23 de dez de 2007

Deus, mais do que um delírio

O livro “Deus, um delírio”, do cientista Richard Dawkins, recentemente traduzido para o português, vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras e listas de vendas das livrarias nas últimas semanas. A temática do livro não traz, como diz o sábio autor bíblico do Eclesiastes, “nada de novo debaixo do sol” (Ec. 1.9). Apropriando-se das antigas idéias de Feuerbach, Marx, Darwin e Freud, entre outros, ainda que não as referencie textualmente, esse conceituado geneticista, desfere golpes contundentes contra todos aqueles que se atrevem a acreditar na existência de Deus. No tocante aos estudos genéticos, Dawkins, inegavelmente, é um dos mais expoentes pesquisadores. Contudo, quando se atreve a teorizar a respeito da religião, revela-se ser um fundamentalista ateísta, com pouco conhecimento das teorias sociais a esse respeito.
A discussão de Dawkins contra a existência de Deus objetiva, em primeiro plano, refutar a Teoria do Design Inteligente, bastante na moda atualmente, principalmente, nos Estados Unidos. O equívoco de Dawkins começa daí, pois, na verdade, nem todos os cientistas concordam com essa teoria. Alister McGrath, conceituado biofísico molecular inglês que se converteu do ateísmo ao cristianismo, em seu livro “O Delírio de Dawkins”, já traduzido para o português, opõem-se veementemente a esse modelo. No ateísmo de Dawkins, bem como na Teoria do Design Inteligente, a proposta é provar, racionalmente, a existência de Deus. As duas cosmovisões estão em pólos opostos, mas ambas se fundamentam no mesmo paradigma: o de que é possível provar ou não a existência de Deus por meio da razão humana. A esse respeito, a principal pergunta que fazemos é: será realmente possível provar ou negar a existência de Deus em laboratório? e mais: esse tipo de empreitada não seria uma tentativa de objetivação dAquele que, definitivamente, não pode ser objetificado?
Em seu livro, Dawkins critica a religião por ser essa a causa de muitas atrocidades realizadas em nome de Deus. Esse autor, contudo, não se apercebe que, em nome do ateísmo, também muito sangue já fora e ainda tem sido derramado em vários países. A forma como esse cientista se coloca em seu texto pode levar os leitores a acreditarem que a religião é sempre negativa. Mas o que dizer das contribuições sociais advindas de religiosos realmente comprometidos com as transformações sociais? Basta citar os exemplos de Mahatma Gandhi, Madre Tereza, Martin Luther King Jr. O extremismo de Dawkins tem sido criticado, inclusive, por cientistas menos dogmáticos. Alguns deles argumentam que, com a publicação de “Deus, um delírio”, seu autor prestou um grande desserviço à ciência, já que favorece tanto a uma concepção arrogante da ciência quanto a uma intolerância em relação à fé.
Esses cientistas estão preocupados com a tendência de Dawkins porque sua postura se enquadra numa perspectiva cientificizada da sociedade moderna. Ele resgata a já questionada crença de que não há limites para a ciência. Em sua defesa entusiasmada, o autor do livro deixa transparecer que haverá um dia em que todas as incertezas que alimentam a fé serão substituídas pelas explicações científicas. Essa supervalorização da ciência tem sido, já algum tempo, revista tanto por filósofos quanto por alguns cientistas menos ufanistas. Os mais equilibrados reconhecem que, quando se trata de Deus, há muito pouco a dizer. Os elementos da natureza não são suficientes para refutar ou provar Sua existência. Sequer somos capazes de conhecer toda a criação de Deus, pois, como bem nos lembra o autor do Eclesiastes, anteriormente citado: “tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec. 3.11).
A respeito da existência de Deus, quando lemos a Bíblia, observamos que essa não é uma preocupação central. Desde Gênesis, o primeiro livro, no capítulo 1 e verso 1, a existência de Deus é tomada como um pressuposto. O conhecimento de Deus, no contexto da Escritura, é alcançado não através da especulação racional, mas do ato graciosamente revelacional proveniente dEle mesmo. Há dois versículos bíblicos, em particular, que revelam essa verdade com bastante clareza. Em Jo. 1.14, esta escrito: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. O outro se encontra em Hb. 1.1: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”. Ainda que seja possível ter algum vislumbre de um Criador na natureza (Sl. 19) ou na consciência humana (Rm. 1), somente podemos conhecer o Seu amor e a Sua graça por meio de Sua revelação em Jesus Cristo.Enquanto tentamos provar ou negar a existência de Deus, deixamos de contemplar Aquele que se revelou como o Verbo que se fez carne (Jo. 1.1). Ele é a expressão maior de Deus, nEle, encontramos a face do Pai (Jo. 14.9). Deus existe, mas não existe como existe o homem, Ele não pode ser objetificado. Portanto, não é passível de comprovação científica. Por ser um Deus Revelador e Revelado, podemos tão somente nEle crer e obedecê-Lo. A esse respeito, lembremos de Tomé que precisou ver para crer, Jesus, no entanto, lhe disse: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo. 20.29). Um mundo melhor não depende nem do avanço científico, e muito menos de uma religiosidade aparente, mas de uma atitude de obediência e submissão à vontade de Deus para carregar a cruz com Aquele que fora crucificado (Mt. 16.24). Diante dEle, poderemos, como Tomé, cair aos Seus pés, reverentemente, reconhecendo-o como “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo. 20.28).