto é, inerentes a eles. É a sociedade que determina qual o valor de uma determinada coisa. Quanto mais valioso for o objeto, maior será o preço por ele cobrado. Existem, inclusive, aqueles que trabalham para dizer que um determinado objeto vale certa quantia. Nos anos 90 eu possuía um fusca 77 azul que me fora bastante útil. Até o dia em que precisei de uma linha telefônica para me conectar a internet. Como naquele tempo uma linha telefônica era coisa rara, não hesitei em trocar o fusca pelo número telefônico. Ironicamente, meu irmão mais novo me disse que, com certeza, eu iria conseguir ir bem mais longe e, sinceramente, acho que ele tinha toda razão.
Não sou apaixonado por carros, mas não nego que sou aficionado por livros. Acabei de receber uma excelente coleção de comentários bíblicos do exterior. Estou sempre procurando encontrar mais espaço na estante para colocar livros. Entre abrir mão de comprar meus livros, e ter as melhores e mais recentes edições, ou trocar de carro, fico com a primeira opção. Não faço questão de andar em um carro mais antigo, mas não abro mão do que há de melhor na literatura cristã. Lembro-me de Paulo que, quando estava na prisão, pediu a Timóteo que lhe trouxesse a capa e os pergaminhos (II Tm. 4.13). O Apóstolo dos Gentios era um homem dado à leitura, não se apartava das sábias letras que nos fazem realmente sábios (II Tm. 3.15).
Se querem que eu seja mais franco, gostaria que os brasileiros, ao invés desse amor exagerado por carros, fossem mais apaixonado por livros. Se não me falha a memória, foi Rui Barbosa que disse que um país se faz “com homens e livros”, não com carros. A industria automobilística, com todo o artefato publicitáio, certamente vai discordar de mim. Mas não me importa, sei que sua motivação primordial é com a obtenção de lucros fartos. Como cristão, me causa preocupação que muitos que servem a Cristo estejam sendo levados por essa onda. Há muitos até que depositam as chaves de seus carros nos púlpitos. Alguns em gratidão, outros por ostentação, e a maioria, por falta de discernimento.
Imagino que, finalmente, o leitor entende porque hesitei tanto em escrever essa crônica. Estou consciente de que estou indo de encontro a maioria, devido a uma prática naturalizada que as pessoas, inclusive os cristãos, acatam como se fosse algo normal. Faço-o porque tenho consciência da necessidade profética. Muitos estão endividados porque querem satisfazer essa cobrança da sociedade (engraçado ela cobra, mas não patrocina). Não entendo muito de economia, mas ouvi um especialista dizer, um dia desses, que a bolha americana no Brasil poderá ser não a imobiliária, mas a automobilística. Nunca se comprou e vendeu tanto carro como nos dias atuais, da minha parte, sinceramente, já estou preparado para o dia em que todos deixaremos os carros na garagem e andaremos a pé ou de bicicleta.


28 de set de 2008

O cristão e a política

Como deve ser a atuação do cristão diante da política? Não é fácil responder a essa pergunta, especialmente na efervescência das eleições municipais. Mesmo assim, ouso tecer algumas considerações a respeito. Quero deixar bem claro, a princípio, que não estou tomando partido. Tenho como objetivo, nessas mal traçadas linhas, refletir, e quiçá, instruir aos meus irmãos evangélicos a respeito de como proceder diante das urnas não só nesses pleito, mas em muitos outros que a esse sucederão. Preocupo-me com essa problemática, porque, a meu ver, nos tornamos alvos fáceis dos interesses politiqueiros.
Nada tenho contra a política, na verdade, o cristianismo fora o berço no qual a democracia fora criada. É preciso ser realista para reconhecer que o direito ao voto foi uma conquista que não podemos abrir mão. Os cristãos, como cidadãos não só dos céus, mas também da terra, precisam atuar no contexto social no qual estão inseridos. Isso, no entanto, precisa ser feito com maturidade, avaliando as conseqüências das decisões que serão tomadas. O voto é algo sério que não deva ser tratado irresponsavelmente. É uma pena que, para muitas pessoas, atuar na política não se distinga da torcida por um determinado time de futebol. O imaginário político brasileiro ainda se firma nessa cultura. Alguns evangélicos não gostam de futebol, mas canalizam o seu fervor para a política.
Os políticos sabem muito bem disso e não perdem a oportunidade para tirar proveito. Visitam nossas igrejas, chegam mesmo a portar bíblias, e não poucas vezes, ainda nos saúdam como se cristãos fossem. Alguns deles, ainda que na surdina, respondem por envolvimento em atos de corrupção. Nós, no entanto, fazemos questão de não saber o passado desses, e damos-lhes honras que não são devidas. A criticidade é um elemento preponderante para a saúde da democracia. Ser crítico, nesse sentido, é adotar uma postura profética, mais ou menos parecida com aquela dos profetas do Senhor. O poder é sedutor e todos aqueles que se envolvem com ele estão suscetíveis à corrupção. A fiscalização, na conjuntura democrática, é uma necessidade, a fim de que não sejamos levados pelo engano.
Como cristãos, precisamos também dar o exemplo e não nos envolvermos na política para tirar proveito próprio. Enquanto estivermos fomentando a cultura da politicagem, seremos cúmplices das mazelas sociais pelas quais o país passa. Não seremos capazes de adotar uma postura profética perante aqueles que se utilizam do dinheiro público para o enriquecimento ilícito. Essas colocações podem até ser confundidas com um pensamento de esquerda. Mas volto a dizer, não é esse o posicionamento que quero adotar. Na verdade, se olharmos para as leis eleitorais deste país, veremos que tudo o que estou dizendo aqui está fundamentado naqueles princípios. E se formos à fonte, veremos que a Bíblia, a Constituição Magna do cristão, nos instrui ao bem comum e a amar o próximo.
Nesse momento em que o Brasil carece de um posicionamento ético, especialmente no que tange à política, nós, os cristãos, precisamos dar o exemplo. Não nos envolvamos com candidatos que não têm compromisso com a sociedade, que, em sua história, fazem política não por vocação, mas tão somente para estar no poder e dele tirarem proveito próprio. Exerçamos o nosso dever político, votando e sendo votados, mas sejamos criteriosos em nossas escolhas. Pensemos em que tipo de cidade, estado e/ou país queremos para os nossos filhos. Para a construção de um futuro melhor, talvez seja necessário que sejamos menos imediatistas. A política do cristão, diferentemente da do mundo, está fundamentada no amor.
O amor, como nos ensinou Jesus, demanda sacrifício. Portanto, se quisermos encontrar um caminho cristão para a participação política, devemos está respaldados pela política do agape. Antes de votar, ou de ter qualquer inserção política, devemos perguntar: estou realmente comprometido com o amor ao próximo? estou disposto a me sacrificar pelo bem das pessoas? Estou investido do chamado para fazer diferença e abrir mão dos meus interesses com vistas ao bem-comum? Essa perguntas, a meu ver, servem não apenas para aqueles que desejam tomar parte na política, elas serão úteis, também, para avaliar que tipo de governante queremos. Isso posto, talvez alguém considere utópico demais para ser verdade. Mas quem disse que o cristianismo se envergonha de ser utópico?
A Bíblia dá, a esse disposição, um outro nome: esperança. E essa se manifesta na expectação pelo dia que, finalmente, Jesus será entronizado como Rei dos rei e Senhor dos senhores. Ainda que esse dia não tenha chegado, vivemos, como cristãos, já sob o Senhoria de Cristo, atuemos, pois, em amor, e na difusão do Reino que está dentro de nós.

6 de set de 2008

Uma verdade inconveniente

Esse é o título de um bem produzido documentário apresentado por Al Gore. Munido de uma série de recursos tecnológicos, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, se movimenta ao longo do palco de um teatro, mostrando dados alarmantes a respeito das conseqüências futuras do aquecimento global. As informações reportadas ao longo do documentário são, no mínimo, preocupantes. Elas questionam algumas das práticas consolidadas no cotidiano das pessoas e que contribuem para a destruição do planeta. Para nós, e principalmente para as empresas, as revelações daquele conferencista são perturbadoras, como o próprio título do filme o sugere, trata-se de uma verdade inconveniente que nos instiga a repensar a busca desenfreada e irresponsável por lucros imediatos em detrimento da destruição da criação de Deus.
Após assistir ao documentário, pensei em outras verdades inconvenientes, reveladas na Bíblia, das quais as pessoas costumam fugir. Uma delas, que certamente está relacionada à destruição da natureza (Rm. 8.20-22), é o pecado dos seres humanos. A maioria das pessoas prefere acreditar que o pecado é uma invenção dos religiosos. Acham que os religiosos deveriam se libertar dessa crença neurótica. Temer a Deus, buscar uma vida de santificação, é um caminho que costuma ser associado ao moralismo. Ninguém quer assumir sua condição de pecado. Esse, no entanto, não é um comportamento recente, pois de acordo com o relato bíblico do Gênesis, quando a primeira mulher e o primeiro homem pecaram, nenhum deles quis assumir sua condição de culpa, incriminaram um ao outro. Não por acaso, uma das frases menos usadas nas relações interpessoais é: “eu errei”.
Não entendo porque algumas pessoas ainda questionam a realidade do pecado. G. K. Chesterton, famoso escritor e pensador inglês cristão, admitia que, se existe uma verdade cristã que possa ser provada, essa é a do pecado. Basta abrir os jornais todos os dias, ver os noticiários da televisão para concluir que o pecado não é uma mera invenção dos religiosos. O pecado, conforme nos é revelado na Bíblia, é tanto uma condição quanto um comportamento. Isso porque ao mesmo tempo em que herdamos dos nossos pais a propensão para o pecado, também somos responsáveis por nossas atitudes pessoais. A palavra pecado, no grego bíblico, é harmartia e significa, literalmente, “errar o alvo”. O pecado, por assim dizer, nos distancia do alvo para o qual fomos originalmente criados, estar próximos de Deus. Mas o pecado não nos distancia apenas de Deus, ele também nos traz uma dura paga. De acordo com Paulo, em Rm. 3.23, o solário do pecado é a morte.
Não apenas a morte física, mas, principalmente, a espiritual, pois, ao pecarmos, escolhemos, a nossa própria vontade, ao invés da vontade de Deus. A conseqüência alarmante é, por conseguinte, o adoecimento do ser, o seu desequilíbrio físico, emocional e espiritual. Quando o ser humano se entrega ao pecado, não apenas se distancia de Deus. Ele também se distancia dos outros, daqueles que Jesus chamou de próximo, e o pior, se distancia dele mesmo. Pecamos, mas não fomos criados para tal, existe, como diz Paulo em I Co. 12.31, um caminho sobremodo excelente. Escolhemos, com Adão, pecar porque queremos viver nossas vidas sem a interferência de Deus. Achamos que nos sairemos melhor se Ele estiver morto, se não tivermos que prestar contas a Ele.
Esse é um ledo engano, pois quando queremos matar a Deus, assassinamos, na verdade, a nós mesmos. Fomos criados para viver em relacionamento contínuo com Ele. Nossas almas descansam na presença dEle, e como dizia Agostinho, não encontrará descanso senão nEle. Quando andamos na presença do Criador, dAquele que nos conhece, somos pacificados pelo seu amor. E o perfeito amor, dEle por nós e o nosso por Ele, diz João, lança fora todo o medo, por isso, quando nos entregamos a Deus, o pecado deixa de ser uma realidade para a qual vivemos (I Jo. 4.8). E ainda que venhamos a pecar, temos, a providência divina, um Perdoador Gracioso que nos ama e nos instrui a seguir em frente e a abandonar o pecado (Jo. 8.11; I Jo. 1.5-10; 2.1).
O pecado, como a destruição da Criação, é uma verdade inconveniente, da qual muita gente foge. Mas em ambos os casos, o arrependimento é uma condição necessária. Há um escape que Ele mesmo providenciou, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu filho unigênito para que todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo. 3.16). De modo que nenhuma condenação há para aqueles que se encontram em Cristo Jesus (Rm. 8.1). O risco é continuar acreditando, como aqueles que destroem a criação, que tudo está a nossa inteira disposição e que podemos fazer o que bem pretendemos. As conseqüências, em ambos os casos, serão devastadoras.

27 de jul de 2008

Fé, razão e discipulado

Um dia desses, em meio a uma discussão acadêmica, fui indagado a respeito da relação entre fé e razão. De pronto, respondi que não me posicionaria como filósofo, ainda que, por necessidade, tenha algumas leituras na área. Nessa relação entre fé e razão, coloco-me como teólogo, e isso, na verdade, faz muita diferença. Digo isso porque, geralmente, os filósofos costumam pôr a razão diante da fé. Observem que não estou generalizando ou mesmo os incriminado por essa opção. Isso acontece porque percebo, pelo menos na filosofia moderna, uma tendência à racionalidade pura. Nas linhas, a seguir, tentarei explicar o que entendo por essa relação, e, na tentativa de construir um tripé, incluo um fator que julgo fundamental à fé cristã, o discipulado.
A ênfase na razão pura, ainda que seja possível remete-las aos filósofos gregos, ganhou maior notoriedade, nesses últimos anos, com o advento do Iluminismo. No Século XVII, os pensadores defendiam que o conhecimento deveria ser alcançado simplesmente por meio da razão. Antes disso, encontramos esse pressuposto no pensamento de René Descartes, percebido em sua famosa proposição: “penso, logo existo”. Por meio de tal assertiva, e de todas as outras dela provenientes, o homem moderno passou a defender que não haveria verdade fora da razão. Tudo, até mesmo as manifestações religiosas, deveriam ser tratadas, ou melhor, julgadas pelo crivo da lógica. Para entender as implicações dessa abordagem, basta citar a publicação da Bíblia de Thomas Jefferson, ex-presidente americano, que retirou da Escritura todas as passagens que julgava ofenderem a razão, a começar pela ressurreição de Cristo.
Por se fiarem na razão pura, muitos dizem que não acreditam na existência de Deus. Alguns, como Jefferson, referem-se a Deus como um Motor Imóvel, nos moldes aristotélicos, difundido por Thomas de Aquino. Deus, nessa perspectiva, não passaria de um relojoeiro que se distanciou de sua criação. Essa opção é, no mínimo, assustadora e nos conduz à sensação de abandono. O Deus da Bíblia, como bem ressaltou Blaise Pascal, é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, ou melhor, é Aquele que nos ama e o provou quando se manifestou em Cristo. O cristão, em conseqüência dessa realidade, não fundamenta sua fé na razão pura. Ele confia no ato gracioso da revelação em Cristo. Motivo pelo qual nos remetemos, com freqüência, à abertura do Evangelho Segundo João. Para esse discípulo, o Verbo se fez carne e habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Diante dessa manifestação, só nos resta duas alternativas. A primeira, acreditar que Deus nos falou através de Seu Filho, e a segunda, continuar tentando encontrar Deus por meio da reflexão humana.
Sempre que reflito a respeito desse assunto, lembro-me de um exemplo dado por Calvino em suas Institutas. O reformador diz que certo homem aproximou-se de um pensador, rogando-o que lhe dissesse quem era Deus. Ao invés de responde-lo, aquele sábio sempre pedia um número maior de dias para pensar. Na primeira vez pediu dois dias, depois, aumentou para quatro e assim sucessivamente. Por fim, reconheceu que seria impossível dizer quem seria Deus por meio de suas investigações racionais. A partir dessa narrativa, Calvino introduz a sua discussão a respeito da revelação divina na Sagrada Escritura. Como Agostinho, Calvino e Blaise Pascal, sigo o mesmo encaminhamento.
Defendo que crer pode implicar em também pensar. Para ser um pouco mais preciso, levo em conta, no que tange à fé, o célebre postulado de Anselmo de Aorta. Para ele, é necessário primeiro crer, para depois, compreender. Assim, ao pôr a revelação como ponto arquimediano, posso usar a mente como culto razoável a Deus, levando cativo meu pensamento a Cristo. A razão, nesse contexto bíblico-teológico, tem o seu devido lugar, mas estará sempre sujeita à revelação. O primeiro passo para entender essa revelação, propõe Paul Ricoeur, é acreditar no Deus que nos deixou sinais. Mas para tanto, precisamos reconhecer nossas limitações para encontrá-lo de outro modo que não por iniciativa dEle. Ademais, a opção de crer nos traz sérias conseqüências, que nos devam direcionar para a obediência à voz de Cristo. De modo que, ao nos dispormos a ouvi-Lo, não podemos fugir ao Seu discipulado. Como Ele, também teremos uma cruz para carregar, e esse, certamente, é um preço que nem todos estão dispostos a pagar.

29 de jun de 2008

A morte vencida

Nos primeiros anos da juventude, debati-me frontalmente com a dura realidade da morte. Aos dezesseis anos de idade, quando ainda não era cristão, passava horas angustiado, incomodado com a incerteza a respeito daquela que costuma ser a única certeza dos seres humanos. Depois de alguns meses, passei a ler a Bíblia, e finalmente, ao me tornar cristão, a morte deixou de ser uma inimiga assustadora. Aprendi, meditando nos textos sacros, que Jesus é a ressurreição e vida, e, crendo nEle, encontraria a eternidade. A partir das epístolas de Paulo, aprendi que a morte não é o fim da existência, tendo em vista que, nas palavras desse apóstolo, ela é uma partida para estar com Cristo, e, portanto, algo incomparavelmente melhor.
Essa, no entanto, não é a visão do mundo secularizado. A morte, para a maioria das pessoas, significa o fim definitivo da vida. De vez em quando, nos noticiários da morte de alguém, observo a utilização de expressões do tipo: “... após meses de luta contra o câncer – ou outra doença qualquer – [diz-se o nome da pessoa] acabou perdendo a batalha”. Passa-se, com esses termos, a idéia de que a morte venceu, e que nada mais há que se possa esperar. Entristeço-me com as situações das pessoas que não podem ter esperança em relação à morte. Lembro-me de Jesus diante do túmulo de Lázaro. A família enlutada, aos prantos, lamentava a morte do amigo do Senhor. Jesus, naquele momento, também chorou, não por desespero, mas porque entendia a angustia pela qual passava os celebrantes daquele ato fúnebre.
Não raro encontro cristãos que foram contaminados por essa visão de mundo. Nas conversas do cotidiano, é comum ouvir pessoas que professam a fé em Cristo falarem da morte como se, por meio dela, toda esperança se findasse. Determinados diálogos em celebrações fúnebres têm a cara do desespero do mundo secularizado. A morte de um irmão, para alguns cristãos, é motivo de tristeza. Há aqueles que tratam logo de encontrar algum pecado que tenha sido o motivo do espírito de mortandade. Outros celebram a vida aqui na terra como se fosse uma riqueza e, ainda que não o digam explicitamente, deixam, nas entrelinhas, a crença de que agradecem por não ser ele que se encontra no lugar daquele que “passou” para o Senhor. As narrativas a respeito da morte dos outros, mesmo dos cristãos, acaba tendo uma conotação trágica.
Esse tipo de percepção em relação à morte, mesmo entre os cristãos, não é recente. Ao ler o capítulo 4 da Epístola de Paulo aos Tessalonicesses, identifico o desespero dos membros daquela igreja quando partia um dos seus membros. O apóstolo precisou esclarecer, naquela carta, que a morte não seria um fim, conclamando-os a não serem ignorantes com respeito aos que já haviam morrido. A mensagem é consoladora à medida que admoesta, aos que ainda vivem na carne, para que continuem aguardando a volta de Cristo. Paulo diz que, por ocasião dessa, os que estiverem vivos, serão transladados para encontrar com o Senhor nos ares. Quanto aos que já passaram para o Senhor, esses serão ressuscitados em corpos glorificados. Essa é a esperança de todos aqueles que professam a fé em Jesus.
Como todo e qualquer cristão normal, não estou isento de momentos de temor diante da iminência da morte. Num mundo repleto de violência e de tantas enfermidades, sou tentado, de vez em quando, a ver a morte como algo negativo, mas estou longe de me orgulhar de tais situações. Muito pelo contrário, reconheço à propensão para a falta de fé e me volto para a palavra de Deus. Recordo-me de que Jesus trouxe à luz a imortalidade através do Seu evangelho (II Tm. 1.10). Que quando esse tabernáculo humano se desfizer, receberei, do Senhor, um corpo incorruptível, não mais sujeito às fragilidades temporais (II Co. 5.1). A meditação nessas verdades reveladas me traz de volta a confiança, e repentinamente, o medo da morte se esvai, e sobrenaturalmente, passo a vê-la a partir do prisma do Senhor (Sl. 116.15; Ap. 21.4). Percebo que nada me separará do amor de Cristo, nem mesmo a morte (Fp. 1.20; Rm. 8.38), e que, ao final, essa será definitivamente tragada pela vitória (I Co. 15.54).
O poeta inglês John Donne, após vários anos de meditação sobre a morte, chegou a uma confortadora conclusão. Em versos diz: “Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado, poderosa e terrível, porque tal não és, já que quantos tu julgas ter pisado aos pés, não morrem, nem de ti eu posso ser tocado”. Com Donne, concordamos que a morte não pode tocar aquele cuja esperança repousa no Senhor da Vida. Ao ser vencida por Cristo, no ato da ressurreição, a morte perdeu o seu poder. Resta-nos, a partir de então, a agradável surpresa e a convicção de que “as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” (II Co. 2.9).

31 de mai de 2008

O caminho da simplicidade

“Simplicidade”, eis aqui uma palavra fora de moda. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define-a como “ausência de pompa, luxo ou sofisticação”. Numa sociedade pautada justamente por valores contrários a isso, como esperar que alguém queira ter um estilo de vida simples? O que se quer mesmo é exibir a casa luxuosa ou o automóvel recém lançado, ainda que, a novidade se reduza apenas a um botão posto em algum lugar, mostrado num comercial de televisão, sem qualquer utilidade. Vivemos em uma sociedade de consumo, que, com certeza, irá muito mais adiante, já que, infelizmente, nossos filhos também estão sendo formados, e porque não dizer, “bombardeados” para se tornarem consumidores compulsivos e em potencial.
O mais incrível de tudo isso é que os alguns evangélicos, embora sejam terminantemente contrários ao mundanismo, abraçam um estilo de vida de ostentação, sem sequer darem-se conta de que estão alimentando um sistema secular que se opõe paradoxalmente à verdade do evangelho de Cristo. Testemunhamos, nos dias atuais, uma verdadeira destruição da natureza, e isto, com base numa pífia exegese de Gn. 1.26-28, onde Deus nos instrui a dominar sobre a terra e não a terra. Com isso, o Senhor está nos orientando não a destruí-la, mas a cuidar dela para nós mesmos, para os nossos filhos, e principalmente, para a glória dEle mesmo que a criou. Somos mordomos e não proprietários, e isso não pode ser esquecido, caso contrário, em nome da ganância, findaremos por destruir o planeta, nossa morada e criação de Deus.
O evangelho de Cristo, na verdade, não se coaduna com o famigerado desejo consumista desse capitalismo selvagem. Em Lc. 12.25, o Senhor nos alerta contra tal comportamento com as seguintes palavras: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui”. Esse cuidado não tem sido observado por muitos cristãos, os quais, seguindo os parâmetros do mundo, julgam as pessoas pelo que pertencem. Nos trilhos da teologia da prosperidade, aquele que detêm um maior poder aquisitivo é louvado como sendo “abençoado”, sendo assim, por exclusão, aquele que não pode ter mais do que uma bicicleta ou um carro usado, é tido como “amaldiçoado”. São poucos que, como Paulo, valorizam a riqueza das boas obras, daqueles que são generosos em dar e prontos para repartir (I Tm. 6.18).
Precisamos recuperar um estilo de vida simples que vá de encontro à sociedade materialista e consumista que deteriora o espírito humano. Não estamos propondo uma teologia da miséria, mas da simplicidade, para isso, devemos nos opor à cultura do desperdício e da ostentação em todos os aspectos do viver diário. Sabemos que essa não é uma tarefa fácil, mas roguemos ao Senhor que nos ensine a fazer a diferença entre o que é necessidade e o que é luxo, sem desprezar os dons de Deus a nós concedidos (I Tm. 4.4,5) e muito menos nossa responsabilidade para com os membros da família (I Tm. 5.8). Tenhamos o devido cuidado para que, a fim de angariarmos louvores dos homens, venhamos a pecar, deixando de buscar o valoroso louvor que vem de Deus (Jo. 12.43). A ostentação é filha do consumismo e se por ela nos deixarmos controlar, acabaremos eternamente frustrados, seguindo o percurso insaciável do descontentamento.
Nada há de errado em buscar melhores condições de vida, reconhecendo, como cristãos, que tudo procede de Deus, e por isso, sendo a Ele gratos (I Tm. 4.4; 6.17). Mas a meta do cristão não pode ser o acúmulo descontrolado de riquezas, antes ter, com critério, o suprimento das necessidades familiares, e também, para ajudar os mais necessitados (I Ts. 1.11; Ef. 4.28). Para não entrarmos nessa onda, o segredo é trilhar o caminho da simplicidade experimentado por Paulo: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” (Fp. 4.11-13). E mais: “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (I Tm. 1.8). Essa é a proposta desafiante para uma vida simples, que Deus nos ajude a cultivá-la.

27 de abr de 2008

O exercício espiritual

A vida sedentária, para a maioria das pessoas, provoca forte sentimento de culpa. Não por acaso, as academias de ginástica estão tão lotadas nos dias atuais. À noite, ou cedo pela manhã, quando vou ou retorno do trabalho, vejo várias pessoas caminhando pelas calçadas. Fico imaginando como a cultura da saúde é capaz de tirar pessoas tão cedo de suas camas e abrirem mão do sono matutino.
Reflito, também, a respeito da recomendação de Paulo ao jovem pastor Timóteo: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir” (I Tm. 4.8). O apóstolo não está se opondo à ginástica física, mas coloca, em superioridade, um outro tipo de atividade: a espiritual, comumente traduzida por piedade.
Sobre esse tipo de exercício, recomenda ainda: “rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade” (I Tm. 4.7). Esse é um cuidado recorrente de Paulo, principalmente, em relação àqueles que estão imbuídos de responsabilidade ministerial, orientado-os a seguir “a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão” (I Tm. 6.11).
A palavra piedade, no grego, é eusebeia, e dá idéia de espiritualidade, reverência, respeito e fidelidade a Deus. O sentido mais próprio da palavra, associada ao termo exercício, diz respeito à prática devocional na vida cristã, por isso, algumas traduções bíblicas denominam-na de “disciplina”. Assim, do mesmo modo que o atleta se exercita para obter êxito em suas competições, o cristão precisa, continuamente, devotar tempo à espiritualidade.
Um certo jovem queixou-se ao seu pastor das suas lutas interiores entre a carne e o espírito, e perguntou-lhe qual dessas duas forças que militavam dentro dele venceria. O pastor, fazendo alusão às obras da carne e ao fruto do Espírito, de Gl. 5.19-23, respondeu que o vencedor seria aquele que estivesse mais bem nutrido. A esse respeito, vale lembrar a recomendação de Paulo: “andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gl. 5. 16).
As inúmeras atribuições da vida podem fazer com que sejamos distanciados de uma prática cristã espiritual. Spurgeon, o príncipe dos pregadores, costumava dizer que não passava mais do que quinze minutos sem pensar em Deus. O motivo para essa disciplina, talvez se explique por meio da declaração de D. L. Moody, o pregador de Chicago, ao ser perguntado se era cheio do Espírito Santo. Ele respondeu que sim, mas precisava estar sempre buscando mais, pois tinha um vazamento.
De fato, o esgotamento espiritual do dia-a-dia faz com que precisemos, continuamente, procurar por mais de Deus, e isso se dá através do exercício espiritual, que nos possibilita desfrutarmos, cada vez mais, de plena comunhão com o Senhor. A oração é o princípio da piedade, sem ela o cotidiano se torna mais árido e distante da presença de Deus. Em consonância à essa prática está a leitura devocional da Bíblia, a fim de sermos, por ela, alimentados.
Os grandes músicos são aqueles que se exercitam constantemente. Se um grande pianista desprezar as horas de ensaio, em pouco tempo, seus admiradores e críticos passarão a observar que ele já não é mais o mesmo. Da mesma forma, quanto menos deixarmos de lado o exercício espiritual, constataremos que estamos diferentes, por fim, as outras pessoas que nos cercam também notarão o mesmo.Nessa época de tantos exercícios físicos, os quais não devam ser desprezados, já que o corpo o santuário do Espírito Santo, e, portanto, deva ser bem cuidado, não podemos, no entanto, descuidar dos exercícios espirituais. Caso contrário, muito em breve estaremos espiritualmente fora de forma, e já nos faltará o mesmo pique que tínhamos antigamente. Abandonar a dieta espiritual recomendada pelo Médico dos médicos é algo que não devemos fazer. Tenhamos cuidado com o sedentarismo espiritual!

30 de mar de 2008

E-mail a um jovem

Amado jovem, acabei de ler o seu e-mail, pedindo alguns conselhos a respeito de como encarar a juventude cristã com fé e sabedoria. Agradeço pela confiança que você deposita em minhas palavras. Os anos se passam e eu já não sou tão jovem, mesmo assim, creio que ainda tenho alguma experiência para repassar. Gostaria de deixar claro que não tenho todas as respostas às perguntas que você me faz em seu e-mail. Tentarei responder algumas delas, pelo menos as que considero mais importantes. Apelarei tanto à experiência pessoal quanto ao que considero ser a Palavra de Deus. Espero que você possa discernir quais conselhos são pessoais e os que provêm do Senhor. Recomendo, assim, que você examine tudo o que escrevo, e parafraseando o apóstolo Paulo, retenha o que for proveitoso para a sua vida.
Em relação aos estudos, sugiro que mantenha uma certa disciplina, não se deixe levar pela espontaneidade, separe partes do dia para tarefas específicas. Há tempo para todo o propósito debaixo do céu, por isso, tenha um momento particular, entre você e Deus, para a leitura da Bíblia e à oração, e, do mesmo modo, para as atividades escolares. Se possível, tente ir além do que o professor orienta. Pesquise, vá à internet, às bibliotecas, busque subsídios que ampliem os horizontes de seus conhecimentos. Mantenha uma prática rotineira de leituras, e, para isso, existem sempre bons livros evangélicos disponíveis. Mas não se restrinja a eles, leia também a grande literatura. Os autores clássicos, e alguns contemporâneos têm sempre algo a nos acrescentar.
Sobre a televisão, recomendo que seja mais criterioso. A programação da TV brasileira, dominada pelo mercado, é de péssima qualidade. Por isso, tenha cuidado para não desperdiçar todo o seu precioso tempo diante de programas que nada adicionarão à sua vida. O perigo maior é quando a televisão, ou mesmo a internet, passam a ter maior atenção, no dia-a-dia, do que a leitura e as atividades estudantis. Tente equilibrar as tarefas do dia-a-dia com sabedoria, pois o tempo é uma dádiva de Deus, e, no momento certo, dele prestaremos conta. Antes que me esqueça, não deixe de aprender uma outra língua. Existem muitas maneiras de fazê-lo, e a motivação determinará o bom êxito nesse particular. Se for possível, freqüente uma escola de línguas, mas não fique apenas nisso, pratique fora do ambiente escolar, leia e ouça na língua que pretende se desenvolver.
A respeito da profissão, nunca é fácil se posicionar, e essa parece ser uma das suas preocupações fundamentais no seu e-mail. Uma escolha acertada é fundamental na vida, e imagino, seja crucial, e às vezes, injusto, ter de fazer uma decisão nessa idade. O que tenho a dizer, de modo geral, é que, como cristão, o dinheiro não deva ser o critério básico. Decida-se por alguma profissão com a qual se identifica e que perceba que o Senhor será glorificado em seu exercício. Tenha em mente que, para o cristão, não existem trabalhos sagrados e seculares, seja no contexto eclesiástico, ou fora dele, podemos servir a Deus, desde que façamos tudo por fé. É por isso que, para o cristão, o tempo não é dinheiro, é, acima de tudo, uma oportunidade para servir e fazer o bem. O dinheiro poderá vir como conseqüência, jamais como um fim em si mesmo.
Por motivo de espaço, creio estar no momento de concluir, mas sem antes deixar de tratar de um outro assunto que você considera de profunda relevância: o namoro e o casamento. Entendo sua inquietação e espero ser capaz de orienta-lo nesse sentido, por isso, deixo-o à vontade para avaliar. Em primeiro lugar, não se envolva cedo demais em relacionamentos amorosos, pois há o risco de que você acabe comprometendo sua vida estudantil e profissional por causa das paixonites precoces da juventude. Não entre nessa onda do “ficar", alguns conselheiros dizem que quanto mais se “fica”, maiores serão as dificuldades para se encontrar uma pessoa com a qual se possa firmar um relacionamento duradouro. Pense bem a respeito, já que essa escolha irá determinar com quem você irá caminhar no futuro. Sei que não é fácil para os jovens, e mesmo para os mais velhos, mais não se deixe levar pela cultura do sexo e da beleza física. Existem outros valores que precisam ser cultivados e admirados, os quais, infelizmente, estão ofuscados pela mídia de massa.
Vou terminar, mas voltarei a escreve-lo em outra oportunidade. Por enquanto, medite nessas coisas, aprenda a ver as verdades do evangelho não como uma lei da parte de um Deus-estraga-prazeres. O Senhor não deseja que sejamos destruídos com o mundo, por isso, quando nos instrui, o faz em amor. O autor do Eclesiastes diz: “Lembra do teu Criador nos dias da tua mocidade”. Ele não apenas é o teu Criador é, também, um Deus Amoroso, que o atrai a Ele para que você desfrute da verdadeira felicidade. Foge, portanto, dos desejos desenfreados da juventude, renda-se ao jugo de Cristo, que é manso e suave, nEle, você encontrará descanso para a tua alma. Um forte abraço cristão e até o próximo. E não se esqueça, seguir a Cristo, e não as ondas das novas tribos, é a verdadeira contracultura.

25 de fev de 2008

O Jesus dos Evangelhos

Existem muitos retratos de Jesus, cada um deles O mostra com uma aparência distinta. O mais comum deles é o que O emoldura dentro do perfil europeu. Um homem alto, de cabelos longos e louros, olhos azulados e rosto esguio. Cresci vendo esse rosto, e, não poucas vezes, sou tentado a visualizar o Senhor com aquele semblante. Esse, porém, não é o único padrão físico que nos é apresentado de Cristo. O Jesus de Nazaré, do filme de Franco Zefirelli, é um dos mais conhecidos do cinema. Há quem imagine que o rosto de Cristo é o do ator Robert Powel, protagonista da película de Zefirelli.
Mas, definitivamente, o rosto de Cristo não se coaduna com nenhum desses que até hoje nos foram apresentados. Nem mesmo a imagem do Sudário de Turim, o lençol que, supostamente, teria enrolado o corpo de Cristo, nos revela, com exatidão - se é que esse material é autêntico - como seria, de fato, a face de Jesus. Isso angustia, inclusive, alguns evangélicos, que se queixam, por meio da letra de um antigo hino, de não ter o “privilégio que muitos tiveram de ver o Seu rosto, sentir sua mão”. Na melodia, o compositor diz que “também queria, a mesma alegria, de vê-lo bem perto, bem juntinho a mim”. Há um condicionamento em relação à felicidade, já que, somente se tivesse visto a Cristo, diz a música: “ó como eu seria, tão feliz assim”.
Do ponto de vista experiencial, é compreensível o anelo do hinógrafo, seu desejo de ter estado entre os apóstolos e discípulos para também ter visto o rosto de Cristo. Mas da perspectiva bíblica, essa vontade não pode ser alimentada, a não ser na dimensão da esperança escatológica. Somente no futuro, quando veremos a glória de Deus, poderemos, então, vê-LO como Ele é. Enquanto esse momento não chega, somos desafiados a crer. Por isso, Jesus disse a Tomé quanto este desejou vê-LO: “Bem-aventurado os que não viram e mesmo assim creram”. A felicidade do cristão, em todos os tempos, deve estar firmada no ouvir à Palavra de Deus, no Cristo anunciado e proclamado nos evangelhos.
Muitas foram as tentativas de se encontrar um Jesus histórico. Os pesquisadores quiseram identificar, nos registros extrabíblicos, a figura de um outro Jesus, diferente daquele dos evangelistas. Acabaram por desistir dessa empreitada, pois, depois de muitos ensaios, percebeu-se que todos as descrições de Jesus não passam de projeções dos seus pesquisadores, percepções de acordo com a abordagem de cada um deles. Para uns, ele fora um grande líder religioso, para outros um revolucionário político. Mas, afinal de contas, seria mesmo possível dizer quem é Jesus? Acredito que sim, caso contrário, Ele mesmo não teria perguntado a seus discípulos: “Que dizem os homens a meu respeito?”
Mas se quisermos tem um vislumbre de quem realmente fora essa figura tão significativa na história da humanidade, precisamos nos voltar para aqueles que, verdadeiramente, podem nos dizer algo a respeito. Jesus somente pode ser conhecido através do testemunho daqueles que com Ele andaram e caminharam pelas terras poeirentas da Palestina. O testemunho polifônico dos evangelhos é a alternativa que nos resta para nos aproximar de Cristo. Mas esses evangelhos não se preocupam em apresentar a Sua biografia. O Jesus dos evangelhos não é, definitivamente, o Jesus da história, mas o Jesus da fé. Sua história tem como objetivo, nas palavras de um dos evangelistas, de nos levar a crer nEle, e por meio dEle, ter vida eterna.
O Jesus dos evangelhos, desde o nascimento até a Sua morte no calvário, é alguém que vive para os outros. Ele se identificou com as ralés do seu tempo, com os mais simples, os mais necessitados. O dinheiro, a fama e o poder não O seduziram, já que Sua principal missão era fazer a vontade do Pai. A mensagem desse Jesus não se coadunava, como nos dias atuais, com os paradigmas escolhidos pela sociedade. Para Ele, os mais felizes são os que choram, os limpos de coração, os pacificadores, os que têm fome e sede de justiçam, os que são perseguidos por causa do nome dEle. A opção de Jesus fora pelos pecadores, por aqueles que se sentiam necessitados da graça divina. Por outro lado, os religiosos de sua época, travestidos em suas capas de hipocrisia, foram, acintosamente, criticados em Suas pregações. O Jesus dos evangelhos é, para algumas pessoas, uma figura incômoda. Sua abordagem em relação aos valores defendidos no seu tempo, ainda cultivados no mundo moderno, faz com que queiramos fugir dEle. Por temer a impopularidade, os pregadores preferem pregar temas suaves ao invés de pautar o conteúdo de suas mensagens nas Palavras de Cristo. Essa, no entanto, não é uma atitude recente, pois, certa feita, após um dos seus sermões, os ouvintes começaram a se ausentar. Somente os discípulos permaneceram no recinto. Jesus, então, lhes perguntou: “vocês também não querem ir após eles?”. Pedro exclamou: “para quem iremos nós, Senhor, somente tu tens palavra de vida eterna!”. As palavras do Jesus dos evangelhos são, paradoxalmente, tanto provocação quanto conforto.

24 de jan de 2008

Auto-ajuda ou ajuda do Senhor

O mercado livresco está dominado pelos livros de auto-ajuda. Eles estão por toda parte, hoje em dia é possível encontrá-los até mesmo em farmácias e supermercados. A inclusão da categoria “auto-ajuda”, na classificação das vendagens de livros, em algumas das principais revistas e jornais brasileiros, nada há de casual. Algumas editoras justificam a publicação desses livros porque eles capitalizariam a publicação de obras de maior relevância. Outros defendem que a leitura desse tipo de livro, de qualquer forma, introduz as pessoas ao interesse por outros. O perigo, no entanto, é o de criar uma dependência, e tais leitores, sejam incapazes de ler algo mais que exija alguma reflexão.
Do ponto de vista bíblico-teológico, a abordagem propagada pela maioria desses livros não se coaduna com o ensinamento cristão. O problema é que esse material suporta a noção de que nós estamos sempre no controle de tudo e que somos capazes de resolver os problemas por conta própria. Como o rótulo já denuncia, promove a idéia de que podemos encontrar a ajuda dentro de nós mesmos. Remetendo a um célebre poema, denominado “Invictus”, os livros de auto-ajuda propõem que: “Eu sou o mestre do meu destino; Eu sou o capitão da minha alma”. A realidade cristã e as intempéries do cotidiano, no entanto, têm nos mostrado que nem sempre a vida depende do comando humano. Muitas vezes, somos tomados por situações que fogem ao nosso controle.
Esse é o principal motivo pelo qual os cristãos não depositam sua fé, ou pelo menos não deveriam, nesse tipo de perspectiva. O Senhor Jesus, em uma de suas exposições aos seus discípulos, disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo. 15.5). O Senhor deixa claro que a ajuda que precisamos jamais poderá vir exclusivamente de nós mesmos. Há muito tempo, o salmista já havia dito: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl. 46.1). É um equívoco pensar que o ser humano, dependendo apenas de seu potencial, será capaz de encontrar a saída para as vicissitudes da vida. O povo de Israel, nos tempos antigos, colheu frutos amargos dessa opção. Ciente do risco, o profeta Jeremias o advertiu acintosamente: “Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! (Jr. 17.5).
A repreensão de Deus, para o povo de Israel e que também se aplica a nós nos dias atuais, revela a fragilidade de acreditar na suficiência humana. Não podemos esquecer que, distante de Cristo, o ser humano está decaído, carente da graça de Deus (Jo. 3.16; Ef. 2.8,9). E que, mesmo depois de um encontro pessoal com Ele, dependemos da atuação do Espírito Santo, que produz, no cristão, o Seu fruto, com vistas ao crescimento espiritual (Rm. 8; Gl. 5). Depositar toda a confiança em si mesmo, por conseguinte, é um atestado de independência em relação Aquele que nos criou e que nos chamou para que nEle vivêssemos (Jo. 8.12; 11.25). A história tem demonstrado que a confiança exclusiva nos méritos humanos está levando a humanidade à ruína. Como os atenienses do tempo de Paulo, esquecemos que “nEle vivemos, e nos movemos, e existimos” (At. 17.28).Passados esses últimos anos de guerra, fomes e tragédias, esse, certamente, é o momento para que venhamos a refletir e aprender a buscar a ajuda que vem do alto. Antigamente, os salmistas preferiram colocar a confiança não nos deuses egoístas que exigiam sacrifícios humanos. Os altares dedicados a esses deuses eram edificados nas montanhas. Por isso, o autor do salmo 121 alude a esse fato perguntando, ainda que retoricamente: “Elevo os olhos para os montes, de onde vem o socorro?”. E responde logo em seguida: “O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”. Como fizeram esses e tantos outros que andaram no caminho da fé cristã, busquemos a ajuda não dentro de nós mesmos, mas aquela que vem do alto. Ouçamos, portanto, a voz profética de Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor” (Jr. 17.7).