26 de nov de 2007

Por que orar?

Somos todos produtos da modernidade, talvez, por isso, tenhamos tanta dificuldade de orar. Por que apelar para a oração se podemos resolver tudo como num passe de mágica? Ligamos a TV, e, por meio dos noticiários, é possível saber se vai chover ou fazer sol no final de semana. Se sentimos dores de cabeça, podemos lançar mão de algum analgésico que fará o incômodo passar repentinamente. Se estamos distantes de casa, basta apenas pegar o aparelho celular e discar alguns números para falar com o cônjuge e saber como as crianças estão. A tecnologia nos provê tantos recursos que, às vezes, somos tentados a pensar que a oração é uma atitude desnecessária, para não dizer inútil.
Por que orar? Essa é uma pergunta que me tenho feito constantemente nesses últimos dias. Ao ler as Escrituras, e alguns livros a respeito, observo, na prática, a necessidade real de trilhar o caminho paradoxal da oração. O motivo primordial para valorizar a oração é que Jesus orou inúmeras vezes quando andou pelas estradas empoeiradas da palestina. Se Ele, sendo quem foi, orou, por que nós não faríamos o mesmo? O Senhor nunca se deixou controlar pela visão ativista dos seus contemporâneos. Sempre que o queriam fazer rei, envolvê-lo em algum movimento revolucionário, Ele se ausentava, e à sos, orava. É fato que Ele, mesmo desfrutando de profunda intimidade com o Pai, não teve todas as suas orações respondidas, ainda que, inquestionavelmente, tenham sido ouvidas.
Jesus orou para que o cálice do calvário passasse, fazendo a ressalva de que a vontade do Pai deveria prevalecer. Em submissão ao anseio soberano do Pai, Jesus precisou ir a cruz pelos nossos pecados. Ainda que o cálice não tenha passado, Cristo, no entanto, se levantou daqueles momentos tensos, regados a gotas de sangue, preparado para enfrentar os desafios que haveriam de vir. O valor da oração repousa, nem sempre, na obtenção do que desejamos. É claro que podemos pedir a fim de que o Senhor intervenha nos aspectos mais singulares de nossa existência. Contudo, mesmo que não venhamos a alcançar o que pedimos, descansamos na certeza de que Ele fará sempre o que for melhor, ainda que não o entendamos a princípio. O objetivo primordial da oração não é ter as coisas que Deus pode nos dar, mas é estar em Sua companhia, desfrutando de Sua presença.
Quando oramos, reconhecemos as limitações da existência humana. Aceitamos nossa incompletude, percebemos que somos seres inacabados. Orar é, antes de qualquer coisa, nos relacionarmos com Deus. Sendo Ele infinito, e nós, finitos, precisamos aprender os contrapontos inerentes a esse tipo de relação. Às vezes não dispomos dos termos adequados, não conseguimos empregar a linguagem de forma correta. Felizmente o Espírito Santo nos auxilia, levanto, pelos gemidos inexprimíveis, nossas petições ao Senhor. Mas precisamos cuidar para que nossas orações não passem de práticas egoístas. A oração é necessária também para exercitar nossa sensibilidade em relação aos outros. Quando intercedemos, mostramos o quanto estamos interessados pelos problemas daqueles que nos rodeiam. Orar é também uma expressão de perdão, por isso, quando oramos por aqueles que se opõem a nós, observamos que toda mágua se esvai.
Não oramos apenas para vencer nossos sentimentos em relação aos outros, oramos, principalmente, para sobressair aos obstáculos do dia-a-dia. Quando colocamos as atividades rotineiras diante do Senhor, as atividades começam a se organizar. Nossos medos, pavores e ansiedades também podem ser vencidos por meio da oração. Nossos desejos mais íntimos se iniciam por meio da oração. Oramos na intenção de que Deus transforme o nosso país, para que os governantes tenham mais responsabilidade, que sejam capazes de resistir à tentação da corrupção. Orar, nesse e em outros sentidos, é atuar sobre a sociedade, na busca de que essa seja transformada pelo poder do evangelho de Cristo.Assim, quanto mais o tempo passa, e mais tecnologia tenho ao meu dispor, vejo o quanto precisamos valorizar a oração. É a partir dela que a realidade espiritual passa a fazer algum sentido nessa era tão materialista. Por meio da oração podemos integrar duas realidades que se encontram distanciadas. Quanto menos oramos, mais materialistas nos tornamos, orar, por conseguinte, é um ato contínuo não só de revolução, mas, sobretudo, de rendição. Toda apostasia se inicia através do distanciamento da oração. Se fugimos da oração é porque ela nos instiga à obediência, e vendo desse prisma, orar pode ser algo extremamente arriscado, principalmente, para aqueles que querem conduzir os ditames de suas vidas sem qualquer intervenção divina. Se quisermos ser vencidos pela vontade de Deus, orar é o primeiro passo.